quinta-feira, 7 de março de 2013


ELVIRA FOEPPEL







Egoísmo
Elvira Foeppel


Egoísmo que circula em minhas veias,
Caminha pelas partes do meu corpo
E prende-se a todos os milésimos de átomos
Que adicionados oferecem meu ser
Aos olhos da vida,
Por que impede que minha vontade
Corra em busca dos humildes?
Egoísmo que se espalha pelos meus braços
Que salpica minhas mãos
Que tolhe minhas pernas
E que paralisa meus pés,
Por que anestesia meus músculos
Para os gestos bons ao alcance dos que sofrem
Por que se perde em mergulhos
Para dentro dos meus olhos
Cobrindo-os de trevas espessas
Para a percepção das múltiplas misérias
Que passeiam sozinhas nos espaços?
Por que em sons espiralados
Enrola-se ao redor dos meus ouvidos
Impedindo que as vozes boas
Recolhidas de todos os antros
Trepidem com ressonância?
Por que se cola assim em minha boca
E se enrosca pela minha língua
Retendo palavras que consolam
E frases que perdoam?
Por que se desenrola
E se multiplica pelo meu cérebro
Atraiçoando meu pensamento
Com falsas miragens?
Este egoísmo que traz cegueira para os meus olhos
Que adormece meus músculos
Para a força da vida
Que orienta meus gestos
Para o individualismo pujante
Que emudece meus lábios
E cobre-me de silêncio
E que impede que meus ouvidos
Escutem a beleza dos sons
Impregna todo meu corpo
E, sobe em essência ao meu espírito.
Espero a total e perfeita libertação
Para que minha matéria, mais humilde
E abandonada à Verdade
Seja dona do absoluto Equilíbrio.













Medo...
Elvira Foeppel


Este medo que me consome
Que machuca minhas carnes
Que tritura meu espírito em angústias eternas
Que se dilui pelo meu sangue impetuoso de remotes nativos

E que perturba minha Ideia
Libertada já da minha forma modelada
Está em mim desde a minha Formação
Medo que nasceu comigo
E que tem vida eterna em minha matéria.

Tenho medo que minha sensibilidade aguda
Experimente o sabor de todos os pecados
Esquisitamente deleitada e esquecida do Bem
Que meus sentidos despertos e vivos
Colham a embriaguez de todos os vícios
Estranhamente mudos para a grandeza infindável de Deus

Tenho medo que meu espírito insatisfeito
Recolha para o âmbito estreito de sua esfera
Todos aqueles males que ainda em mim não existem

Para que uma miséria maior
Desça sobre mim.
Este terror imenso que desde o meu princípio
Martiriza impiedoso as minhas formas
Geradas no amor
Se agarra a mim como boca sedenta de beijos
Terror de que eu persista nos meus erros
Prazerosamente
E que minha vontade insubmissa
Perdidamente me arraste
Para misteriosas e profundas sensações
Dos prazeres mil que trazem
Meu corpo prisioneiro.
Medo que as paixões ébrias do meu instinto
Emudeçam meu espírito marcado
Simultaneamente por todos os desejos vãos
Horror de que minha consciência
Indiferentemente
Não grite aos brados
Contra a arrogância veemente da minha carne que clama por amor
E olhando largamente o mundo
Eu me assombro
Vejo trevas e mais trevas rodeando o meu espírito
que cego se perde, tateando às escuras
Inquietamente.
Corro em busca de Luz
que disperse sombras
E varra do meu interior a escuridão
Para que com a claridade completa da minha razão
Eu me encontre em mim mesma.



 



 


O teu reflexo
Elvira Foeppel

 


Não ...Eu não sei se te amo
Nem sei se te adoro,
Não sei mesmo se algum dia já te quis ...
Sim ... sim que a beleza desumana e excessiva
De teus olhos que espalham volúpia
Acordou inteligentemente os meus sentidos entendidos
E mergulhou profundamente na minha alma cativa de mistérios

