sexta-feira, 8 de março de 2013





 
 
 
TATIANA PEQUENO




A urna avermelhada que trago
por dentro da costura deixa
aberta a poça que me sai do
baixo e o ventre é de onde
partem os naufrágios quando
mudas as viagens trazem o mar
e finados são os filhos as luas
todas as mulheres são cruzes
punhos vapor e sentinelas
acordam várias lâminas de
passagem sobre o chão e a
pedra – fêmeas criam estirpes
de fria couraça e também
preparam a dura e lenta sorte
dos que perdem o medo e a
parte sedada de si. nas urnas
não adoecem mais as aves
lançam elas o corpo trançado
das labaredas. queimam os
obituários e as lapelas tidas
como cimento para o amor
e para os nomes.
 





DÉBORA MARIA MACEDO

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TICA SIMÕES
 
 
 
 
 




De que adianta o amanhã
sem o hoje vivido?
 
De que adianta a vida
sem o susto, a ânsia
o riso, a lágrima
a esperança?
 
É como comer pão sem manteiga...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Conselheira Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões) é natural de Salvador, doutorada em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa e, pela mesma Universidade, pós-doutorada em Literatura Comparada e Turismo Cultural. Ensaísta, Professora Titular, aposentada, foi Pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. É Comendadora da Ordem do Ensino Público (Portugal). Reside em Ilhéus, onde é Coordenadora Científica do Grupo de Pesquisa Identidade Cultural e Expressões Regionais – ICER, e professora colaboradora do Mestrado em Linguagens e Representações Culturais do Departamento de Letras e Artes da UESC. Atua como Consultora para assuntos relacionados a literatura, cultura, turismo, memória e identidade. Tem produção científica com artigos, documentários e livros na sua área de atuação. É Conselheira de Cultura do Estado da Bahia e Presidente da Comissão de Colegiados Setoriais do CEC.
 





Neuzamaria Kerner
 
 
 
 
 
 


 



Não joguei fora o meu batom
Não rasguei as minhas saias.
Não aceitei os rótulos ridículos
Com os quais quiseram me enfraquecer.
Não rejeitei minha porção gueixa
E nem fiz queixa a ninguém
Do quanto doeu redefinir minha identidade
Que por infidelidade a mim mesma
quase perdi.


Retomei o meu nome
O meu batom
As minhas saias.


Hoje
Ouso remendar os cacos
Do que as gerações anteriores
Quebraram sobre mim.



 




 
 
MADALENA
  
Do poço de Jacó
no meu cântaro-corpo
em vez de bálsamo trago a líquida imagem
dos quereres do mundo.
Na sexta hora do dia
hora ausente das sombras
havidas em Samaria
pressinto tuas pisadas caminhantes
sobre os meus desejos.
Do meu vaso de alabastro
deixo verter lágrimas de cheiro
deixo verter águas de água
para alívio das minhas sedes
desapaziguadas
na espera do teu olhar.
Passas.
Tu queres ir, mas tuas vestes se grudam
na primeira pedra
e o teu manto senta sobre mim.
Dou-te de beber
molho teus pés
e seco-os com cabelos-véus.
Toco-te...
sentes minhas mãos sábias e generosas...
Estremeces
e sinto que transbordas comigo.
Mais veloz, porém, que um raio do céu
me afastas prevendo
o perigo impresso no momento.
Dá-me de beber, pregador!
- suplico –
e derramas a eternidade na minha boca.
Seguimos juntos
atemporalmente
e as pedras vão ficando para trás
leves e desarremessadas
para todo o sempre.

 
 



 

 

Neuzamaria Kerner (este poema é do LIVROARBÍTRIO DAS EVAS, que ainda espera a minha disposição para publicar)


Amar é a única alternativa!


Paz & Luz!





ANA CLÁUDIA MARQUES










 

 

Pode deixar.
 
