terça-feira, 12 de março de 2013



Priscila Miranda Do Rosário








ensaio poético - versos mais que soltos ou quem disse que escrevemos sempre para UM alguém?
se nada mais der certo
correrei para teus braços
com a promessa de cortar cenouras,
apenas ouvir rádio
e sonhar com os amores da novela

abraçarei essa vida calma,
uma vida sem arrotos
e nem brindes

mas meu bem, te confesso uma coisa
se nada mais der certo,
tentarei tudo de novo
com o mesmo gosto de suspense

não te abraçarei,
não fomos feitos para nós
eu fui feita para o mundo
e você para você mesmo
ou para outro como ti.







domingo, 10 de março de 2013

Ilhéus sob o olhar de Elvira Foeppel – suas transgressões e digressões









Vanilda Salignac Mazzoni1



Por que estou esquecida sem ser mencionada nos livros sagrados?


Elvira Foeppel



      Falar sobre a escritora Elvira Schaun Foeppel é citar a cidade de Ilhéus dos anos 1930-1940 e como a autora está inserida nesse cenário, mostrar como Foeppel viu a cidade e como a cidade a viu. Logo, um painel amplo sobre Ilhéus faz-se importante para entendermos as transgressões e digressões da baiana Elvira Foeppel2.

      O título parece ser pretensioso por tentar abarcar o olhar da escritora grapiúna sob a cidade que ela adotou e legitimou como sendo de sua propriedade. Embora tenha nascido na cidade de Canavieiras, em 15 de agosto de 1923, seus pais mudaram-se, de imediato, para a vizinha Ilhéus. Mal sabia a escritora que o local, escolhido por seus pais, iria influenciar de maneira decisiva a sua vida: Ilhéus foi um caso de amor e de dor na trajetória de Foeppel, que algumas vezes criticou seu conservadorismo e outras vezes dedicou-lhe poemas de “amor e memória”.

A proposta é iniciar com um breve comentário sobre a economia, seguido da vida social e cultural de Ilhéus, e, a partir daí, inserir Elvira Foeppel no contexto.

Economicamente, a alta do preço do cacau, entre 1927 e 1928, deu maior impulso ao porto local e trouxe renda extra para os comerciantes, pois foram agraciados com a chegada constante de navios exportadores. Porém, uma surpresa aguardava os investidores internacionais e os anos 1930 encontraram a cidade portuária vivendo uma comoção econômica mundial com reflexo geral: a quebra da bolsa de valores de New York, ocorrida entre os meses de outubro e novembro do ano anterior, 1929, que repercutiu diretamente na exportação do cacau.

Esse acontecimento abalou a estrutura social e política da cidade, uma vez que os anos anteriores assistiram a uma ascensão financeira dos fazendeiros de cacau da região, aqueles mesmos que, coincidentemente, eram os controladores da política ilheense. Mesmo após a derrocada financeira promovida pela renegociação de dívidas entre as firmas estrangeiras e os fazendeiros falidos com o baixo preço da lavoura cacaueira (o que levou as empresas a incorporarem as fazendas ao seu patrimônio particular), a sociedade burguesa de Ilhéus ainda exercia um forte controle sob o comportamento moral na cidade.

O cenário cultural complementava o cenário político e financeiro. 1931 foi o ano da chegada do alemão Dom Eduardo Herberold, bispo de Ilhéus, que muito lutou para concretizar o sonho de construir a Catedral de São Sebastião. Em 1932, na cidade, só existiam três aparelhos de rádio e as pessoas se revezavam para ouvir as notícias, como os grupos eram numerosos, os ouvintes deveriam chegar mais cedo a fim de conseguir um lugar o mais próximo possível do aparelho.

Na cidade de Ilhéus, nos anos 1930, praticamente só existia uma escola normal, um colégio secundário e algumas escolas primárias. O serviço de saneamento básico, a iluminação pública, a telefonia, as estradas de ferro e os transportes urbanos eram os piores possíveis, mesmo a cidade sendo governada por ricos fazendeiros.

