domingo, 10 de março de 2013

    
     Iolanda Costa



 




antese
 
 
 

 
Sempre sonhava com palavras e imagens estáticas, como numa fotografia. Numa madrugada de março do ano de 2003, quando Clara já havia partido, apareceu um vaso, turvo e profundo e estilhaçado. Um útero, talvez, libertando-me de novas crias, fazendo-me lembrar da mulher e da poesia que ainda permaneciam. Acordei com a palavra antese escrevida na minha boca, bem no palato, quase cheia de pétalas...  

 
 
a flor, sempre prolífera
reinventa outras funções.
o fundo, o fátuo
o escuro vaso
guarda o estardalhaço
das antigas reproduções.
o rosto da mulher se ilumina.
dentro da madrugada
um olhar de fada encanta.
                        (Do livro Poemas Sem Nenhum Cuidado, 2006.)

                  

 
 
Gláucia Lemos
 
 


 
 
 
O SONETO DOS IRREDIMIDOS
 
 

Guardarás a palavra, e da palavra
o segredo q nunca te direi
saber. Como em nós próprios se guardava
o mal q me causaste e eu te causei.

Fui teus olhos, tuas mãos, e a própria clava
fui, na tua luta. Escravo foste, e rei
no meu destino. Me amaste o q restava
do pouco q eu quis ser, mas ser não sei.

Fica de nós, legado de dois loucos,
dos q se amaram como se amam poucos,
dos q tudo se deram, sem ter nada.

A nós, por pena, cabe uma alma exangue,
sentirás chagas no teu ombro em sangue,
da cruz q no meu ombro é carregada.    (publicado na Revista da ALB nº 50.)



GILKA BANDEIRA




pequenas viagens nos aromas


da
 
noite


 

Pelas janelas abertas a noite entra. Uma noite jasmineira de lua cheia, com alvas velas pandas passando no céu, de longe tangidas pela brisa do mar. Um sutil chamamento se espalha no ar. Não basta estar das janelas a mirar. Impossível ficar embaixo de algum teto. Então ela caminha para dentro da noite. Segue no entorno da lagoa a passear.

Vai pela via entre a lagoa e o mar. Mas, mar escondido na ramaria das chácaras. Ramarias que reluzindo ao luar, derramam sombras moventes aqui e ali. Em sossego vai escutando o silêncio, concerto para sapos, grilos e marulhos, vai ao íntimo ermo da bela noite, sorvendo o que há de muito bom em tudo isto.

Em breve faz uma pequena descoberta: esta não é só uma noite jasmineira. Muitas são as fragrâncias que a perfumam. Araçaranas, eucaliptos, pitangueiras, cajueiros e mais certas flores agrestes. Também de terra molhada e do salitre. Embora juntos, os cheiros não se misturam. Cada qual sendo uma “madeleine” de Proust. Cada um por instante perdura no ar, espargindo rostos, falas e lugares. Alguns deles muito, muito preciosos.

Ela tão simplesmente acolhe o que chega. Como a velocidade do tempo mental, infinitamente excede o do físico, até que os passos alcancem novo aroma, se cumpre a visita da sugestão de antes. Inda assim procura prolongar as passadas, delongando a especial degustação.

Sob penetrante cheiro das araçaranas, num fim de tarde que já ficara distante, ela volta andar na vasta vala do rio, que paralelamente seguia a praia, entre as altas dunas confeitadas de matos. Da praia nem da rua podia ser vista. Sozinha explorava o leito sem água. De repente escutou o espanta-boiada. Com alerta dado surgiram os demais. Mais um, mais outro e o bando por inteiro. Com certeza havia ninhos ali por perto, e eles não estavam para brincadeiras. Histericamente gritavam sem parar. Vieram em ameaçantes vôos rasantes, só desviando no derradeiro instante, em consecutivas ofensivas diretas. Sentiu-se dentro do filme de Hitchcock. Apressou o passo em direção das dunas e além de escapar dos enfurecidos pássaros, recebeu o bálsamo das araçaranas, em abundante florescência por ali.

Do episódio outras lembranças do lugar: da janela donde se via navio passar, o sol surgir e a lua cheia nascer, e a violeta lagoa em meio a junqueira, e os casacas-de-couro arrumando o ninho, e a visita sempre pontual dos cardeais, e os almoços e os bate-papos no quiosque, e as ventanias e tantas outras coisinhas, mas tão ardentes e sentidamente caras.