Vou fazer a janta, lavar a salada,
Pendurar a roupa,
Dobrar a que secou.
Deixar o menino de banho tomado,
E depois eu vou.
Sim, depois eu vou.
Vou cortar meu cabelo
com a tesoura de casa,
sem me preocupar com beleza;
vou quebrar tudo que preste,
jogar contra a parede.
Mas, não se preocupe, a janta ,
Sim, vai estar na mesa.
Depois eu vou.
Vou cortar todas as minhas roupas,
Arrebentar as bijuterias baratas.
Colocar fogo em meus cadernos,
Deixar minha vida sem pauta.
Mas não se preocupe, as camas,
Sim, estarão arrumadas.
Depois vou acender uma vela
Pois gosto de velas acesas,
Ainda posso,
Não posso?
E vou me matar lentamente.
Pra nada presto, quem sentiria a falta?
Se não sei ser nada que preste,
Deixo marca de horror onde passo...
Vou cortar os pulsos, furar os olhos,
Rasgar minhas veias das pernas também.
Não sobrará nada pra ninguém.
Vou sozinha pro inferno.
Mas lá, tenho certeza,
Ninguém virá me importunar.
E que se virem, com a janta,
A roupa, a casa,
E a educação que queiram dar,
A quem sobrar.








BIOGRAFIA: ANA CLAUDIA MARQUES
Nasceu Ana Claudia Garuti Marques, em 12 de fevereiro de 1970, na cidade de São Paulo. Precoce na leitura, assim o foi também na escrita; já com nove anos escrevia os primeiros poemas.
Sua formação pessoal sempre contemplou as artes; estudou piano, violão e canto, o que transformou sua maneira de sentir o mundo. Formou-se em Terapia Ocupacional na UFSCar, em 1992, ano em que se casou com um descendente de japoneses, acrescentando o Onishi ao seu nome, e uma viagem de três anos e meio ao Japão na sua bagagem de vida.
Após três décadas escrevendo somente para si mesma, acaba de lançar seu primeiro livro de poemas, O Poente, o Poético e o Perdido, em agosto de 2012.
 
 
 Blog da autora:
 http://pontocontos.blogspot.com.br

Sites para adquirir o livro:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=30723726&sid=624975125141216668071501111

http://www.skoob.com.br/livro/293796



 POENTE, O POETICO E O PERDIDO

Formato: Livro






POENTE, O POETICO E O PERDIDO, O

Formato: Livro
Autor: MARQUES, ANA CLAUDIA
Editora: BIBLIOTECA 24 HORAS
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA - POESIA
R$ 36,52


 


 

quinta-feira, 7 de março de 2013


ELVIRA FOEPPEL







Egoísmo
Elvira Foeppel


Egoísmo que circula em minhas veias,
Caminha pelas partes do meu corpo
E prende-se a todos os milésimos de átomos
Que adicionados oferecem meu ser
Aos olhos da vida,
Por que impede que minha vontade
Corra em busca dos humildes?
Egoísmo que se espalha pelos meus braços
Que salpica minhas mãos
Que tolhe minhas pernas
E que paralisa meus pés,
Por que anestesia meus músculos
Para os gestos bons ao alcance dos que sofrem
Por que se perde em mergulhos
Para dentro dos meus olhos
Cobrindo-os de trevas espessas
Para a percepção das múltiplas misérias
Que passeiam sozinhas nos espaços?
Por que em sons espiralados
Enrola-se ao redor dos meus ouvidos
Impedindo que as vozes boas
Recolhidas de todos os antros
Trepidem com ressonância?
Por que se cola assim em minha boca
E se enrosca pela minha língua
Retendo palavras que consolam
E frases que perdoam?
Por que se desenrola
E se multiplica pelo meu cérebro
Atraiçoando meu pensamento
Com falsas miragens?
Este egoísmo que traz cegueira para os meus olhos
Que adormece meus músculos
Para a força da vida
Que orienta meus gestos
Para o individualismo pujante
Que emudece meus lábios
E cobre-me de silêncio
E que impede que meus ouvidos
Escutem a beleza dos sons
Impregna todo meu corpo
E, sobe em essência ao meu espírito.
Espero a total e perfeita libertação
Para que minha matéria, mais humilde
E abandonada à Verdade
Seja dona do absoluto Equilíbrio.