Desde os anos 1920 já havia sido inaugurado o Colégio das Irmãs Ursulinas, o Instituto Nossa Senhora da Piedade, porém, é nos anos 1930 que a congregação se fortalece como responsável pela educação das “moças de família”. Em 1937, foi instalado o Ginásio Municipal, cujo primeiro diretor foi Heitor Dias, um gerente da Caixa Econômica Federal muito querido pela população.

O Convento da Piedade foi erguido em uma colina situada na Quinta cedida pelo Coronel José das Neves Cezar Brasil e D. Adelaide Schaun Brasil, e inaugurado para funcionamento em fevereiro de 1916 com 16 alunas, sendo que a primeira turma formou-se em 20 de novembro de 1923. Reduto da classe média ilheense, somente as meninas tinham acesso a essa escola, e eram, na sua maioria, filhas de coronéis, órfãs ou de classe média. As filhas das famílias abastadas eram enviadas para internatos em outros estados do Sudeste, como o Rio de Janeiro e São Paulo.

Nesse Colégio, Foeppel recebeu instrução formal completa, iniciando seus estudos no Curso Fundamental, em 1936. Suas antigas companheiras do Instituto lembram que a menina costumava, durante as aulas, ficar lendo romances embaixo das carteiras, pouco se importando com as explicações das professoras. Gostava de ler poemas de Adalgisa Nery e romances considerados altamente pornográficos, como O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, o qual ela havia conseguido com o tio, o escritor, professor e intelectual Nelson Schaun, cuja fama alcançava níveis respeitáveis mesmo sendo um comunista convicto (com todos os sentidos pejorativos que este designativo podia conter para uma sociedade abastada e conservadora).

O Professor Schaun era um mestre sempre disposto a lecionar, fazia da sala de estar de sua residência um centro gratuito para o ensino da língua portuguesa. Suas alunas do colégio das Irmãs Ursulinas aprendiam com ele a recitar poetas românticos e parnasianos

Em seu livro, Educação das virgens3, Elizete Silva Passos, reafirma a ideologia e a filosofia do ensino das irmãs ursulinas e da necessidade, por reivindicação do bispo de Ilhéus, D. Manuel Antônio Paiva, de ser fundada na cidade uma escola que se responsabilizasse pela formação feminina. O ensino do Colégio das freiras, tradicionalmente de origem européia, tornou-se motivo de grande orgulho para a cidade.

Na época em que Elvira Foeppel iniciou seus estudos, o Colégio das Irmãs Ursulinas estava sob a direção da Madre Maria Thais do Sagrado Coração Paillart, uma francesa nascida em Cledeny Finistèreque, passando depois à direção de outra francesa, Madre Maria Tereza do Menino Jesus D’Croocq, a antiga secretária de Madre Thais. Elvira Foeppel cursou aí o primário, o atual curso fundamental, e o Magistério, formando-se em 1942.

Sabe-se que as Irmãs Ursulinas esmeravam-se muito no cuidado com a educação das meninas, e sobre esse comportamento, a pesquisadora Elizete Passos comenta que:


[...] o estabelecimento empenhava-se em dar àquelas jovens a formação esmerada que filhas de “novos ricos” precisavam. Assim, além dos cursos de Línguas Estrangeiras, tão significativos para pais que queriam ver as suas filhas falarem uma ‘língua enrolada’, quando muitos deles mal sabiam falar o português, empenhava-se também o estabelecimento nos cursos de pintura e de música4.


Por incentivo cultural do Instituto, em 1938, a adolescente de ascendência alemã, encenou, pela primeira vez, uma peça teatral, apresentada à cidade no “Cine Teatro de Ilhéus”. Mais tarde, a mesma peça foi apresentada em Itabuna, sempre com renda destinada à Fundação Santa Isabel. A peça era uma comédia em três atos, intitulada Divorciados, de Oduvaldo Vianna, encenada para o público como resultado das atividades do CEI (Centro Estudantil de Ilhéus) criado por um grupo de estudantes secundários e universitários, cujo presidente era o diretor de teatro e, depois, médico e escritor, radicado no Rio de Janeiro, José Carlos Vinháes.