Na intensa emanação dos eucaliptos ela viajou direto pra velha chácara, onde existiam cinco pés destas mirtáceas. Um com mais de trinta metros de altura. Contemplando-o entendia Guimarães Rosa: “Só se sabe do vento no balanço dos ramos extremos do eucalipto." Talvez, sendo grandes sedentos bebedores, não devessem ter sido plantados ali, numa área assim já tão carente de água. Mas não importava se tanto eles perfumavam o quintal, a casa, a vizinhança inteira em qualquer estação, estando com flores ou não, mesmo quando anualmente se descascavam para exibir liso tronco novo. A árvore toda, não só as flores, recendendo pra todos os lados, incensavam tantas idéias, tantos planos, tantos sonhos, tantas tentativas, tanto sentir, tantas emoções.

Tantos e tantas que ela não conseguia eleger alguma em que mergulhar neste reviver. Simplesmente borboleteava, haurindo o quê de mais significativo vigorava de cada qual. Visto a falta de resultados palpáveis e, sobretudo, por não ter perdurado, poderia, numa avaliação precipitada, concluir que tudo fora em vão. Mas ela agora, vagando no tempo, montada nos aromas daquela noite serena, deixara a impulsividade para trás e atingindo o reino das sutilezas, percebia como tudo aquilo a enriquecia, incluso as perdas e frustrações.

Logo emergem os eflúvios das pitangueiras e, ela passa a arrumar o presépio com as casinhas feitas de caixas de fósforo, enquanto a mãe põe galhos de pitangas nos jarros, explicando que no Natal não podia faltar folhas de pitangas na casa, nos vasos e algumas jogadas no chão. E na última noite do ano, as folhas das pitangueiras do Natal, já secas, deveriam ser colocadas junto ao incenso para defumar a casa. Ouvia, noutras manhãs de Natal, vendedores mercando: “olhe as pitangas”. Hoje, com o Natal norte-americanamente mercantilizado, estas singelezas da nossa cultura desapareceram, mas ela, todas as manhãs de 24 de dezembro, sai atrás das pitangueiras para enfeitar a casa e o presépio que continua armando.

Dos presépios ela chega, ainda menina, a um quintal onde se diverte subindo na enorme velha pitangueira. E depois, em passeio com o pai e a mãe, passa num sítio histórico, no qual o cemitério (coisa nunca vista antes) era todo cercado por sebe de pitangueiras aparadas e sem frutos, como as atuais deste caminho noturno. Em compensação se depara com a imensa e dadivosa pitangueira bem posta no meio do terreno da chácara, totalmente esbranquiçada no acúmulo das suas mimosas alvas florezinhas. Ou com a mesma árvore, em outro estado, pontilhada de vermelho dos frutos lustrosos, rodeada por esvoaçantes e bulhentos sanhaços, tiés-sangue e outros famintos e alegres passarinhos. Como de hábito, senta à sombra desta pitangueira e, como de outras feitas, torna a escutar o vento a ditar sabedoria. Então descobre quanta pitangueira existia na sua vida.

Agora, pela via da noite encantada se alastra o aroma resinoso dos cajueiros em fim de safra. E quase de imediato se posta para fotografia num dos tentáculos do espalhado cajueiro-polvo. Tempo de férias, de liberdade exploratória de novas trilhas físicas e metafóricas. Tempo de amorosa promissão e de forças renovadas.

Mas logo é o cheiro de certas flores silvestres que se insinua levando-a a uma fazenda no semi-árido, donde, vista do alto de uma colina, as nuvens, no horizonte em lusco-fusco da tardinha que se ia, eram tal qual o mar. Insólita, mas também bem pressagiada esta sugestão do casamento do mar com o sertão.

Prosseguindo dentro da noite e a receber as sucessivas, às vezes também simultâneas fragrâncias, ela ia peregrinando por entre as lembranças e sensações. Descobre que nem sempre a saudade é lacuna do perdido, vez por outra, é também recheio do amealhado ao longo da existência. E assim pensando ela dá graças: Bem aventurada força do pensamento! Nele desaparecem as amarras espaços-temporais, dando lugar a infinitude. E ela vai, a noite avança.

sábado, 9 de março de 2013



 
MARTHA GALRÃO







Fui pleno manguezal.
Como minha bisavó, minha avó, minha mãe
eu pari uma menina
eu pari uma mulher.
Não há, meus orixás, nesse mundo,
felicidade maior do que essa.





