sexta-feira, 27 de abril de 2012

Renata Belmonte: Música e Narrativa










Por enquanto
                                                   
                                                              Renata Belmonte




Ela sempre foi uma menina sem Deus, escutei, ainda naquela noite, alguém comentar. E, não, nada fiz para desmentir tal horrível afirmação. Continuei caminhando no mais absoluto silêncio. Nem mesmo me virei para trás. Na ocasião, preferi não permitir um rosto para esta frase tão ofensiva. Pensava que palavras poderiam ser mais facilmente esquecidas do que pessoas. Ledo engano. Uma menina sem Deus. Eu. Sinto-me desta maneira aonde quer que vá.
Não. Eu não o perdi apenas ontem. Eu o perdi hoje, amanhã e em todos os dias que me restarem. Essa é uma dor que não tem idade. Essa é uma dor que jamais irá passar.
Sim. Amar deste jeito alguém que já morreu é realmente muito cômodo. Desta forma, pode-se ignorar certas verdades sem nenhum tipo de confronto.
Ela está sentada diante de mim. Nervosa, movimenta as mãos sem parar, mas seus gestos são inócuos, nada comunicam, têm como único objetivo aplacar a enorme distância que existe entre nós.  Não, eu não estou escutando nada do que ela diz, tenho medo de voltar a acreditar nas suas promessas, longos foram os anos de decepção. Demorei muito tempo para aceitar que certas pessoas nunca irão mudar, precisou que o pior acontecesse para que eu compreendesse que ela tinha feito sua escolha de maneira irreversível. Sim, é verdade: no passado, eu preferia acreditar que ela era omissa porque não sabia como proceder. Sempre a escutei comentar que a vida pode ser um drama ou uma comédia e que isso depende da opção de cada indivíduo. Hoje, adulta, constato: não concordo com nada disso. Naquela casa, sorrisos e lágrimas eram proporcionais, mas nossos momentos jamais foram felizes. Até mesmo as minhas eventuais gargalhadas tinham como objetivo aliviar um certo incômodo que nos era tão familiar. Em algumas noites, ainda escuto os sussurros, escondo-me embaixo das cobertas, tenho medo de um monstro invisível. Quando me lembro disso, sinto vontade de chorar, penso em contar tudo de novo para ela, mas contenho meu impulso. Repito para mim mesma que certas pessoas nunca irão mudar e que tal confissão nada adiantaria. Além do mais, seu aspecto frágil também me impede de levar meu intuito adiante. Os anos não foram gentis com ela, observo seu rosto com incredulidade, rugas aniquilaram toda a beleza que ela possuía tempos atrás. Na mesa, vejo o bolo cheio de velinhas. Apago-as sem vontade. Perto dela, serei, eternamente, a menina sem paz.
Não tem explicação. O amor é assim: ele existe ou não.
No dia em que meu pai morreu, chovia muito. E eu estava sentada, diante de uma janela, quando minha mãe se aproximou e me deu a dolorosa notícia. Não, eu não me lembro como reagi neste momento. Acredito que tenha chorado e gritado muito, mas não me recordo com precisão. Afinal, já faz tempo que isso aconteceu e é bem provável que, na ocasião, eu não tenha nem compreendido o que ela tanto tentava me dizer. Se chorei ou gritei foi porque minha mãe estava devastada e eu a amava de tal forma que não aceitava vê-la nesta situação. Aos quatro anos de idade, ninguém possui ainda a verdadeira noção do que é a perda de um pai. Somente durante a adolescência, quando não tive a quem recorrer nos piores dias da minha vida, entendi a importância deste ser fundamental. Desde então, sinto bastante a sua falta, rezo para ele com freqüência. Meu pai tinha cabelos bonitos e olhos vibrantes, dizem as fotografias. E, apesar do meu esforço cotidiano para tentar reconstruir sua existência, quase nada dele sobrou na minha memória. É realmente bastante estranha a forma como se dá a escolha daquilo que iremos guardar para sempre como uma recordação. Certa vez, li que, ao contrário do que se pode pensar, o esquecimento possui como função primordial colocar a lembrança num lugar sagrado, intocável, mítico. Isto porque, segundo tal teoria, tudo que é inesquecível foi apagado das instâncias ordinárias do pensamento e tornou-se tão especial quanto fantasioso. Gosto de pensar que esta tese está correta, pois ela retira de mim um pouco da tristeza que sinto por não me lembrar do meu pai. É mesmo possível que, inconscientemente, eu recuse a sua recordação porque ela acabaria por destruir todo o encanto que atribuo a sua figura. Sim, porque este pai que não me lembro é a única pessoa a quem ainda posso dirigir o título de família. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas, depois de tudo que aconteceu, a minha relação com minha mãe também morreu. Num passado distante, cheguei a achar que nosso vínculo era para sempre. Mal eu sabia que tudo que acreditamos ser pra sempre, sempre acaba. Bem que eu gostaria de acreditar que o final da minha vida será como o dos contos de fada. Bem que eu gostaria de acreditar que existe um Deus que olha por mim e que me protege de todo mal que os outros possam me causar. Escuto trovões, descubro que irá cair um temporal, penso em meu pai. No dia de sua morte, chovia. Volto a ter quatro anos, olho para o céu, minha mãe me avisa que, agora, este é o lugar onde meu pai irá morar. Apesar da minha pouca idade, questiono: como isso pode acontecer se não vejo nenhuma casinha lá? Sou pequena, mas já sei que o céu é apenas o céu. Basta que alguém olhe para ele somente uma vez para constatar isso. Algumas coisas são muito simples, mas gostamos de inventar metáforas, pois acreditamos que certas palavras muita dor podem causar. Seu papai está no céu. Seu papai está no céu com o Papai do Céu. Meu pai morreu. Ninguém sabe se meu pai está com Deus. Sinto falta de meu pai. Sinto falta de Deus. Hoje, irá chover. Que eu saiba ninguém morreu, mas é meu aniversário. Ela envelheceu. Ela está sentada diante de mim. Realmente, não sei se tenho algo para comemorar.
Foi tudo sua culpa. Eu não acredito em nenhuma de suas palavras. Você é a única responsável pelo que ocorreu.
Já fazia muito tempo que aquilo acontecia. E, depois que eu contei para ela, nossa relação se tornou bastante difícil. Mudaram as estações, tudo mudou... Se na minha infância, éramos amorosas uma com a outra, na adolescência, parecíamos inimigas. Alguns podem argumentar que, nesta fase, é natural esta competição entre mãe e filha. Mas tudo isso era muito terrível para mim. Todos os dias, ela pontuava meus defeitos com grande satisfação. Escutei, por diversas vezes, que o meu jeito tímido era sinal de fraqueza e que eu não tinha nenhuma beleza, pois havia puxado tudo da família do meu pai. Ora, é claro que, às vezes, ela demonstrava algum carinho, mas tais momentos eram muito raros, escassos. Também é verdade que eu a magoei com frases duras, mas sempre reconhecia meu erro e apenas agia assim para poder me defender. Regras absurdas que ela me impunha faziam com que aquela casa parecesse um quartel. Mas toda a nossa suposta discórdia possuía um obscuro motivo. Não podíamos suportar o silêncio. Precisávamos de uma quota diária de gritos. Somente desta forma, conseguíamos fingir ignorar a real razão de nossos atritos.
Não. Eu não o perdi apenas ontem. Eu o perdi hoje, amanhã e em todos os dias que me restarem. Essa é uma dor que não tem idade. Essa é uma dor que jamais irá passar.
Ela está sentada diante de mim. Nervosa, movimenta as mãos sem parar, mas seus gestos são inócuos, nada comunicam, têm como único objetivo aplacar a enorme distância que existe entre nós.  Não, eu não estou escutando nada do que ela diz, tenho medo de voltar a acreditar nas suas promessas, longos foram os anos de decepção. Demorei muito tempo para aceitar que certas pessoas nunca irão mudar, precisou que o pior acontecesse para que eu compreendesse que ela tinha feito sua escolha de maneira irreversível. Ainda no final daquela noite, eu cheguei a lhe perguntar: Como você pode amar mais esse homem do que eu? Ela apenas respondeu: Não tem explicação. O amor é assim: ele existe ou não.
No dia em que meu pai morreu, chovia muito. Descubro que irá cair um temporal, trovões insistem em fazer barulho. Que eu saiba ninguém morreu, mas é meu aniversário. Hoje, completo trinta e dois anos e, pela primeira vez, fico mais velha do que meu pai. Sofro. Não acho natural isso. Tenho medo de envelhecer sozinha. Na mesa, vejo um bolo cheio de velinhas. Por coincidência, também é o meu último dia aqui. Doze anos presa por me defender de um homem que, todas as noites, ia ao meu quarto me machucar. Realmente, não acho esse mundo justo e não sei se tenho o que comemorar. E, mesmo com tantos motivos para deixar tudo como está, vendo-a tão nervosa, não mais me contenho e pergunto:
-Mãe, o que afinal você veio fazer aqui?
No caminho de volta para casa, olho para o céu. Por enquanto, não chove. Sim, o céu continua sendo apenas o céu.  Não vejo meu pai. Não vejo Deus. Mas eu sei que alguma coisa aconteceu. Ela está ao meu lado. E está tudo assim tão diferente.