Aos quinze anos de idade, Elvira Foeppel ousava protagonizar uma peça de teatro que trazia, para a época, um tema polêmico não só do ponto de vista social, mas também político. A encenação tinha uma proposta de vanguarda sem precedentes para a cidade, e a precoce atriz ousou encarnar o papel da divorciada. Observe-se que Ilhéus estava sob a repressão política, no Estado Novo e sua sociedade, formada por coronéis, era conservadora, além de estar, em 1938, sob o governo do intendente Raymundo do Amaral Pacheco e dos grupos religiosos que controlavam os costumes. Esse fato a fez, hoje, ser considerada como uma das precursoras do feminismo em Ilhéus.

Em 1939, Elvira Foeppel retorna ao teatro. Desta vez, como uma colombina na peça As Máscaras, de Menotti del Picchia5. A peça, dividida em três atos – O Beijo de Arlequim, O Sonho de Pierrot e O Amor de Colombina – teve seu enredo extraído da famosa história, na qual uma moça fantasiada de bailarina encanta dois rapazes, formando um triângulo amoroso. Simbolicamente, Arlequim representa o desejo, Pierrot o amor e Colombina, a mulher, objeto de posse dos dois mascarados. A personagem traz no seu cerne o mesmo sentimento que, mais tarde, estará presente na produção da autora – o desequilíbrio amoroso por não existir a possibilidade de unir duas escolhas que se encontram em dois seres distintos, portanto, a constante ansiedade da contradição e a consequente decepção por não poder reunir os dois sentimentos: o amor e o desejo – na mesma pessoa.

Do período da vida de Foeppel em Ilhéus, sabe-se que era reconhecida como intelectual, vivia na roda de literatos, e que também era uma menina muito “avançada” para uma cidade do interior do Nordeste, em plena repressão Vargas, ainda sob os últimos resquícios da moral vitoriana. O comportamento de Foeppel, à frente de sua geração interiorana, incomodava a sociedade puritana de Ilhéus. Isso contribuiu para que ela fosse marginalizada. Para os seus conterrâneos, a escritora era a imagem da mulher que ultrapassava limites, a transgressora.

O tabelião e escritor Raimundo de Sá Barreto6 lembra-se da jovem escritora que passeava pelas avenidas e clubes da Cidade, que vivia bem, livre, e que, por ser muito inteligente, teve sua vida atrapalhada pela sociedade local. Para ele, a melhor definição de Elvira Foeppel era: intelectual, nunca fora outra coisa. Mesmo assim, foi muito humilhada pela sociedade, que a via, na sua mentalidade avançada, como uma espécie de comunista.

Em uma visão mais generalizada, a escritora tinha aquilo que o senso comum costuma chamar de “personalidade forte ou maldita”, uma autêntica leonina, difícil de ser “domada” e moldada por um código social que sempre impôs à mulher um comportamento passivo, ingênuo e recatado.

Ainda jovem, ela aprendeu a pilotar um avião monomotor em Ilhéus, embora não tenha desejado tirar o brevê, costumava assustar a família dando vôos rasantes sobre à casa dos pais. Desde a época de adolescente, Foeppel já trazia no seu âmago as marcas da transgressão. Ao infringir esse modelo de comportamento em plena década de 1930/40, a escritora, ao nosso olhar, indicia uma liberdade de viver. Contrariando as exigências do modelo feminino da época, aumentando suas contravenções, admirando-a ou reprovando-a as pessoas de Ilhéus a criticavam. Basta lembrar-se do romance Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado, para se ter ideia do ambiente em que viveu a escritora. E, segundo o escritor Hélio Pólvora7, provavelmente, foi na imagem da escritora que Jorge Amado se inspirou para compor a personagem Malvina.

Finalmente, em 1944, Elvira Foeppel despediu-se de Ilhéus em busca de novos caminhos, porém seu valor literário foi reconhecido e citado até mesmo pela maior referência literária da cidade, o escritor Jorge Amado, na ocasião em que proferiu um discurso em honra à Cidade e aos ficcionistas grapiúnas, que conservavam a memória de Ilhéus, irmãos de ofício e de labuta8:


Quero brindar em tua honra com os ficcionistas grapiúnas, os que narraram tuas histórias e inventaram tua humanidade, conservam viva tua memória: Adonias Filho, James Amado, Jorge Medauar, Hélio Pólvora, Sônia Coutinho, Emmo Duarte, Elvira Foeppel, Cyro de Mattos, Marcos Santarita, Clodomir Xavier de Oliveira, meus irmãos de ofício e de labuta.