Medo...
Elvira Foeppel


Este medo que me consome
Que machuca minhas carnes
Que tritura meu espírito em angústias eternas
Que se dilui pelo meu sangue impetuoso de remotes nativos

E que perturba minha Ideia
Libertada já da minha forma modelada
Está em mim desde a minha Formação
Medo que nasceu comigo
E que tem vida eterna em minha matéria.

Tenho medo que minha sensibilidade aguda
Experimente o sabor de todos os pecados
Esquisitamente deleitada e esquecida do Bem
Que meus sentidos despertos e vivos
Colham a embriaguez de todos os vícios
Estranhamente mudos para a grandeza infindável de Deus

Tenho medo que meu espírito insatisfeito
Recolha para o âmbito estreito de sua esfera
Todos aqueles males que ainda em mim não existem

Para que uma miséria maior
Desça sobre mim.
Este terror imenso que desde o meu princípio
Martiriza impiedoso as minhas formas
Geradas no amor
Se agarra a mim como boca sedenta de beijos
Terror de que eu persista nos meus erros
Prazerosamente
E que minha vontade insubmissa
Perdidamente me arraste
Para misteriosas e profundas sensações
Dos prazeres mil que trazem
Meu corpo prisioneiro.
Medo que as paixões ébrias do meu instinto
Emudeçam meu espírito marcado
Simultaneamente por todos os desejos vãos
Horror de que minha consciência
Indiferentemente
Não grite aos brados
Contra a arrogância veemente da minha carne que clama por amor
E olhando largamente o mundo
Eu me assombro
Vejo trevas e mais trevas rodeando o meu espírito
que cego se perde, tateando às escuras
Inquietamente.
Corro em busca de Luz
que disperse sombras
E varra do meu interior a escuridão
Para que com a claridade completa da minha razão
Eu me encontre em mim mesma.



 



 


O teu reflexo
Elvira Foeppel

 


Não ...Eu não sei se te amo
Nem sei se te adoro,
Não sei mesmo se algum dia já te quis ...
Sim ... sim que a beleza desumana e excessiva
De teus olhos que espalham volúpia
Acordou inteligentemente os meus sentidos entendidos
E mergulhou profundamente na minha alma cativa de mistérios

Não ... Eu não sei se te admiro
Nem sei se te desejo,
Não sei mesmo se és para mim, indiferente ...
Sei ... sim que a inquietude irreverente de tuas mãos
Profundamente longas, extraordinariamente sensíveis
Roubou a calma solene das minhas,
Esquisitamente inertes
Fazendo-as frementes e convulsas.
Sei ... sim que a avidez chocante de teus lábios contraídos e mudos
Exasperou febril a minha boca sem sorrisos e desejos
Que a máscara fria e esquecida de tua impassibilidade
Fascinou o meu espírito em vigília.
Sei ... sim que em meu ser o desespero das tempestades
Se agita em tumulto
Em ânsias as mais variadas,
E que pelo meu corpo, em momentos outros
Uma displicência inexplicável
Se estende horizontalmente por sobre meu ser
Rígido, de membros gelados e inertes ...
Será amor? Será desejo? Ou será ódio?
Será mesmo indiferença? ou será paixão?
Não ... Eu não sei ...
O que eu sei é que cada célula minha
Acusa o fluxo e refluxo de todas as sensações
Que em cada partícula de molécula
Se desenrola incessantemente
Uma escala progressiva de sentimentos vários.
Nos teus gestos incontidos e nos teus nervos superexcitados
Como em anúncios luminosos
Eu leio todas as paixões
Que o instinto e o espírito alimentam
E o teu rosto esquisitamente imutável
Espelha de contínuo
Todas as emoções que não se definem
Ampliadas e renovadas a cada instante.
E eu sinto ... sim ... que sou o teu reflexo
Por isso ... eu não sei se te amo ...
Nem se te adoro, não sei ao menos se te desejo
Não sei se te odeio ou se te desprezo ou se te quero
Não sei mesmo se és para mim, indiferente
Só sinto ... sim, que por todo meu corpo
E por todo meu espírito
Se gravam em caracteres de fogo
Todos os sentimentos, todas as paixões tuas
Que se refletem de inopino em mim
Como luzes vivas batidas fortemente em espelho de cristal.