Foto:
Haroldo Abrantes



sexta-feira, 8 de março de 2013

 
 
 
 





Andrea De Godoy
 Neto




 
Vazante


a lua míngua
no meu ventre
e eu (dis)corro
sangue
pelas pernas
sobre pétalas de pele

 
 
 

Arbítrio

ouve
meu silêncio de mulher
é mais forte
do que a tua voz

e se me calo
em invernos eternos
é porque consinto
com o que sinto

mas não te enganes
se guardo facas
nas minhas botas
é sob a saia
que oculto precipícios











Lívia Natália

 
Freudiana




No mais fundo dos homens que amo
há meu pai, com sua carne de maresias.
Ele se desenha na pele dos meus homens
como o mar inscreve, no peixe, as escamas.

(Todo corpo em que derivo absorta
tem algo de sua voz pedregosa.)

Nas peles negras em que me banho
flutua sua existência de maré:
prenhe de naufrágios.

Aos pés destes timoneiros delicados
que pensam singrar minhas águas
sou a kianda-sereia,
um coral espelhado,
sou a ostra que se desmora em silêncio.

Sou a água eternamente translúcida.
Precipício denso de onde estes peixes bebem
- apenas -
um silêncio delicado.











ÂNGELA VILMA









 
Mulher,
 

Sou do signo de escorpião, com ascendente em libra e lua em peixes: mulher, infinitamente. Meus gestos, meu choro e meus vestidos; minha alma, meus gemidos, meu destino: tudo converge para o feminino. Não sei fritar um ovo, meu arroz e meu macarrão são defeituosos; mas sei ver-te ainda moço, tocar as linhas de tua mão e as raízes de teu corpo, plantadas num tempo anterior.

Se eu te dissesse que não lavo roupa direito, que comprei uma máquina de lavar mas não sei manuseá-la; que não consigo abrir um pacote de bolacha sem que todas caiam; que minha casa se equilibra entre uma nuvem e um rio; que em tempo de estio vivo a dormir na varanda invisível, de um tempo que para sempre se acaba...?

Se eu te dissesse que tudo em minha casa parece em ordem, mas dentro dos armários roupas tropeçam umas nas outras; dentro da geladeira comidas antigas se mortificam; dentro dos livros rosas esquecidas despontam soltas...?

Sou, no horóscopo chinês, "cabra" : não sei declarar imposto de renda. Não sei dirigir carro, nem bicicleta. Não sei assoviar, muito menos nadar. Não sei andar de salto alto, nem passar sombras nas pálpebras: meus olhos são nus, exageradamente, sem nenhum rímel; meus cabelos crespos enfrentam, ao vivo, o vento mais inóspito, sem nenhum charme, sem nenhuma esperança; mas meu corpo - mesmo sem filhos - perpetua minha espécie, feita de leite, germe, heranças.
 
 
 
 
 
 



Lita Passos
 
 
 





SANTA DOIDA


Trago em minhas mãos acesas

Uma santa doida que atiça chamas

Que atiça pedras

Que atiça cheiros

Que atiça sonhos


Trago em meus pés ardentes

Plantados no chão

Lonjuras

Transcendências

Tocaias, cicatrizes.


Trago nos meus olhos de espelhos

Pastagens do Saara

Mares do sertão

Trovão de estrelas

Rebanho de canções


Trago em minhas mãos acesas

Uma santa doida que atiça estrelas

Anjos com infinito fôlego

Mulheres sedentas

Espanto de meninas


Trago em minhas mãos doidas

Uma santa clara que atiça espelhos

Que me vigia

Que me alivia

Que me dá juízo.

Lita Passos/12



 
 

 
 
 
RESINA
Vês a resina que escorre da lua?
É minha lágrima
Molhando este chão
Inútil.






 


 
CLARISSA MACEDO
 
 
 
 
 

 





 
Musa de tintas
Para Frida Kahlo


 
 


Tua tez: cheia de negros cabelos.
Mãos: com harpas de vivas flores.
Sombria costela de soluços e de dores,
teus sublimes e ondeados desesperos
são alimento e rasura pra minhas telas,
que de palavras, agruras e esperas,
por ti são mais duras, ganham forças.
 
Ó mulher que bebia instantes
se tuas longas querelas não as pôde curar,
porque é da vida esta tristeza só e constante,
foste cálida e rochosa poeta de cores –
das mais lindas. Mostraste ao mundo,
os mais fundos, e eternos temores.











