domingo, 29 de janeiro de 2012

Bênção










BÊNÇÃO
 Rita Santana



Apeio o peito sobre a saudade que arde a carne,
Sem consolo possível no solo das desesperanças.
Herdei de meu pai pujanças, bravezas,
E de minha mãe a fragilidade animal das fêmeas.
Por isso tenho tudo!
Posso despregar o afeto como macho cansado faz,
Posso abandonar as armas, trêmula, porque morro.
Tenho grandes, pequenos e verdes medos,
Sou mulher de agora, de hoje,
Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.
Falta o dicionário farto em suas doações doces de fonemas,
De raízes, arcaicas presenças de verbo.
Doarei o dia à paz, ao abandono das preocupações.
Tratarei da poesia, minha parceira de demolições e alvenarias.
Quem me dera só ser, sem bruscas mutações,
Mas o corpo oscila na regularidade do ciclo.
Endoideço alguns dias porque virá a sangria
E entrarei no templo das penitências,
Fitando meu Deus com acusações humanas.
Sou esse fruto peco das diásporas,
Minha veemência é minha mordaça,
Assim têm sido meus dias de santa, casta, pacata,
Senhora de um Deus-homem.
Desacato porque sorvo substantivos, substâncias,
Essências de nomes, dores, fantasias.
Desacato porque sou poeta.
Tenho língua de fontelas, hildas.
Sou muito brava para donos
E afeita a clamores de desprotegidos.
Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.
Sou rata e rainha.



 Foto: Rita Santana/ Poema do livro Tratado das Veias/2006.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012









 Dorso
Rita Santana


Amo a parte escura do teu dorso
Que me frequenta o leito nas noites nuas.
Não vens inteiro, pois que na verdade
Somente é tua língua quem me perpetua.

Apenas o teu dorso quente
Perambula em meus olhos-espelhos
Onde vermes saudades jazem em azulejos
Carcomidos de desejos frouxos.

Amo a parte escura das cartilagens
Por onde meus polegares passeiam
Em impaciências de relâmpagos mancos.

Estanco meus medos com tamancos vermelhos
Que deslizam sobre os pés do bailarino
Exposto na vitrine do teatro.




sábado, 31 de dezembro de 2011

Senhora dos Espaços





 



SENHORA DOS ESPAÇOS
 Rita Santana



Visitei o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira. O motivo principal da minha ida àquele espaço foi o desejo de ver a obra de Mestre Didi, cuja força exerce sobre mim um tremendo fascínio. Mas pude ver muito mais. São três exposições importantes para sabermos mais sobre a identidade brasileira. É olhar o espelho e ver a nossa pele, a nossa gente negra que construiu obras em áreas tão diversas do conhecimento humano. Em tempos onde a ausência, a baixa frequência, a invisibilidade ou o aprisionamento do negro a velhos clichês na mídia, ainda, é uma realidade. A história escravista perpetua-se nas relações cotidianas e a resistência continua incessantemente.

As três exposições têm curadoria de Emanoel Araújo, uma grande personalidade do mundo das artes no Brasil. Desenhista, pintor, escultor, cenógrafo, pintor, curador e museólogo. Emanoel Araújo foi o responsável pela grande reforma espacial e ideológica da Pinacoteca de São Paulo na década de 90, mobilizando um grande público e lançando a Pinacoteca como um dos espaços mais respeitados do País. Emanoel nasceu em Santo Amaro da Purificação em 1940. É um Intelectual inquieto, polêmico.

  São três exposições: Nós: afrodescendentes brasileiros, com fotos de personalidades negras fundamentais para a história e construção cultural do Brasil, como os irmãos André e Antônio Rebouças, Juliano Moreira, João Cândido, Pixinguinha, o próprio Walter Firmo, Grande Otelo. Enfim, um painel de tantos nomes e rostos, muitas vezes desconhecidos, que estão ali para serem vistos, pesquisados, conhecidos, reconhecidos e aprofundados. Numa investigação que caberá somente ao leitor da obra, ao visitante que se depara com aquela constelação de gente negra que construiu o Brasil com o seu trabalho e com o seu intelecto. Tomaremos alguns sustos necessários para desconstruirmos nossa formação sobre a participação do negro na sociedade brasileira. 