Finalizando...


Ao sair de Ilhéus, Elvira Foeppel deixou para trás a sua história que refletia, através dos coronéis e intendentes, a repressão pela qual passava o país e alicerçava as bases de uma cidadezinha rica, mas profundamente provinciana e conservadora. Foeppel foi criada em meio à ditadura Vargas, o Estado Novo e, na despedida, viu, ainda, o governo ilheense de Almir Brandão Pinto, juntamente com o progresso cacaueiro na região.

Foi fácil para Foeppel suportar tanta pressão? Possivelmente não. Por vários motivos: sua beleza incomodava outras mulheres e assustava os homens; sua intelectualidade não era reconhecida à época; seus anseios por liberdade não eram aceitos. Embora estivesse vivendo no século XX, seus problemas existenciais eram, praticamente, os mesmos dos séculos anteriores – ainda não se reconhecia os direitos femininos de circulação em espaço público (a mulher deveria casar e cuidar da família); a mulher não frequentava os mesmos espaços dos homens; ela não podia opinar com pensamentos próprios (deveria concordar com o marido ou o pai); a mulher solteira não era bem vista. Essa foi a ambiência de Foeppel. A frustração e a decepção ficaram evidenciadas em sua escrita.

Marcas profundas da referência de Ilhéus em sua memória ficaram registradas na sua literatura, em crônicas sobre a cidade que lhe despertou sentimentos de amor e dor. Talvez residam nessa cidade os mistérios que cercam o mundo interior de Elvira Foeppel. Mas isso é outra prosa.



REFERÊNCIA


AMADO, Jorge. Declaração de amor à Cidade de São Jorge dos Ilhéus. Disponível no site http://www.brasil.terravista.pt/AreiasBrancas/2952/ilheus.thm.



BARRETO, Raimundo Sá. Notas de um tabelião de Ilhéus. 2.ed. São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1988.



FOEPPEL. Elvira Schaun. Chão e poesia. Rio de Janeiro: Organizações Simões, 1956.

______. Circulo do medo. Rio de Janeiro: Editora Leitura, 1960.

______. Muro frio. Rio de Janeiro: Editora Leitura, 1961.



MAZZONI, Vanilda Salignac de S. A violeta grapiúna: vida e obra de Elvira Foeppel. Ilhéus: Editus, 2003.

______. LOSE, Alicia Duhá (Org.). Da sombra à luz: seleção de contos de Elvira Foeppel. Ilhéus: Editus, 2004.

2008: MAZZONI, Vanilda Salignac de S. Um diário em cena: Chão e poesia, de Elvira Foeppel In: O olhar de Castro Alves: ensaios críticos de literatura baiana. Salvador: Assembleia Legislativa do Estado da Bahia; Academia de Letras da Bahia, p. 447-453.

______. ALVES, Ívia. Elvira Foeppel. In: ALVES, Ivia, BRANDÃO, Isabel (Org.). Retratos à margem: antologia de escritoras das Alagoas e Bahia (1900-1950). Maceió: Universidade Federal de Alagoas, 2002.

______. Elvira Foeppel. Revista Iararana, Salvador, v.1, p.16-17.

______. Entre um punhal e uma rosa: uma análise do discurso na lírica de Elvira Foeppel. Quinto Império (Salvador), v.1, p.33-38.



PASSOS, Elizete Silva. Educação das virgens – um estudo do cotidiano do Colégio Nossa Senhora das Mercês. Rio de Janeiro: Editora Universitária Santa Úrsula, 1995.



PICCHIA, Menotti del. As máscaras. 15. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1935.



SCHAUN, Maria. Nelson Schaun merece um livro ... . Ilhéus: Editus, 2001.

1 Doutora em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pós-doutora em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UGMG). É professora da Faculdade São Bento da Bahia, onde também coordena os cursos de Especialização em Arte e Patrimônio Cultural, Gramática e Literatura em Língua Portuguesa, e ainda é coordenadora de pesquisa do Centro de Pesquisa e Documentação do Livro Raro do Mosteiro de São Bento da Bahia. Atua nas áreas de gênero e em patrimônio cultural.