 ( Do livro Como se não houvesse amanhã)


 

quinta-feira, 26 de abril de 2012

CLARISSA MACEDO






CLARISSA MACEDO













Sempre será essa voz fria
e esse traço de humor desesperado

será a rua pífia, sibilina
e o canto trepando roto, alucinado

será o mar talvez um dia
e este lamento coalho, insuportável.

Será plena a vida, quando eleita dança
no motim dos loucos desamparados.












Peso inadiável
 

De repente
sinto o peso dos meus anos.

De balbúrdia e folia
isolados na cama da idade,
que teima em matar,
é paixão de brados rápidos
liberdade e agonia querendo nascer.

Anos de vidas concentradas
desfilando nus na terra alagada,
sementes do infantil e do atrasado –
que quer matar e não, não quer morrer.

Longos traços para a morte
meus anos de força e esquizofrenia
são armas e forjas apontadas
na calma lamentável de prosseguir. 

 











Falácia

 
A verdade é que me sufoca
essa beleza estranha
e esse amor, que me tinge
e me permanece.

No sul das entranhas
condeno este amor estróina:
singra longe, esquece.

A canção que medito
há de nunca chegar.












Clarissa Macedo é revisora, escritora e produtora. Cursa Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Faz parte das coletâneas Godofredo Filho (2010), Sangue Novo (2011) e Verso e Prosa – Oficina de Criação Literária III Feira do Livro (2011).
Faz parte da edição de número 149, de dezembro de 2011, da revista eletrônica Verbo21. Publicou poemas no site Musa Rara em fevereiro deste ano e no blog “consideraçãodopoema.blogspot.com”. 
Participou, em 2011, da IV Feira do Livro de Feira de Santana e da 10ª Bienal do Livro da Bahia na abertura da Praça de Cordel e Poesia. 


Blog de Clarissa:







Fotos das flores: Rita Santana


quinta-feira, 12 de abril de 2012

O homem que Sabia a Hora de Morrer

 








O homem que Sabia a Hora de Morrer

Adelice Souza



O meu avô sabia a sua hora de morrer. Eu não sei a minha.
Isso de saber a hora de morrer será coisa de Deus ou do diabo? Meu avô sempre foi homem de fazer do bem, mas não se sabe. Tem diabo nas pedras e tem Deus nas pedras também. Se a pedra está no meio do caminho, e nela, alguém escorrega, cai e se machuca, pode ser uma pedra do diabo. Uma pedra, na beira do rio, onde se estende a roupa para quarar, pode ser uma pedra de Deus. Mas pode ser pedra do diabo também, se alguém dela desliza e quebra uma perna, um braço, um dente. Quando eu quebrei um dente, o dente da frente, achei que era uma artimanha do diabo, futucando minha vaidade, só para ver o que eu faria. Não conseguia ir ao dentista sem sofrer, sem chorar amarga e silenciosamente o dente perdido para sempre, a dor do irrecuperável. Depois, mas muito, muito depois, percebi o que acontecera comigo sem o dente. E que o dente novo propriamente dito feito de cerâmica, marfim, vidro ou amálgama não ficou muito diferente do outro, do original. E que o espaço vazio da perda do dente foi preenchido por coisas mais importantes do que possuir um dente verdadeiro. Coisas de sensibilidades, de vastidões, de Deus. Então, aprendi que até o que, inicialmente, é muito claro e óbvio ser coisa do diabo, pode muito bem não o ser. Inversões. Em toda coisa vivente, há os dois, Deus e diabo. Às vezes, juntos: farinha no mesmo saco. Às vezes, separados: dedos das mãos. Outras vezes, juntos e separados: farinha no mesmo saco, dedos das mãos. 



 




(Esse livro de Adelice Souza trata de forma suave e grave um dos problemas da vida- a morte. Ter um avô que sabia a hora de morrer, é um tema que fascinaria um Hemingway, um Dostoievsky e outros que tais. Vejam esse trecho:

"Além do meu avô que sabia morrer, eu tinha um outro avô. E mais duas avós. Mas a natureza tinha feito uma injustiça muito grande com eles: nenhum dos três sabia a hora de sua morte. E ter um dos avós que sabia a hora da morte eclipsava os outros três. É assim a natureza"
De: Affonso Romano Santanna)