Não ... Eu não sei se te admiro
Nem sei se te desejo,
Não sei mesmo se és para mim, indiferente ...
Sei ... sim que a inquietude irreverente de tuas mãos
Profundamente longas, extraordinariamente sensíveis
Roubou a calma solene das minhas,
Esquisitamente inertes
Fazendo-as frementes e convulsas.
Sei ... sim que a avidez chocante de teus lábios contraídos e mudos
Exasperou febril a minha boca sem sorrisos e desejos
Que a máscara fria e esquecida de tua impassibilidade
Fascinou o meu espírito em vigília.
Sei ... sim que em meu ser o desespero das tempestades
Se agita em tumulto
Em ânsias as mais variadas,
E que pelo meu corpo, em momentos outros
Uma displicência inexplicável
Se estende horizontalmente por sobre meu ser
Rígido, de membros gelados e inertes ...
Será amor? Será desejo? Ou será ódio?
Será mesmo indiferença? ou será paixão?
Não ... Eu não sei ...
O que eu sei é que cada célula minha
Acusa o fluxo e refluxo de todas as sensações
Que em cada partícula de molécula
Se desenrola incessantemente
Uma escala progressiva de sentimentos vários.
Nos teus gestos incontidos e nos teus nervos superexcitados
Como em anúncios luminosos
Eu leio todas as paixões
Que o instinto e o espírito alimentam
E o teu rosto esquisitamente imutável
Espelha de contínuo
Todas as emoções que não se definem
Ampliadas e renovadas a cada instante.
E eu sinto ... sim ... que sou o teu reflexo
Por isso ... eu não sei se te amo ...
Nem se te adoro, não sei ao menos se te desejo
Não sei se te odeio ou se te desprezo ou se te quero
Não sei mesmo se és para mim, indiferente
Só sinto ... sim, que por todo meu corpo
E por todo meu espírito
Se gravam em caracteres de fogo
Todos os sentimentos, todas as paixões tuas
Que se refletem de inopino em mim
Como luzes vivas batidas fortemente em espelho de cristal.

E por isso ... eu nada sei ...
E tudo sei ...
Sim ... eu sou o teu reflexo.


Livros sobre a autora:

 
 
Zahidé Lupinacci Muzart
    
 
Escreve:

 

Uma feminista paranaense:
 
Mariana Coelho


 

Neste 8 de março de 2013, gostaria de homenagear uma grande feminista, a "paranaense" Mariana Coelho.

Na história do feminismo brasileiro, deve-se inscrever o nome de Mariana Coelho, uma das primeiras mulheres a tentar traçar uma história pouco contada. Nasceu em Portugal e, em 1892, deixou para sempre a Europa, vindo a radicar-se em Curitiba.

Educadora emérita, foi mestra de várias gerações de paranaenses. Fundou e dirigiu, em Curitiba, seus próprios estabelecimentos de ensino: o Colégio Santos Dumont, para o sexo feminino, e a Escola Profissional República Argentina. Nesta escola, manteve-se como diretora até aposentar-se. Faleceu em 1954.

Como escritora, deixou obra importante (seu livro Paraná mental, por exemplo, que traça a história literária de seu estado de adoção, mereceu medalha de prata concedida por um júri na Exposição Nacional, realizada em 1908, no Rio de Janeiro) e, sem dúvida, farta: livros de contos, de poesia, de estudos de história da literatura, traduções, muitos artigos em periódicos, além do importante ensaio sobre feminismo, Evolução do feminismo, reeditado em 2002, pela Imprensa Oficial do Paraná.


Sua poesia, toda publicada no final do séc. XIX, e reunida em livro em 1940, expressa sentimentos que tendem mais para o amor universal do que para o amor romântico. Criou, em sua poesia, uma metáfora, o mar de amor, que representaria o amor à Humanidade, o desejo iluminista do progresso humano condicionado à aquisição da cultura, da instrução.

Porém mais do que na literatura, é no ensaio polêmico que sempre se distinguiu Mariana Coelho, gênero em que as mulheres deixaram poucas páginas no séc. XIX. Mesmo que desde os primeiros periódicos feministas, como o Jornal das Senhoras, fundado e dirigido por Joana Paula Manso de Noronha, em 1852, houvesse um programa de luta pelos direitos da mulher, a forma neles utilizada para apresentação dessas idéias é bem outra, muito mais velada e tímida. O ensaio, como gênero masculino — porque expressava e defendia idéias —, raramente estava ao alcance das mulheres. É somente a partir do séc. XX que elas passam a explorar ensaios de cunho político e ideológico.

Na prosa, pois, Mariana Coelho é, sobretudo, doutrinadora, como o provam os vários textos de teor substancialmente combativo que publicou, desde o final do séc. XIX, em jornais: artigos sobre os jovens, sobre a violência e sobre as lutas pelas mulheres. Feminista respeitável e uma grande observadora da vida das mulheres, deixou livros e artigos em defesa de suas crenças, demonstrando ter vivido, ao longo dos seus dias, uma batalha incansável.