2 Elvira Schaun Foeppel foi romancista, contista, poeta e jornalista. Nasceu em Canavieiras, Bahia, no dia 15 de agosto de 1923 e faleceu no Rio de Janeiro (para onde se mudou em 1947) no dia 28 de julho de 1998. Foeppel deixou publicados três livros: Chão e poesia (1956), Círculo do medo (1960) e Muro frio (1961), além de vários textos dispersos em antologias e periódicos diversos como as revistas O Cruzeiro, Imparcial, Leitura e Carioca.

3 PASSOS, 1995, p.77-81.

4 PASSOS, 1995, p. 79.

5 PICCHIA, 1935.

6 Entrevista concedida por Raimundo de Sá Barreto, em Ilhéus, BA, em 18/10/2000.

7 Depoimento concedido por Hélio Pólvora em Ilhéus, BA, em 18/10/2000.

8 AMADO, Jorge. Discurso em praça pública em junho de 1981, quando da comemoração do centenário da Cidade de Ilhéus.
    
     Iolanda Costa



 




antese
 
 
 

 
Sempre sonhava com palavras e imagens estáticas, como numa fotografia. Numa madrugada de março do ano de 2003, quando Clara já havia partido, apareceu um vaso, turvo e profundo e estilhaçado. Um útero, talvez, libertando-me de novas crias, fazendo-me lembrar da mulher e da poesia que ainda permaneciam. Acordei com a palavra antese escrevida na minha boca, bem no palato, quase cheia de pétalas...  

 
 
a flor, sempre prolífera
reinventa outras funções.
o fundo, o fátuo
o escuro vaso
guarda o estardalhaço
das antigas reproduções.
o rosto da mulher se ilumina.
dentro da madrugada
um olhar de fada encanta.
                        (Do livro Poemas Sem Nenhum Cuidado, 2006.)

                  

 
 
Gláucia Lemos
 
 


 
 
 
O SONETO DOS IRREDIMIDOS
 
 

Guardarás a palavra, e da palavra
o segredo q nunca te direi
saber. Como em nós próprios se guardava
o mal q me causaste e eu te causei.

Fui teus olhos, tuas mãos, e a própria clava
fui, na tua luta. Escravo foste, e rei
no meu destino. Me amaste o q restava
do pouco q eu quis ser, mas ser não sei.

Fica de nós, legado de dois loucos,
dos q se amaram como se amam poucos,
dos q tudo se deram, sem ter nada.

A nós, por pena, cabe uma alma exangue,
sentirás chagas no teu ombro em sangue,
da cruz q no meu ombro é carregada.    (publicado na Revista da ALB nº 50.)



GILKA BANDEIRA




pequenas viagens nos aromas


da
 
noite


 

Pelas janelas abertas a noite entra. Uma noite jasmineira de lua cheia, com alvas velas pandas passando no céu, de longe tangidas pela brisa do mar. Um sutil chamamento se espalha no ar. Não basta estar das janelas a mirar. Impossível ficar embaixo de algum teto. Então ela caminha para dentro da noite. Segue no entorno da lagoa a passear.

Vai pela via entre a lagoa e o mar. Mas, mar escondido na ramaria das chácaras. Ramarias que reluzindo ao luar, derramam sombras moventes aqui e ali. Em sossego vai escutando o silêncio, concerto para sapos, grilos e marulhos, vai ao íntimo ermo da bela noite, sorvendo o que há de muito bom em tudo isto.

Em breve faz uma pequena descoberta: esta não é só uma noite jasmineira. Muitas são as fragrâncias que a perfumam. Araçaranas, eucaliptos, pitangueiras, cajueiros e mais certas flores agrestes. Também de terra molhada e do salitre. Embora juntos, os cheiros não se misturam. Cada qual sendo uma “madeleine” de Proust. Cada um por instante perdura no ar, espargindo rostos, falas e lugares. Alguns deles muito, muito preciosos.

Ela tão simplesmente acolhe o que chega. Como a velocidade do tempo mental, infinitamente excede o do físico, até que os passos alcancem novo aroma, se cumpre a visita da sugestão de antes. Inda assim procura prolongar as passadas, delongando a especial degustação.