Verbos como colaborar, influenciar terão que ser repensados nesse contexto porque não dão conta da intrínseca relação entre a construção histórica do Brasil e a incessante e indelével atuação dos negros nesse processo. A presença do pronome na primeira pessoa do plural sinaliza que não se trata da alteridade, do negro brasileiro visto como o Outro, mas é uma exposição sobre todos nós, tantos de nós, muitos de nós. Portanto, qualquer brasileiro que ame aquelas personalidades, que se identifique com o trabalho, a atuação, a participação dessas pessoas e que tenha o sentimento de pertencimento àquela etnia, se sentirá afrodescendente e se integrará ao nós proposto no título.

 Exposição que homenageia 2011: Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes. É um painel de uma Nação, de um povo inteiro. Como é possível pensar o Brasil sem os nomes que figuram no painel e no cartaz que ganhamos durante a visitação: Olavo Bilac, Mario de Andrade, Castro Alves, Gonçalves Dias, Abdias Nascimento, Ruth Souza, Solano Trindade, Machado de Assis, Carolina de Jesus, Lea Garcia? Quem não tem a marca de Pixinguinha na sua alma? Luiz Gama enfrentando a justiça para libertar mais de 500 homens e mulheres escravizados? Milton Santos sorrindo pra gente e encantando o mundo como grande geógrafo? Quem, sendo brasileiro, não se sente pertencente ao universo dessa criação diaspórica que é o próprio Brasil?

Ao mesmo tempo, o título da exposição é afirmação de quem somos. É também um lugar de afirmação e imposição de que somos nós, os negros, que estamos ali representados, e que estamos em meio a todos eles. A nossa foto parece estar ali, nos sentimos representados, legitimados com uma dignidade e orgulho imensuráveis.

Temos a exposição permanente do Museu com obras de muitos artistas plásticos negros ou que trabalham a identidade negra e os signos associados ao universo afro-brasileiro, como Carybé que traz para a exposição peças africanas do seu acervo pessoal com esculturas magníficas do continente africano. Pierre Verger capta momentos sagrados dos rituais do Candomblé em suas fotos que dizem muito da nossa ancestralidade, da nossa cultura, de nós mesmos. São 260 obras surpreendentes, fascinantes, que nos envolvem no universo da arte, da criação, da magia. Lá estão algumas criações de Rubem Valentim com o seu colorido enigmático, suas formas reconstruídas incessantemente, e a marca de signos que nos remetem também para o território do sagrado:

Minha linguagem plástico-visual-signográfica está ligada aos valores míticos profundos de uma cultura afro-brasileira (mestiça-animista-fetichista). Com o peso da Bahia sobre mim – a cultura vivenciada, com o sangue negro nas veias – o atavismo; com os olhos abertos para o que se faz no mundo – a contemporaneidade; criando seus signos-símbolos procuro transformar em linguagem visual o mundo encantado, mágico, provavelmente místico que flui continuamente dentro de mim.”

Mestre Didi sempre foi uma paixão! Ao entrar no salão dedicado ao seu trabalho, senti uma perturbação na alma. Sabia que adentrava em um espaço sagrado sem atinar, conscientemente, para o título da exposição. Entrava num altar e pedi licença. Recuei antes de prosseguir, pois sabia que ali estava um território de reverência. Somente indo à Exposição para saber a beleza dessa experiência visual, estético-religiosa. Sua obra afeta outros sentidos, principalmente o elo com a nossa identidade afro-brasileira, a religiosidade íntima e coletiva que une tantos de nós. A poesia da imagem! Um Mestre esse Didi. Muitos mistérios!