 
 
 
 
SARAU DAS MULHERES MOBILIZA COMUNIDADE ARTÍSTICA

 

"Ninguém me peça, tente, exija, que regresse à clausura dos outros."


(Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa.

Em: "Novas cartas portuguesas", 1971)

 

 

            Nem só de movimentos políticos vive o 08 de março. Infelizmente a data também é marcada por homenagens pontuais às mulheres. Há os riscos de apropriações mercadológicas (como outras datas “comemorativas”), o que, por vezes, desvia as atenções. Mulheres são mulheres a todo tempo, em todos os momentos e, como tais, ainda enfrentam, no cotidiano, diversas formas de violência, discriminação e preconceito.

Homenagem pontual: definitamente essa não é a proposta do SARAU DAS MULHERES. O evento é uma iniciativa de produtoras/es e artistas do eixo Ilhéus-Itabuna e tem o objetivo de enfatizar o protagonismo feminino no campo das artes. Com isso pretende-se destacar como as mulheres fazem arte para resistir e se organizar.

O evento deve funcionar como espaço alternativo para a visibilidade do que se produz, na atualidade, nesse nosso fértil território cultural. Para tanto, nada mais adequado do que a escolha da CASA DOS ARTISTAS como ponto de encontro.A primeira edição do SARAU DAS MULHERES vai trazer ao público, gratuitamente, muita POESIA, MÚSICA, DANÇA, articulando reinvindicações culturais, divulgação artística e defesa dos Direitos das Mulheres e LGBT.

Toda a programação do SARAU DAS MULHERES é aberta ao público e conta com a participação de artistas locais. O evento é organizado de maneira colaborativa e conta com o apoio da CASA DOS ARTISTAS. Haverátransmissão ao vivo (http://www.ustream.tv/channel/outraprimavera) realizada pelo Coletivo de Poesia “Outra Primavera”.

 

O que: I SARAU DAS MULHERES

Quando: 08 de março (sexta-feira), às 19h

Onde: Porta da Casa dos Artistas (Quarteirão Jorge Amado, Ilhéus, Bahia

 

 

Produção:

Daniela Galdino, Neia Dendê, Cris Passos, Lorenza Mucida, Portira Castro, Elielton Cabeça, Brisa Aziz, Ize Duque, Laisa Eça, Erika Cotrim, Mither Amorim.





 
 
 
TATIANA PEQUENO




A urna avermelhada que trago
por dentro da costura deixa
aberta a poça que me sai do
baixo e o ventre é de onde
partem os naufrágios quando
mudas as viagens trazem o mar
e finados são os filhos as luas
todas as mulheres são cruzes
punhos vapor e sentinelas
acordam várias lâminas de
passagem sobre o chão e a
pedra – fêmeas criam estirpes
de fria couraça e também
preparam a dura e lenta sorte
dos que perdem o medo e a
parte sedada de si. nas urnas
não adoecem mais as aves
lançam elas o corpo trançado
das labaredas. queimam os
obituários e as lapelas tidas
como cimento para o amor
e para os nomes.
 





DÉBORA MARIA MACEDO

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TICA SIMÕES
 
 
 
 
 




De que adianta o amanhã
sem o hoje vivido?
 
De que adianta a vida
sem o susto, a ânsia
o riso, a lágrima
a esperança?
 
É como comer pão sem manteiga...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Conselheira Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões) é natural de Salvador, doutorada em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa e, pela mesma Universidade, pós-doutorada em Literatura Comparada e Turismo Cultural. Ensaísta, Professora Titular, aposentada, foi Pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. É Comendadora da Ordem do Ensino Público (Portugal). Reside em Ilhéus, onde é Coordenadora Científica do Grupo de Pesquisa Identidade Cultural e Expressões Regionais – ICER, e professora colaboradora do Mestrado em Linguagens e Representações Culturais do Departamento de Letras e Artes da UESC. Atua como Consultora para assuntos relacionados a literatura, cultura, turismo, memória e identidade. Tem produção científica com artigos, documentários e livros na sua área de atuação. É Conselheira de Cultura do Estado da Bahia e Presidente da Comissão de Colegiados Setoriais do CEC.
 