Sob penetrante cheiro das araçaranas, num fim de tarde que já ficara distante, ela volta andar na vasta vala do rio, que paralelamente seguia a praia, entre as altas dunas confeitadas de matos. Da praia nem da rua podia ser vista. Sozinha explorava o leito sem água. De repente escutou o espanta-boiada. Com alerta dado surgiram os demais. Mais um, mais outro e o bando por inteiro. Com certeza havia ninhos ali por perto, e eles não estavam para brincadeiras. Histericamente gritavam sem parar. Vieram em ameaçantes vôos rasantes, só desviando no derradeiro instante, em consecutivas ofensivas diretas. Sentiu-se dentro do filme de Hitchcock. Apressou o passo em direção das dunas e além de escapar dos enfurecidos pássaros, recebeu o bálsamo das araçaranas, em abundante florescência por ali.

Do episódio outras lembranças do lugar: da janela donde se via navio passar, o sol surgir e a lua cheia nascer, e a violeta lagoa em meio a junqueira, e os casacas-de-couro arrumando o ninho, e a visita sempre pontual dos cardeais, e os almoços e os bate-papos no quiosque, e as ventanias e tantas outras coisinhas, mas tão ardentes e sentidamente caras.

Na intensa emanação dos eucaliptos ela viajou direto pra velha chácara, onde existiam cinco pés destas mirtáceas. Um com mais de trinta metros de altura. Contemplando-o entendia Guimarães Rosa: “Só se sabe do vento no balanço dos ramos extremos do eucalipto." Talvez, sendo grandes sedentos bebedores, não devessem ter sido plantados ali, numa área assim já tão carente de água. Mas não importava se tanto eles perfumavam o quintal, a casa, a vizinhança inteira em qualquer estação, estando com flores ou não, mesmo quando anualmente se descascavam para exibir liso tronco novo. A árvore toda, não só as flores, recendendo pra todos os lados, incensavam tantas idéias, tantos planos, tantos sonhos, tantas tentativas, tanto sentir, tantas emoções.

Tantos e tantas que ela não conseguia eleger alguma em que mergulhar neste reviver. Simplesmente borboleteava, haurindo o quê de mais significativo vigorava de cada qual. Visto a falta de resultados palpáveis e, sobretudo, por não ter perdurado, poderia, numa avaliação precipitada, concluir que tudo fora em vão. Mas ela agora, vagando no tempo, montada nos aromas daquela noite serena, deixara a impulsividade para trás e atingindo o reino das sutilezas, percebia como tudo aquilo a enriquecia, incluso as perdas e frustrações.

Logo emergem os eflúvios das pitangueiras e, ela passa a arrumar o presépio com as casinhas feitas de caixas de fósforo, enquanto a mãe põe galhos de pitangas nos jarros, explicando que no Natal não podia faltar folhas de pitangas na casa, nos vasos e algumas jogadas no chão. E na última noite do ano, as folhas das pitangueiras do Natal, já secas, deveriam ser colocadas junto ao incenso para defumar a casa. Ouvia, noutras manhãs de Natal, vendedores mercando: “olhe as pitangas”. Hoje, com o Natal norte-americanamente mercantilizado, estas singelezas da nossa cultura desapareceram, mas ela, todas as manhãs de 24 de dezembro, sai atrás das pitangueiras para enfeitar a casa e o presépio que continua armando.

Dos presépios ela chega, ainda menina, a um quintal onde se diverte subindo na enorme velha pitangueira. E depois, em passeio com o pai e a mãe, passa num sítio histórico, no qual o cemitério (coisa nunca vista antes) era todo cercado por sebe de pitangueiras aparadas e sem frutos, como as atuais deste caminho noturno. Em compensação se depara com a imensa e dadivosa pitangueira bem posta no meio do terreno da chácara, totalmente esbranquiçada no acúmulo das suas mimosas alvas florezinhas. Ou com a mesma árvore, em outro estado, pontilhada de vermelho dos frutos lustrosos, rodeada por esvoaçantes e bulhentos sanhaços, tiés-sangue e outros famintos e alegres passarinhos. Como de hábito, senta à sombra desta pitangueira e, como de outras feitas, torna a escutar o vento a ditar sabedoria. Então descobre quanta pitangueira existia na sua vida.