No feminismo do Paraná, sobressaiu-se, pois, esta voz insurgente de feminista convicta, tendo publicado A evolução do feminismo, peça rara e bizarra no Brasil da época, em 1933 — portanto, 16 anos antes de O segundo sexo, que é de 1949. Este livro corresponde a um trabalho alentado de pesquisa e de grande erudição, que se inclui na área da História, já que Mariana Coelho, ao fazer um retrospecto do movimento feminista em todos os países do Ocidente e até mesmo alguns do Oriente, traça uma verdadeira e lúcida narrativa dos fatos relativos ao movimento. Traz à luz dados importantes e registra a atuação de muitas mulheres que se notabilizaram na luta por seus direitos, sobretudo pelo direito ao voto.

Em todos os capítulos do livro A Evolução do Feminismo: subsídios para a sua história, Mariana Coelho busca fazer um panorama do tema estudado. Comenta a presença da mulher na religião, seu civismo durante a guerra, a razão de ser da mulher na política e na administração, bem como nas ciências, nas artes e nas letras, sua atuação na imprensa e, finalmente, a mulher e o amor.

Com o objetivo de contribuir para a história do feminismo, destaca-se no livro a luta das sufragistas pela conquista dos direitos políticos. Fundamentada em teorias dominantes no final do século, traindo sua filiação positivista, a autora, em sua primeira frase, retoricamente se pergunta e responde:

Por que somos feminista? [...] Eis uma pergunta ingênua de que várias vezes temos sido alvo, por parte do sexo masculino. Respondemos: porque é impossível a realização do progresso sem a vitória da evolução; e o nosso fim principal é precisar e fomentar o progresso feminino.

Como texto engajado, como texto de luta, ainda pode impressionar-nos hoje, pois já no século XXI, nem de longe, ainda, nos libertamos dos flagelos a que ela se refere, sobretudo o das guerras. O feminismo de Mariana Coelho nasceu de seu altruísmo, de seu “mar de amor”, pois preocupada com o futuro dos povos, atirados em guerras sangrentas, preconiza antes de mais nada a paz. Daí que seu feminismo está profundamente entranhado com esta causa e, ao lê-la, conclui-se que a paz não pode vir senão pela procura da felicidade de todos, ou seja, os miseráveis terão de ter um lugar à mesa de banquete dos ricos. Idéias, como se vê, extremamente atuais e até hoje, deploravelmente, não conseguidas.
 
 
Zahidé Lupinacci Muzart - Doutora em Letras pela Universidade de Letras e Ciências Humanas de Toulouse, França, em 1970. Professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina, continua trabalhando no curso de Mestrado e Doutorado em Literatura da mesma universidade. Editora da revista de literatura, Travessia, da UFSC, de 1980. a 1993. Dentre os números organizados sobre estudos sobre mulher e literatura, destacam-se os números 14, Clarice Lispector, 21, Mulher e Literatura e 23, Escritoras do século XIX. Organizou inúmeras exposições literárias em Florianópolis na UFSC, no Museu Cruz e Sousa e na Biblioteca Pública tais como A mulher na literatura catarinense, Dez anos sem Lausimar Laus, Machado de Assis, Cruz e Sousa, Periódicos antigos, entre outras. Foi coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Literatura Brasileira, por duas vezes. Pesquisadora do CNPq, coordena projeto integrado sobre as escritoras brasileiras do século XIX. Coordenou o primeiro evento intitulado Fazendo gênero, na UFSC, em 1994 que se vem realizando desde então. Publicou os livros Cartas de Cruz e Sousa e Cruz e Sousa, Poesia Completa (Pesquisa de inéditos e organização), Tempo e andanças de Harry Laus (org.); Escritoras brasileiras do século XIX.
      




 
 
 
Maria Schaun
 
Escreve:

 
 

ELVIRA FOEPPEL
 
 
  
 
 
A VIOLETA GRAPIÚNA
 

Uma menina  como tantas outras que viviam em Ilhéus, nas décadas de 1930/1940. Descendente de imigrantes alemães em terceira geração, era a filha mais velha de um funcionário dos Correios e Telégrafos e de uma dona de casa. Estudava no Colégio Nossa Senhora da Piedade, onde a adolescente calada e introspectiva não apresentava nenhuma característica excepcional. Concluiu o magistério em 1943 e até deu aulas numa escola rural, mas ser professora não era a sua vocação.
 