E por isso ... eu nada sei ...
E tudo sei ...
Sim ... eu sou o teu reflexo.


Livros sobre a autora:

 
 
Zahidé Lupinacci Muzart
    
 
Escreve:

 

Uma feminista paranaense:
 
Mariana Coelho


 

Neste 8 de março de 2013, gostaria de homenagear uma grande feminista, a "paranaense" Mariana Coelho.

Na história do feminismo brasileiro, deve-se inscrever o nome de Mariana Coelho, uma das primeiras mulheres a tentar traçar uma história pouco contada. Nasceu em Portugal e, em 1892, deixou para sempre a Europa, vindo a radicar-se em Curitiba.

Educadora emérita, foi mestra de várias gerações de paranaenses. Fundou e dirigiu, em Curitiba, seus próprios estabelecimentos de ensino: o Colégio Santos Dumont, para o sexo feminino, e a Escola Profissional República Argentina. Nesta escola, manteve-se como diretora até aposentar-se. Faleceu em 1954.

Como escritora, deixou obra importante (seu livro Paraná mental, por exemplo, que traça a história literária de seu estado de adoção, mereceu medalha de prata concedida por um júri na Exposição Nacional, realizada em 1908, no Rio de Janeiro) e, sem dúvida, farta: livros de contos, de poesia, de estudos de história da literatura, traduções, muitos artigos em periódicos, além do importante ensaio sobre feminismo, Evolução do feminismo, reeditado em 2002, pela Imprensa Oficial do Paraná.


Sua poesia, toda publicada no final do séc. XIX, e reunida em livro em 1940, expressa sentimentos que tendem mais para o amor universal do que para o amor romântico. Criou, em sua poesia, uma metáfora, o mar de amor, que representaria o amor à Humanidade, o desejo iluminista do progresso humano condicionado à aquisição da cultura, da instrução.

Porém mais do que na literatura, é no ensaio polêmico que sempre se distinguiu Mariana Coelho, gênero em que as mulheres deixaram poucas páginas no séc. XIX. Mesmo que desde os primeiros periódicos feministas, como o Jornal das Senhoras, fundado e dirigido por Joana Paula Manso de Noronha, em 1852, houvesse um programa de luta pelos direitos da mulher, a forma neles utilizada para apresentação dessas idéias é bem outra, muito mais velada e tímida. O ensaio, como gênero masculino — porque expressava e defendia idéias —, raramente estava ao alcance das mulheres. É somente a partir do séc. XX que elas passam a explorar ensaios de cunho político e ideológico.

Na prosa, pois, Mariana Coelho é, sobretudo, doutrinadora, como o provam os vários textos de teor substancialmente combativo que publicou, desde o final do séc. XIX, em jornais: artigos sobre os jovens, sobre a violência e sobre as lutas pelas mulheres. Feminista respeitável e uma grande observadora da vida das mulheres, deixou livros e artigos em defesa de suas crenças, demonstrando ter vivido, ao longo dos seus dias, uma batalha incansável.

No feminismo do Paraná, sobressaiu-se, pois, esta voz insurgente de feminista convicta, tendo publicado A evolução do feminismo, peça rara e bizarra no Brasil da época, em 1933 — portanto, 16 anos antes de O segundo sexo, que é de 1949. Este livro corresponde a um trabalho alentado de pesquisa e de grande erudição, que se inclui na área da História, já que Mariana Coelho, ao fazer um retrospecto do movimento feminista em todos os países do Ocidente e até mesmo alguns do Oriente, traça uma verdadeira e lúcida narrativa dos fatos relativos ao movimento. Traz à luz dados importantes e registra a atuação de muitas mulheres que se notabilizaram na luta por seus direitos, sobretudo pelo direito ao voto.

Em todos os capítulos do livro A Evolução do Feminismo: subsídios para a sua história, Mariana Coelho busca fazer um panorama do tema estudado. Comenta a presença da mulher na religião, seu civismo durante a guerra, a razão de ser da mulher na política e na administração, bem como nas ciências, nas artes e nas letras, sua atuação na imprensa e, finalmente, a mulher e o amor.