Agora, pela via da noite encantada se alastra o aroma resinoso dos cajueiros em fim de safra. E quase de imediato se posta para fotografia num dos tentáculos do espalhado cajueiro-polvo. Tempo de férias, de liberdade exploratória de novas trilhas físicas e metafóricas. Tempo de amorosa promissão e de forças renovadas.

Mas logo é o cheiro de certas flores silvestres que se insinua levando-a a uma fazenda no semi-árido, donde, vista do alto de uma colina, as nuvens, no horizonte em lusco-fusco da tardinha que se ia, eram tal qual o mar. Insólita, mas também bem pressagiada esta sugestão do casamento do mar com o sertão.

Prosseguindo dentro da noite e a receber as sucessivas, às vezes também simultâneas fragrâncias, ela ia peregrinando por entre as lembranças e sensações. Descobre que nem sempre a saudade é lacuna do perdido, vez por outra, é também recheio do amealhado ao longo da existência. E assim pensando ela dá graças: Bem aventurada força do pensamento! Nele desaparecem as amarras espaços-temporais, dando lugar a infinitude. E ela vai, a noite avança.

sábado, 9 de março de 2013



 
MARTHA GALRÃO







Fui pleno manguezal.
Como minha bisavó, minha avó, minha mãe
eu pari uma menina
eu pari uma mulher.
Não há, meus orixás, nesse mundo,
felicidade maior do que essa.





Foto:
Haroldo Abrantes



sexta-feira, 8 de março de 2013

 
 
 
 





Andrea De Godoy
 Neto




 
Vazante


a lua míngua
no meu ventre
e eu (dis)corro
sangue
pelas pernas
sobre pétalas de pele

 
 
 

Arbítrio

ouve
meu silêncio de mulher
é mais forte
do que a tua voz

e se me calo
em invernos eternos
é porque consinto
com o que sinto

mas não te enganes
se guardo facas
nas minhas botas
é sob a saia
que oculto precipícios











Lívia Natália

 
Freudiana




No mais fundo dos homens que amo
há meu pai, com sua carne de maresias.
Ele se desenha na pele dos meus homens
como o mar inscreve, no peixe, as escamas.

(Todo corpo em que derivo absorta
tem algo de sua voz pedregosa.)

Nas peles negras em que me banho
flutua sua existência de maré:
prenhe de naufrágios.

Aos pés destes timoneiros delicados
que pensam singrar minhas águas
sou a kianda-sereia,
um coral espelhado,
sou a ostra que se desmora em silêncio.

Sou a água eternamente translúcida.
Precipício denso de onde estes peixes bebem
- apenas -
um silêncio delicado.











ÂNGELA VILMA









 
Mulher,
 

Sou do signo de escorpião, com ascendente em libra e lua em peixes: mulher, infinitamente. Meus gestos, meu choro e meus vestidos; minha alma, meus gemidos, meu destino: tudo converge para o feminino. Não sei fritar um ovo, meu arroz e meu macarrão são defeituosos; mas sei ver-te ainda moço, tocar as linhas de tua mão e as raízes de teu corpo, plantadas num tempo anterior.

Se eu te dissesse que não lavo roupa direito, que comprei uma máquina de lavar mas não sei manuseá-la; que não consigo abrir um pacote de bolacha sem que todas caiam; que minha casa se equilibra entre uma nuvem e um rio; que em tempo de estio vivo a dormir na varanda invisível, de um tempo que para sempre se acaba...?

Se eu te dissesse que tudo em minha casa parece em ordem, mas dentro dos armários roupas tropeçam umas nas outras; dentro da geladeira comidas antigas se mortificam; dentro dos livros rosas esquecidas despontam soltas...?

Sou, no horóscopo chinês, "cabra" : não sei declarar imposto de renda. Não sei dirigir carro, nem bicicleta. Não sei assoviar, muito menos nadar. Não sei andar de salto alto, nem passar sombras nas pálpebras: meus olhos são nus, exageradamente, sem nenhum rímel; meus cabelos crespos enfrentam, ao vivo, o vento mais inóspito, sem nenhum charme, sem nenhuma esperança; mas meu corpo - mesmo sem filhos - perpetua minha espécie, feita de leite, germe, heranças.
 