Fez amizades que se perpetuaram e participou, desde cedo, das atividades culturais da escola, inclusive, mais tarde, encenando algumas peças no Teatro Municipal de Ilhéus: Os Divorciados, de Oduvaldo Vianna, e As Máscaras, de Menotti del Picchia, ambas abordavam temas avançados para a época e eram polêmicas. Isto fez com que seus contemporâneos a considerassem como uma das precursoras do feminismo em Ilhéus. Entre a fase da adolescência e fase adulta, pouco ficou registrado na memória das pessoas que a conheceram.
 
Mais madura e consciente do seu conhecimento sobre literatura e filosofia, tornou-se uma pessoa angustiada com as limitações impostas pelas convenções morais e sociais da pequena cidade, pois tinha ânsia de liberdade e ânsia de viver além do que estava previsto para uma moça de sua época – ser esposa e mãe. Foi aí que Elvira Schaun Foeppel, nascida em 1923, percebeu sua veia literária e teve 28 poemas publicados pelo jornal Diário da Tarde, no período de 1944 e 1947.
 
Nesse período de sua vida, Elvira Foeppel foi reconhecida como intelectual e vivia nas rodas dos literatos da cidade, participando das conversas no bar de Barral, um ponto de encontro na Marquês de Paranaguá. Exótica, andava sempre bem arrumada e com sapatos de salto alto, pintava os cabelos de vermelho, ruivo ou preto e copiava modelos de revistas de moda para que sua mãe costurasse seus vestidos. Vaidosa e cuidadosa com sua aparência, andava maquiada, com os olhos pintados de negro e batom forte nos lábios.
Mulheres com comportamento semelhante, naquele período (era a época do Estado Novo de Getúlio Vargas, do Integralismo de Plínio Salgado e dos militantes comunistas, liderados por Luís Carlos Prestes), foram internadas como loucas em manicômios de vários lugares do Brasil. E Elvira pagaria um preço alto por transgredir os limites impostos por seu tempo. Sua personalidade forte e seu comportamento audacioso incomodavam à sociedade ilheense. Incompreendida, vítima de preconceitos e marginalizada, apesar de ser uma pessoa extremamente religiosa e ligada à família, um dia partiu para o Rio de Janeiro (1947), levando na bagagem o desejo de ser independente e conquistar o mundo. O Rio de Janeiro era a metrópole, um lugar maior, onde teria mais oportunidades.
 
Lá, trabalhou como secretária da revista Súmula Trabalhista, da Legislação Federal, aposentando-se como redatora chefe, após 30 anos de serviço, na década de 1970. Frequentava o bar da Associação Brasileira de Imprensa, ABI, local de encontro dos intelectuais da época, ao lado de grandes escritores como Abel Pereira, Jorge Medauar, Adonias Filho, Rubem Braga, Homero Homem, Fernando Sabino, Nélida Piñon, Clarice Lispector e outros. Numa fase desinibida e participativa, contrastando com a adolescente calada e introspectiva, conquistou espaço na imprensa carioca, escrevendo para revistas e jornais de circulação local e nacional (1948/1972).
 
Em 1956, publica seu primeiro livro, uma obra híbrida, Chão e Poesia. Em 1960, lança Círculo do Medo, um livro de contos. E, em 1961, publica seu último livro, o romance Muro Frio. Elvira fugiu dos temas regionalistas e não escreveu sobre a cultura do cacau. Pelo contrário, suas personagens retrataram as angústias e conflitos do ser humano sem apresentar soluções, apenas constatando o hiato existente entre o desejo e a ação humanas, numa representação quase auto-biográfica e usando uma linguagem extremamente hermética e que não obedecia ao estilo daquela época. Com um sorriso encantador, bonita, inteligente, educada e querida, mas incompreendida em sua época, a tristeza foi tomando conta de Elvira Foeppel, afastando-a dos amigos e da vida. Sua morte se deu em completo anonimato, em 1998, no Rio de Janeiro.
 
A história da Violeta Grapiúna foi reconstituída por Vanilda Mazzoni, membro do grupo de pesquisa coordenado pela dra. Ivia Alves, da UFBa, que participou do projeto que visa a resgatar a biografia e a produção literária das escritoras baianas do período de 1940 a 1960. A dissertação de Mestrado foi aprovada com louvor, em dezembro de 2001, e agora está sendo aprofundada como tese de Doutorado, cujo tema é a análise vertical das publicações dispersas de Elvira Foeppel, as quais serão estudadas com maior profundidade sob o ponto de vista da temática sartriana do Existencialismo.
 