Neuzamaria Kerner
 
 
 
 
 
 


 



Não joguei fora o meu batom
Não rasguei as minhas saias.
Não aceitei os rótulos ridículos
Com os quais quiseram me enfraquecer.
Não rejeitei minha porção gueixa
E nem fiz queixa a ninguém
Do quanto doeu redefinir minha identidade
Que por infidelidade a mim mesma
quase perdi.


Retomei o meu nome
O meu batom
As minhas saias.


Hoje
Ouso remendar os cacos
Do que as gerações anteriores
Quebraram sobre mim.



 




 
 
MADALENA
  
Do poço de Jacó
no meu cântaro-corpo
em vez de bálsamo trago a líquida imagem
dos quereres do mundo.
Na sexta hora do dia
hora ausente das sombras
havidas em Samaria
pressinto tuas pisadas caminhantes
sobre os meus desejos.
Do meu vaso de alabastro
deixo verter lágrimas de cheiro
deixo verter águas de água
para alívio das minhas sedes
desapaziguadas
na espera do teu olhar.
Passas.
Tu queres ir, mas tuas vestes se grudam
na primeira pedra
e o teu manto senta sobre mim.
Dou-te de beber
molho teus pés
e seco-os com cabelos-véus.
Toco-te...
sentes minhas mãos sábias e generosas...
Estremeces
e sinto que transbordas comigo.
Mais veloz, porém, que um raio do céu
me afastas prevendo
o perigo impresso no momento.
Dá-me de beber, pregador!
- suplico –
e derramas a eternidade na minha boca.
Seguimos juntos
atemporalmente
e as pedras vão ficando para trás
leves e desarremessadas
para todo o sempre.

 
 



 

 

Neuzamaria Kerner (este poema é do LIVROARBÍTRIO DAS EVAS, que ainda espera a minha disposição para publicar)


Amar é a única alternativa!


Paz & Luz!





ANA CLÁUDIA MARQUES










 

 

Pode deixar.
 
Vou fazer a janta, lavar a salada,
Pendurar a roupa,
Dobrar a que secou.
Deixar o menino de banho tomado,
E depois eu vou.
Sim, depois eu vou.
Vou cortar meu cabelo
com a tesoura de casa,
sem me preocupar com beleza;
vou quebrar tudo que preste,
jogar contra a parede.
Mas, não se preocupe, a janta ,
Sim, vai estar na mesa.
Depois eu vou.
Vou cortar todas as minhas roupas,
Arrebentar as bijuterias baratas.
Colocar fogo em meus cadernos,
Deixar minha vida sem pauta.
Mas não se preocupe, as camas,
Sim, estarão arrumadas.
Depois vou acender uma vela
Pois gosto de velas acesas,
Ainda posso,
Não posso?
E vou me matar lentamente.
Pra nada presto, quem sentiria a falta?
Se não sei ser nada que preste,
Deixo marca de horror onde passo...
Vou cortar os pulsos, furar os olhos,
Rasgar minhas veias das pernas também.
Não sobrará nada pra ninguém.
Vou sozinha pro inferno.
Mas lá, tenho certeza,
Ninguém virá me importunar.
E que se virem, com a janta,
A roupa, a casa,
E a educação que queiram dar,
A quem sobrar.








BIOGRAFIA: ANA CLAUDIA MARQUES
Nasceu Ana Claudia Garuti Marques, em 12 de fevereiro de 1970, na cidade de São Paulo. Precoce na leitura, assim o foi também na escrita; já com nove anos escrevia os primeiros poemas.
Sua formação pessoal sempre contemplou as artes; estudou piano, violão e canto, o que transformou sua maneira de sentir o mundo. Formou-se em Terapia Ocupacional na UFSCar, em 1992, ano em que se casou com um descendente de japoneses, acrescentando o Onishi ao seu nome, e uma viagem de três anos e meio ao Japão na sua bagagem de vida.
Após três décadas escrevendo somente para si mesma, acaba de lançar seu primeiro livro de poemas, O Poente, o Poético e o Perdido, em agosto de 2012.
 
 
 Blog da autora:
 http://pontocontos.blogspot.com.br

Sites para adquirir o livro:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=30723726&sid=624975125141216668071501111

http://www.skoob.com.br/livro/293796



 POENTE, O POETICO E O PERDIDO

Formato: Livro






POENTE, O POETICO E O PERDIDO, O

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Autor: MARQUES, ANA CLAUDIA
Editora: BIBLIOTECA 24 HORAS
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA - POESIA
R$ 36,52