 
 
 
 
 



Lita Passos
 
 
 





SANTA DOIDA


Trago em minhas mãos acesas

Uma santa doida que atiça chamas

Que atiça pedras

Que atiça cheiros

Que atiça sonhos


Trago em meus pés ardentes

Plantados no chão

Lonjuras

Transcendências

Tocaias, cicatrizes.


Trago nos meus olhos de espelhos

Pastagens do Saara

Mares do sertão

Trovão de estrelas

Rebanho de canções


Trago em minhas mãos acesas

Uma santa doida que atiça estrelas

Anjos com infinito fôlego

Mulheres sedentas

Espanto de meninas


Trago em minhas mãos doidas

Uma santa clara que atiça espelhos

Que me vigia

Que me alivia

Que me dá juízo.

Lita Passos/12



 
 

 
 
 
RESINA
Vês a resina que escorre da lua?
É minha lágrima
Molhando este chão
Inútil.






 


 
CLARISSA MACEDO
 
 
 
 
 

 





 
Musa de tintas
Para Frida Kahlo


 
 


Tua tez: cheia de negros cabelos.
Mãos: com harpas de vivas flores.
Sombria costela de soluços e de dores,
teus sublimes e ondeados desesperos
são alimento e rasura pra minhas telas,
que de palavras, agruras e esperas,
por ti são mais duras, ganham forças.
 
Ó mulher que bebia instantes
se tuas longas querelas não as pôde curar,
porque é da vida esta tristeza só e constante,
foste cálida e rochosa poeta de cores –
das mais lindas. Mostraste ao mundo,
os mais fundos, e eternos temores.











 
 
 
 
SARAU DAS MULHERES MOBILIZA COMUNIDADE ARTÍSTICA

 

"Ninguém me peça, tente, exija, que regresse à clausura dos outros."


(Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa.

Em: "Novas cartas portuguesas", 1971)

 

 

            Nem só de movimentos políticos vive o 08 de março. Infelizmente a data também é marcada por homenagens pontuais às mulheres. Há os riscos de apropriações mercadológicas (como outras datas “comemorativas”), o que, por vezes, desvia as atenções. Mulheres são mulheres a todo tempo, em todos os momentos e, como tais, ainda enfrentam, no cotidiano, diversas formas de violência, discriminação e preconceito.

Homenagem pontual: definitamente essa não é a proposta do SARAU DAS MULHERES. O evento é uma iniciativa de produtoras/es e artistas do eixo Ilhéus-Itabuna e tem o objetivo de enfatizar o protagonismo feminino no campo das artes. Com isso pretende-se destacar como as mulheres fazem arte para resistir e se organizar.

O evento deve funcionar como espaço alternativo para a visibilidade do que se produz, na atualidade, nesse nosso fértil território cultural. Para tanto, nada mais adequado do que a escolha da CASA DOS ARTISTAS como ponto de encontro.A primeira edição do SARAU DAS MULHERES vai trazer ao público, gratuitamente, muita POESIA, MÚSICA, DANÇA, articulando reinvindicações culturais, divulgação artística e defesa dos Direitos das Mulheres e LGBT.

Toda a programação do SARAU DAS MULHERES é aberta ao público e conta com a participação de artistas locais. O evento é organizado de maneira colaborativa e conta com o apoio da CASA DOS ARTISTAS. Haverátransmissão ao vivo (http://www.ustream.tv/channel/outraprimavera) realizada pelo Coletivo de Poesia “Outra Primavera”.

 

O que: I SARAU DAS MULHERES

Quando: 08 de março (sexta-feira), às 19h

Onde: Porta da Casa dos Artistas (Quarteirão Jorge Amado, Ilhéus, Bahia

 

 

Produção:

Daniela Galdino, Neia Dendê, Cris Passos, Lorenza Mucida, Portira Castro, Elielton Cabeça, Brisa Aziz, Ize Duque, Laisa Eça, Erika Cotrim, Mither Amorim.