Maria Schaun
Jornalista e escritora
Ilhéus, 22 de janeiro de 2002.
Publicado no Diário de Ilhéus




JOCÉLIA FONSECA








HUMANIDADE NO FEMININO


É na mulher
Que a humanidade se acolhe
Antes de vir ao mundo,
E se alimenta
Do seu seio
Que derrama o néctar da vida
Suprime-se da necessidade
De seu amor
E para a mulher retornamos
Quando sabemos
que seu colo é conforto
para ninar momentos de cansaços
nas lutas cotidianas

















POESIA MULHER



A poesia se faz presente!
E em mulher
Desnuda-se em graça e louvor
Ao longo de sua vida
Dando-se a vida.

A poesia anuncia
Denunciando
Seu desejo de amor
Entre os seus...
Mais belos pensamentos,
De luta de coração!


















INSUBMISSA


Não me cale na boca
A palavra ainda não dita
Quando dos meus sentidos
Flameja o ar sutil
Coagido do teu olhar ditadura

Não me abafa na garganta
O sentido do grito
Que quer desabrochar
De um corpo ensanguentado
Das correntes
E concreto
Que paralisam meu corpo
Não me sugue o amor à vida
Pois quero sempre um ar vital
Pra prosseguir
Meu caminho
















MAL-CRIADA


Atender aos próprios instintos
Ser de si mesma
Ouvir a melodia da própria canção
não me modelar segundo seus moldes
Meu corpo tem a dança da vida

estou me dissipando das correntes
e deixando que as correntezas sejam a dialética

















AMÁ-LA


Quando a vida está uma mala sem alça
No corredor do vizinho
Cheio de roupas de inverno
Em pleno clima quente de verão...
Quando o desespero
Engole a vontade do viver calmo
E se vive em uma corda bamba
Sobre angústias...

Melhor ser firme
Melhor ser forte
Melhor ser mulher

Melhor ter futuros presentes
Melhor ter futuros próximos
e acordar para um sonho real
e fluir com os passos
passo a passo

dilacerar todo mal
e saber que todo crime que se comete
é contra si mesma
essa falta de amor próprio

melhor deletar as paixões
espinhentas e mentirosas
e deixar sobreviver
o hálito bom e tranquilo do amor
mergulhar na fonte que lava a alma
ignorar os passados sombrios
e ser flor desabrochando
para um novo amanhecer
novo sempre!!!




Autoras Negras Baianas em Cena
 

Ana Rita Santiago



 


O livro Vozes Literárias de Escritoras Negras, de Ana Rita Santiago, publicado recentemente pela Editora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (EDUFRB), apresenta leituras descritivo-interpretativas de trajetórias, prosas e poéticas das autoras negras baianas Aline França, Angelita Passos, Elque Santos, Fátima Trinchão, Jocélia Fonseca, Mel Adún, Rita Santana, e Urânia Munzanzu. O texto enfatiza traços de identidades, memórias individuais e coletivas, autoria, escrita e cuidado de si/nós presentes em suas poéticas e narrativas, salientando suas formações discursivas como práticas de (des) silenciamento de suas vozes autorais, visibilização de africanidades, ressignificações de suas vidas, legados culturais negros e de estratégias de descolonização, descentramento e de desautomatização de sujeitos poéticos e ficcionais.

A autora se apoiou na ideia de que memórias, lembradas e ficcionalizadas por escritoras negras baianas, em meio às relações de poder e de saber, auto-constituem, auto-interpretam e tensionam discursos sobre identidades com marcas fixas e singulares e, ao mesmo tempo, recriam histórias, sonhos e experiências coletivas, desvendando mundos, sem perder de vista o fruir do prazer estético advindo de narrativas. Além disso, ela considera que vários eus são encenados, destacando-se o eu autoral e o eu ficcional, posto que vozes e personagens têm marcas autobiográficas. Esses pretensos eus (referenciais e ficcionais) se mesclam em tramas e poéticas, evidenciando a interface entre o real e a ficção e problematizando o binarismo fato e ficção, tendo em vista a criação de uma textualidade em que elas, juntamente com suas personagens e vozes, se constituam e se tornem femininas negras.

Assim o livro traz análises de marcas discursivas da literatura afro-feminina, no que se refere ao rompimento com representações e discursos literários em que figuram vozes, universos e personagens negras com perfis subalternizados. Afirma que a produção literária dessas escritoras pode minar processos de coisificação, pois vozes se erguem, perspicaz e agudamente, contra estereótipos, estigmas, discriminação e visões exóticas, colonialistas que ainda passeiam em trânsitos literários.