Com o objetivo de contribuir para a história do feminismo, destaca-se no livro a luta das sufragistas pela conquista dos direitos políticos. Fundamentada em teorias dominantes no final do século, traindo sua filiação positivista, a autora, em sua primeira frase, retoricamente se pergunta e responde:

Por que somos feminista? [...] Eis uma pergunta ingênua de que várias vezes temos sido alvo, por parte do sexo masculino. Respondemos: porque é impossível a realização do progresso sem a vitória da evolução; e o nosso fim principal é precisar e fomentar o progresso feminino.

Como texto engajado, como texto de luta, ainda pode impressionar-nos hoje, pois já no século XXI, nem de longe, ainda, nos libertamos dos flagelos a que ela se refere, sobretudo o das guerras. O feminismo de Mariana Coelho nasceu de seu altruísmo, de seu “mar de amor”, pois preocupada com o futuro dos povos, atirados em guerras sangrentas, preconiza antes de mais nada a paz. Daí que seu feminismo está profundamente entranhado com esta causa e, ao lê-la, conclui-se que a paz não pode vir senão pela procura da felicidade de todos, ou seja, os miseráveis terão de ter um lugar à mesa de banquete dos ricos. Idéias, como se vê, extremamente atuais e até hoje, deploravelmente, não conseguidas.
 
 
Zahidé Lupinacci Muzart - Doutora em Letras pela Universidade de Letras e Ciências Humanas de Toulouse, França, em 1970. Professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina, continua trabalhando no curso de Mestrado e Doutorado em Literatura da mesma universidade. Editora da revista de literatura, Travessia, da UFSC, de 1980. a 1993. Dentre os números organizados sobre estudos sobre mulher e literatura, destacam-se os números 14, Clarice Lispector, 21, Mulher e Literatura e 23, Escritoras do século XIX. Organizou inúmeras exposições literárias em Florianópolis na UFSC, no Museu Cruz e Sousa e na Biblioteca Pública tais como A mulher na literatura catarinense, Dez anos sem Lausimar Laus, Machado de Assis, Cruz e Sousa, Periódicos antigos, entre outras. Foi coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Literatura Brasileira, por duas vezes. Pesquisadora do CNPq, coordena projeto integrado sobre as escritoras brasileiras do século XIX. Coordenou o primeiro evento intitulado Fazendo gênero, na UFSC, em 1994 que se vem realizando desde então. Publicou os livros Cartas de Cruz e Sousa e Cruz e Sousa, Poesia Completa (Pesquisa de inéditos e organização), Tempo e andanças de Harry Laus (org.); Escritoras brasileiras do século XIX.
      




 
 
 
Maria Schaun
 
Escreve:

 
 

ELVIRA FOEPPEL
 
 
  
 
 
A VIOLETA GRAPIÚNA
 

Uma menina  como tantas outras que viviam em Ilhéus, nas décadas de 1930/1940. Descendente de imigrantes alemães em terceira geração, era a filha mais velha de um funcionário dos Correios e Telégrafos e de uma dona de casa. Estudava no Colégio Nossa Senhora da Piedade, onde a adolescente calada e introspectiva não apresentava nenhuma característica excepcional. Concluiu o magistério em 1943 e até deu aulas numa escola rural, mas ser professora não era a sua vocação.
 
Fez amizades que se perpetuaram e participou, desde cedo, das atividades culturais da escola, inclusive, mais tarde, encenando algumas peças no Teatro Municipal de Ilhéus: Os Divorciados, de Oduvaldo Vianna, e As Máscaras, de Menotti del Picchia, ambas abordavam temas avançados para a época e eram polêmicas. Isto fez com que seus contemporâneos a considerassem como uma das precursoras do feminismo em Ilhéus. Entre a fase da adolescência e fase adulta, pouco ficou registrado na memória das pessoas que a conheceram.
 
