Não
nasci nem ao menos morei ou veraneie lá, mas decididamente sou itaparicana. É o
que me diz esta funda, forte, e difícil de dizer, sensação que me assoma nas
mais diversas horas e circunstâncias desde quando voltei a visitar a cidade há
três anos. Tem qualquer coisa de nostalgia, quase banzo ou algo daquela paixão
que nos faz pensar no amado 24 horas do dia e a querer estar junto dele o tempo
todo. Seria então coisa de velha, que já não mais provocando suspiros nem tendo
mais o suficiente romantismo para alimentar amores não correspondidos ou
impossíveis, transfere o sentir para um lugar?
Poderia
ser, se essa atração não viesse de outrora. Criança ouvia as tias falarem
felizes dos veraneios em Itaparica, fazendo com que incluísse aquela estância
no rol dos encantados. Depois, na década de 70, vivi muito na Ilha, em Aratuba,
Berlinque, Cacha Prego, Mar Grande. Época de praias desertas, vegetação
espessa, rios limpos, fontes e lagoas de friíssimas águas ferruginosas brotantes
nos côncavos dos matos, algumas entre raízes das cheirosas ingazeiras. Sem luz elétrica a gente se fartava de lagostas,
que os pescadores vendiam barato por não ter onde estocar, e o luar caía muito branco
nas areentas veredazinhas, por onde se ia à praia noturna. E ali, ante a
profusão de estrelas, o marulho das águas acesas, o escuro farfalhar dos
coqueiros, o frêmito do vento nos cabelos e no corpo queimado de sol, diante do
largo e profundo isolamento, os mistérios do universo deslumbravam.
Na
cidade de Itaparica só estivera de passagem, indo de navio (no tempo em que
ainda havia os navios da Bahiana e eles paravam na estação de Itaparica) a
algum lugar. Só uma única vez, andei por suas ruas e fui tomada de amores,
tanto que propus ao meu marido ir morar lá, mas ele não topou. Depois, tanta
coisa aconteceu!.. Comecei a me afastar da Ilha, acabando por deixá-la quando o
avassalador progresso se instalou. Entretanto em 2008 calhou de eu voltar e ir
visitar a cidade de Itaparica. A emoção foi enorme. Descobri que a antiga
atração não se dissipara nas viradas do tempo, apenas ficara adormecida. Daí
que ultimamente, tenho ido lá mais vezes e sofrido o assédio da tal estranha
sensação.
É
algo de natureza onírica, que tem a ver com o vento, os cheiros, a
luminosidade, a atmosfera do lugar, com sutilezas. Chegam como visões,
perpassam como cenas, que atraem, chamam e envolvem, envolvem... Algo que vem do
casario colonial da Praça Campo Formoso; dos bangalôs do Boulevard, das ruas
calmas ainda arborizadas (ainda, porque a maioria das árvores, como os altos
tamarindeiros que de um lado emolduram a Praia do Forte e do outro o Solar dos
Reis, está bem idosa e não há replantio para a substituição); das praças ou da
biblioteca; das igrejas; do mercado de artesanato; da janela do quarto do Hotel
donde vejo o sanhaço na ponta da cruz da capela da Piedade; do Forte São
Lourenço; dos festejos do 7 de janeiro.
Vem
do mar visto de toda parte: da varanda do Icaraí enquanto tomo o café da manhã
observando pescadores em ação na amurada e dentro d’água, próximos da bóia que
assinala um naufrágio; do Largo da Quitanda, durante o almoço, quando pelas
águas espelhadas ao sol a pino, passa alguma canoa com vela pena ou de espicha,
branca ou colorida, quando não, um saveiro de içar. A coisa também emerge do
azul da enseadinha da Praia do Forte, com todos remotos gritos das antigas
batalhas abafados pelo leve sussurrar das águas mansas, sob a vigília do
araçazeiro, nascido ou plantado, na areia da praia.
Busco
explicações. Seria efeito das falas das tias? Mas há outros lugares que por
referências de outrem foram mitificados e que hoje visitados não causam nada
similar. Seria por analogia com Praia Grande e Periperi, onde vivi parte da
infância e adolescência ou com a Ribeira onde costumava ir aos domingos em
visita a tios e primos? Eram as mesmas águas calmas da mesma baía e as
mariscagens, as canoas, as velas, as típicas atividades costeiras. Eram as
casas antigas assobradadas, praieiras ou de fazenda e ruas calmas. Estes
locais, incluso os que freqüentava na Ilha, de tão desfigurados já não oferecem
correspondência real para a carga afetiva que ficou na memória. Então a razão
da sedução se daria por ter Itaparica conservado o que os outros perderam? E, com a densidade histórica que ela sustém,
o efeito se faz assim tão intenso. É possível ainda, que resulte duma captação do
apreço de todos para os quais Itaparica foi especial e que, de alguma forma, como
onda, persiste na atmosfera. Sim, quem sabe?... Talvez, seja coisa que só Freud
ou a reencarnação possa explicar.
O
caso é que, por ser assim um tanto itaparicana, me doeu o roubo da imagem de N.
Sra. da Piedade. Afinal era um referencial, elemento de
identidade. Desde séculos, a santa fazia parte do cotidiano da população. Era a
ela que os homens iam pedir proteção antes de irem à pesca e a quem as mulheres
rogavam bênçãos para seus maridos e filhos. Ainda que se diga tratar de mero ídolo, os séculos de
adoração e as vibrações de fé dos devotos por certo a tinham consagrado.
Além disso, foi uma heroína da Independência. Conta a lenda que, durante as
lutas, uma bela mulher apareceu para ajudar os itaparicanos e, em uma das
batalhas, ela abriu os braços diante do mar, impedindo que os bombardeios dos
portugueses atingissem a população e suas casas. Finda a luta, foram ao nicho
agradecer a Nossa Senhora pela vitória. Foi quando, espantados, notaram que a
barra do manto dela estava suja de areia da praia. Logo a notícia de que a
virgem da Piedade tinha pessoalmente ajudado os itaparicanos, se espalhou por
toda ilha.
O nicho da santa fora
instalado em 1622 pelo português João Francisco e dele passou aos cuidados do Visconde
do Rio Vermelho. Após a morte deste, os herdeiros, em Salvador, mandaram buscar
a valiosa imagem portuguesa do sec. XVII. Mas a população liderada por Maria
Felipa de Oliveira (outra heroína, esta, de carne e osso) se apoderou da imagem
e botaram o mensageiro pra correr. No lugar do nicho foi erguida a capela para
a Santa, que ali ficou, como heróica padroeira, até ser roubada em dezembro. Junto
com a preciosa obra de arte se foi parte da cultura, da história e de muitos
corações de Itaparica. Faço fé que, em vez de mau agouro, isto seja um alerta para
não se deixar Itaparica vir a ser mais um lugar a perder o caráter e a tão fina
sedução.