No livro, há a constatação de que as autoras empoderam-se da escrita, com riscos de jogos de resistências, poderes e saberes, experiências, afetos e desafetos, lembranças, memórias e esquecimentos, sonhos, solidão e angústias como possibilidades de (re) invenção de si/nós. O compromisso com recriações de femininos e feminismos vislumbra projetos de novas mulheres negras e outros modos de ser mulher, cantados e ficcionalizados. Em tons denunciadores, afirmativos, idealizados e desconstrutores, suas personagens e vozes se apresentam comprometidas com o avivamento de emancipação, de tradições africano-brasileiras e de suas africanidades, sem, contudo, perder de vista frustrações, pesares, sofrimentos, dores, mortes e angústias que lhes acompanham.

Na palavra literária dessas escritoras circula uma visão de feminismos negros que extrapola aquele entendimento de sua pertinência apenas pelo viés do coletivo e pelas agendas e inserções em organizações sociais negras femininas. Nela não há um tom de conclamação por união de vozes femininas reivindicativas em prol de conquista de emancipação e de direitos civis e políticos. Tampouco são vozes literárias que denunciam explicitamente as diversas formas de exploração, a que, historicamente, se subjugam as mulheres, ou de protestos contra a dominação masculina. Há, ao contrário, uma compreensão de feminismo negro, comprometido com mudanças nas relações étnico-raciais e de gênero, que se opera nos embates e convívios cotidianos, no ordinário das relações entre homens e mulheres. Os eu poéticos femininos negros mostram-se afeitos a forjarem mudanças de identidades femininas negras em práticas socioculturais habituais. É, no âmbito do espaço privado, das relações afetivas e pessoais, portanto, que se operam as formas de resistências e as insurgências contra as práticas falocêntricas, racistas e etnocêntricas, como também se realizam ações de disputas de poder. Fazer poéticas afro-femininas, com esses tons, circunscrevem cantos, sonhos, experiências e visões de mundo, bem como se (re) inventam identidades negras femininas e suas conquistas de autonomia, uma vez que garante um direito à fala poética que tem ânsia, ainda que imaginária, por liberdade, reconhecimento, contestação e transformações.

A leitura de Vozes Literárias de Escritoras Negras possibilita aos/às leitores/as a compreensão de práticas discursivas e de assenhoramento da escrita de autoras negras baianas; suscita rasuras sobre ditos que subjugam sua produção literária, e, a um só tempo, faz provocações (contraditos) relacionadas às representações depreciativas e erotizadas de mulheres negras na literatura brasileira. Ademais, esse livro, além de forjar uma antologia de escritoras negras baianas contemporâneas, motiva o surgimento de outras pesquisas e estudos acerca da literatura afro-feminina no Brasil e fortalece possíveis diálogos entre a literatura e outras áreas artísticas e de conhecimento, diminuindo, quiçá abolindo, o distanciamento entre o vivido e o inventado.




http://www.ufrb.edu.br/editora/index.php/titulos-publicados


Vozes Literárias de Escritoras Negras
Autora:Ana Rita Santiago
Ano: 2012
O livro apresenta leituras descritivo-interpretativas de trajetórias, prosas e poéticas das autoras negras baianas Aline França, Angelita Passos, Elque Santos, Fátima Trinchão, Jocélia Fonseca, Mel Adún, Rita Santana, e Urânia Munzanzu. O texto enfatiza traços de identidades, memórias individuais e coletivas, autoria, escrita e cuidado de si/nós presentes em suas poéticas e narrativas, salientando suas formações discursivas como práticas de (des) silenciamento de suas vozes autorais, visibilização de africanidades, ressignificações de suas vidas, legados culturais negros e de estratégias de descolonização, descentramento e de desautomatização de sujeitos poéticos e ficcionais. A leitura de Vozes Literárias de Escritoras Negras possibilita aos/às leitores/as a compreensão de práticas discursivas e de assenhoramento da escrita de autoras negras baianas; suscita rasuras sobre ditos que subjugam sua produção literária, e, a um só tempo, faz provocações (contraditos) relacionadas às representações depreciativas e erotizadas de mulheres negras na literatura brasileira.
Preço: R$ 20,00

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Quando o amor vai à forra


 
 
 
 
 
 
 
Quando o amor vai à forra



Há uma diferença sutil entre o poeta que milita e aquele que devaneia com a poesia. Não que uma perspectiva de expressão possa anular a outra. Muitas vezes a militância e o devaneio caminham juntos. Em outras ocasiões, o devaneio vira militância. Entretanto, desfeito o jogo de palavras, fica claro quando o autor abraça o tema a ponto de tornar-se patente o seu engajamento, até mesmo nas entrelinhas do poema. Tal impressão me saltou aos olhos ao contemplar Alforrias, o mais recente livro de poesia da atriz e escritora Rita Santana.