Mais madura e consciente do seu conhecimento sobre literatura e filosofia, tornou-se uma pessoa angustiada com as limitações impostas pelas convenções morais e sociais da pequena cidade, pois tinha ânsia de liberdade e ânsia de viver além do que estava previsto para uma moça de sua época – ser esposa e mãe. Foi aí que Elvira Schaun Foeppel, nascida em 1923, percebeu sua veia literária e teve 28 poemas publicados pelo jornal Diário da Tarde, no período de 1944 e 1947.
 
Nesse período de sua vida, Elvira Foeppel foi reconhecida como intelectual e vivia nas rodas dos literatos da cidade, participando das conversas no bar de Barral, um ponto de encontro na Marquês de Paranaguá. Exótica, andava sempre bem arrumada e com sapatos de salto alto, pintava os cabelos de vermelho, ruivo ou preto e copiava modelos de revistas de moda para que sua mãe costurasse seus vestidos. Vaidosa e cuidadosa com sua aparência, andava maquiada, com os olhos pintados de negro e batom forte nos lábios.
Mulheres com comportamento semelhante, naquele período (era a época do Estado Novo de Getúlio Vargas, do Integralismo de Plínio Salgado e dos militantes comunistas, liderados por Luís Carlos Prestes), foram internadas como loucas em manicômios de vários lugares do Brasil. E Elvira pagaria um preço alto por transgredir os limites impostos por seu tempo. Sua personalidade forte e seu comportamento audacioso incomodavam à sociedade ilheense. Incompreendida, vítima de preconceitos e marginalizada, apesar de ser uma pessoa extremamente religiosa e ligada à família, um dia partiu para o Rio de Janeiro (1947), levando na bagagem o desejo de ser independente e conquistar o mundo. O Rio de Janeiro era a metrópole, um lugar maior, onde teria mais oportunidades.
 
Lá, trabalhou como secretária da revista Súmula Trabalhista, da Legislação Federal, aposentando-se como redatora chefe, após 30 anos de serviço, na década de 1970. Frequentava o bar da Associação Brasileira de Imprensa, ABI, local de encontro dos intelectuais da época, ao lado de grandes escritores como Abel Pereira, Jorge Medauar, Adonias Filho, Rubem Braga, Homero Homem, Fernando Sabino, Nélida Piñon, Clarice Lispector e outros. Numa fase desinibida e participativa, contrastando com a adolescente calada e introspectiva, conquistou espaço na imprensa carioca, escrevendo para revistas e jornais de circulação local e nacional (1948/1972).
 
Em 1956, publica seu primeiro livro, uma obra híbrida, Chão e Poesia. Em 1960, lança Círculo do Medo, um livro de contos. E, em 1961, publica seu último livro, o romance Muro Frio. Elvira fugiu dos temas regionalistas e não escreveu sobre a cultura do cacau. Pelo contrário, suas personagens retrataram as angústias e conflitos do ser humano sem apresentar soluções, apenas constatando o hiato existente entre o desejo e a ação humanas, numa representação quase auto-biográfica e usando uma linguagem extremamente hermética e que não obedecia ao estilo daquela época. Com um sorriso encantador, bonita, inteligente, educada e querida, mas incompreendida em sua época, a tristeza foi tomando conta de Elvira Foeppel, afastando-a dos amigos e da vida. Sua morte se deu em completo anonimato, em 1998, no Rio de Janeiro.
 
A história da Violeta Grapiúna foi reconstituída por Vanilda Mazzoni, membro do grupo de pesquisa coordenado pela dra. Ivia Alves, da UFBa, que participou do projeto que visa a resgatar a biografia e a produção literária das escritoras baianas do período de 1940 a 1960. A dissertação de Mestrado foi aprovada com louvor, em dezembro de 2001, e agora está sendo aprofundada como tese de Doutorado, cujo tema é a análise vertical das publicações dispersas de Elvira Foeppel, as quais serão estudadas com maior profundidade sob o ponto de vista da temática sartriana do Existencialismo.
 

Maria Schaun
Jornalista e escritora
Ilhéus, 22 de janeiro de 2002.
Publicado no Diário de Ilhéus