Enquanto as páginas nos cantam loas de paixão e desejo, a poeta não hesita em cavar fundo o papel com uma certeza signatária: é um livro de amor em camadas. Isso porque o tema universal agrega inúmeros estratos que a autora vai repartindo em temas transversais. Os títulos dos poemas servem de trampolim para uma escrita forte, pejada de saudades, tristezas, dores, ciúmes, ódios, idílios, prazeres, todos esses sentimentos que costumam borbulhar no tubo de ensaio de quem ama.



Rita Santana teve o cuidado de escolher palavra com várias células históricas para intitular o seu livro. Alforrias é vocábulo herdado pela Língua Portuguesa a partir dos dialetos moçárabes, quando o latim vulgar que originou a língua materna andou enriquecendo nas histórias de luta da invasão da Península Ibérica pelos árabes, no início do Século VIII. Ao aportar no Brasil, a palavra não apenas traz embutida em sua estrutura uma relação de servo e senhor, mas também ganha um ar de desaforo e resistência em resposta à hipocrisia do regime escravocrata – forrar, ir à forra, dar o troco, responder à altura, impor-se.



E é isso mesmo que Rita faz ao apresentar-nos um livro com vários extras no menu. O melhor deles é a programação visual cuidadosa de George Pellegrini, que faz os olhos saltarem o arame farpado das páginas verde-cana e ferir a carne nas folhas bege-atadura. Vez por outra, os lanhos valem a pena pelo deleite da garapa que antecede os títulos. Menina, Rita Santana trama no espaço gráfico uma espécie de fuga no canavial das páginas pares para depois, mulher, revelar-se nas ímpares. A capa é outra escolha feliz. O autorretrato de Frida Kahlo em armadura de reconstrução cervical. E ainda crivada de cravos. Quanta carne viva ainda haverá na sina de ser poeta?



À medida que a fileira de farpas engrossa, vem a resposta. Rita Santana entra descalça no campo de lavas sem medo algum de admitir que está na empreitada por amor – “O gosto perverso da separação ventilou minha boca de mulher que ama” / “Como aquiescer, sem que me queime?” / “Adejar de banjos e tulipas sobre nossa cama de incêndios”. O dossel elástico da lascívia é palco do eterno jogo macho/fêmea, duas civilizações que parecem entender-se bem melhor entre fluidos, mucos e odores corpóreos – “Como agachar o rabo molhado / Sobre o teu sexo pontiagudo, / E alado – de ovos exangues?”.



Mas há muito além do ranger de camas, do coaxar de redes. Poetas não tardam a despertar da sinestesia. E nesse abrir de olhos é preciso abandonar a gravidez das palavras. Melhor senti-las secas, extrair-lhes o caroço. Rita Santana abre então as portas do puerpério e passa a emprestar o léxico à solidão, ao descaminho, em meio ao banzo dos seus degredos – “Há anos não gozo, por puro desgosto! / Há anos não canto, por desencanto! / Há anos não vivo, só tenho banzo!”. O gosto pela aliteração sem excessos é outra marca da escriba. O recurso, que em boa parte dos poetas soa antipático, aquece o ritmo do texto, como em Diário da Separação: “Cada vez mais disposto a cobrir de velários meus velórios matutinos”; Embate de Víboras: “Morde a maçã e diz malsã” ou em Tardo Amor: “Eu, maldizida, malfalada / Maldizente de almas fadadas/ Ao infinito”.



Justamente em Tardo Amor, último poema de Alforrias, agrega-se mais uma alegoria gráfica. Na página 75, após sorver as últimas palavras, o leitor se depara com um ícone de liberdade e esperança: um passarinho posa no arame farpado. É quando Rita Santana mostra que, ao labutar com palavras, vem conseguindo abrir as gaiolas dos seus quilombos. Na serenidade da paisagem, a música do grande Elomar até que cairia bem num xodó de rede: “Apois pro cantador e violeiro / Só há três coisas nesse mundo vão / Amor, viola, alforria e nunca dinheiro / Viola, alforria, amor / Dinheiro não”.





Marcos Navarro
Jornalista

( Texto publicado no jornal A Tarde 24/09/2012.)
 
Como adquirir Alforrias:
 
Livraria Cultura
 
EDITUS - Editora da UESC
 
 
 

domingo, 19 de agosto de 2012

Alforrias na Livraria Cultura

 


Alforrias




O livro encontra-se disponível na Livraria Cultura










Inclemências


A pedra seca abriga resíduos
Fósseis da saudade extinta.
O tempo roga inclemências Ermas
Nas fibras do meu desespero.
E pinta dor de espátulas
No desconsolo das vésperas.

Diante destes navios,
Minha janela se cansa.
E eu, fruta peca,
Flor sem pétalas,
Coração de máculas,
Mergulho muda
Num mundo-mar de vastidões.

Cansei de ser triste
Cansei desta matéria
Que alimenta e devora
A Poeta,
A Porta da minha casa,
A Puta da avenida Sete.

Aos demônios o cacete
Dos homens demasiadamente
Homens!

Infensos à demência réptil
Da minha esperança Yerma.






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Prefácio do livro Alforrias escrito por Lígia Telles:

http://www.uesc.br/editora/sumarios/alforrias.pdf







quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Entre Mares de Maíra do Amaral

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA “ENTRE MARES” TRAZ PAISAGENS MONUMENTAIS DA GRÉCIA E DA TURQUIA PARA SALVADOR
 
 
 
A abertura da exposição será no dia 24/08 (sexta) às 16h no Centro de Cultura da Câmara Municipal de Salvador
 
 
  
Uma viagem fotográfica que une o turismo e o prazer do conhecimento em múltiplas paisagens da legendária Grécia e esplendorosa Turquia. Este é o mote da exposição fotográfica “Entre Mares”, da fotógrafa Maíra do Amaral, que será aberta no próximo dia 24 (sexta), às 16h, no Centro de Cultura da Câmara Municipal de Salvador. As fotografias mostram diversos lugares sagrados para os cristãos e muçulmanos, como o local onde a Virgem Maria viveu seus últimos dias de vida, além de paisagens exuberantes dos dois países. A exposição é gratuita e fica aberta para visitação de 24 a 31 de agosto, das 8h às 18h.
 
Fruto de uma seleção entre 2 mil fotos, “Entre Mares” nos apresenta, de uma forma única, a Turquia, paraíso de história, informação e cultura, com contribuições de Gregos, Persas, Macedônios, Romanos e Bizantinos, entre outros povos; e a Grécia, berço da civilização ocidental, com a imponência da Acrópole de Atenas, e pontilhado por ilhas fantásticas.
 
Na Turquia, as fotografias passam por Istambul, antiga Constantinopla, cheia de charme comparável aos contos de “Mil e Uma Noites”; a Capadócia, fantástica região vulcânica com suas paisagens lunares, única no mundo; Pamukkale, conhecida como Castelo de Algodão, deslumbrante conjunto de piscinas termais de origem calcária e cascatas petrificadas; além de Ephesus da era greco-romana, cidade onde viveu Maria, a mãe de Jesus, e abriga até os dias de hoje o grande Templo de Artemis, uma das Sete Maravilhas do Mundo.
 
Na Grécia, a exposição “Entre Mares”, nos leva às ilhas de Patmos, a Jerusalém do Mar Egeu; à lendária Rodes; a Heraklion, a capital da famosa Creta Minoica; e a Santorini, com suas incríveis formações geológicas. Por fim, Maíra do Amaral nos apresenta o seu olhar fotográfico sobre Atenas com sua majestosa Acrópole. 
 
Graduada em Comunicação Social - Jornalismo pela FIB, Maíra do Amaral atua como fotógrafa jornalística e cultural, assessora de comunicação e produtora cultural. Criou e executou duas exposições fotográficas, Batidas e Quebradas, no Centro de Cultura da Câmara Municipal de Salvador, e a exposição Faces, evento em comemoração ao Dia Nacional dos Museus no Memorial da Câmara Municipal de Salvador. De 2005 a 2010, realizou a cobertura fotográfica e assessoria de comunicação dos espetáculos e projetos da Escola e Associação Picolino de Artes do Circo.
 
 
 
 
Serviço
Abertura da exposição fotográfica “Entre Mares”
Data: 24/08, sexta-feira
Hora: 16h
Local: Centro de Cultura da Câmara Municipal de Salvador
Endereço: Praça Tomé de Souza, s/n
Preço: Grátis
A exposição fica aberta para visitação de 24 a 31 de agosto, das 8h às 18h.
 
Entrevistas e informações: Maíra do Amaral (71) 9915-1100