Exposição onde o sagrado se encontra com a arte; onde o silêncio impera sobre nós; onde meditar e contemplar se irmanam; onde templo e galeria se fundem. Sensações, muitas sensações! Aliás, pedi licença várias vezes, enquanto fotografava no meu entusiasmo febril. Pedi licença enquanto olhava, enquanto entortava o pescoço para mergulhar nas formas, tentando alcançar a dimensão da escultura, alcançar a imensidão das esculturas lançadas ao espaço, desafiando a gravidade, desafiando espaço e tempo, pois somos arrebatados para tempos imemoriais, tempos de outros tempos. A elegância das peças, que surpreendem pela forma que adquirem e a altura que alcançam como se fossem donas do mundo. Os títulos das obras ajudam a compor esse oráculo: Palma do Mistério do Mato, Cetro ibiri, Serpente com Pássaros, Assentamento onde emergem os poderes ancestrais, Emblema de Nanã, Espírito da Floresta, Senhora dos Espaços, Erè: Divindade Infantil, Eye lawá: Pássaro Ancestral e Grande Mãe, Pássaro de Tempo Imemorial.

O antigo prédio do Tesouro do Estado, em estilo neoclássico, já é um monumento histórico a ser apreciado, da mesma forma o prédio em frente ao Museu que também se destina às suas instalações e atualmente encontra-se em reforma. As instalações elétricas em torno do prédio perturbam a contemplação da sua arquitetura, mas certamente haverá uma futura preocupação com a paisagem externa. 

O contato com a obra de Mestre Didi é um encontro com a nossa história de criação artística profunda. É o contato com um povo ancestral que sempre esteve dentro do universo da representação plástica, literária, lúdica e musical no Brasil. É lembrar que o trabalho artístico dos povos do Continente Africano inspirou e ensinou ao mundo ocidental muito do que foi utilizado no Cubismo de Picasso.

Portanto, o olhar sabe que é obra de arte, pois a agudez do sentimento estético é acionada: estamos diante do Belo, da Beleza. Beleza construída com elementos simbólicos cujo significado muitas vezes só será sabido pelos iniciados do candomblé ou por quem tem o conhecimento religioso necessário para a apreensão mais direta dos significados. Entretanto, os signos dizem, mesmo que não entendamos conscientemente qual a semântica ritualística que engendra aquela obra. Há uma mobilização dos sentidos, do sentimento de religiosidade, irmandade com o Sagrado e a Beleza.

Resolvi findar 2011 com a visita à Exposição e pretendo iniciar o próximo ano indo ao Museu de Arte Moderna da Bahia - Solar do Unhão - para ver a exposição de Rubem Valentim. São duas velhas paixões. Sinto que cumpro um ritual interno de renovar a minha alma, minhas idéias e meu conhecimento. Pretendo levar meus sobrinhos e irmãs porque acredito no poder da imagem, das artes plásticas para a renovação do olhar, do pensamento. Talvez as postagens nas Barcaças sejam o meu desejo de que mais pessoas visitem as duas exposições na crença de que estejamos construindo um mundo melhor.

Internamente, no próximo ano, pretendo estar mais próxima dos meus desejos, das minhas paixões, como ir aos museus, ver as exposições, ouvir mais música, ir aos shows, ler mais livros, escrever mais. Correr atrás desses dois artistas tem esse significado. Dei o primeiro passo! Agora me sinto mais Senhora dos Espaços, mais senhora de mim mesma. Muita força, conhecimento e colorido para todos nós em 2012. 


Exposições no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira
Curadoria: Emanoel Araújo
Período: 16 de Novembro de 2011 a 19 de Fevereiro de 2012
Visitas:  terça a sexta: 10h - 17h 
                   sábado e domingo: 14h - 17h
R. do Tesouro, s/n. Centro Histórico (3321-6722). 
Entrada gratuita.

Foto do painel: Rita Santana




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mestre Didi: O Escultor do Sagrado






















































Exposições no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira
Curadoria: Emanoel Araújo
Período: 16 de Novembro de 2011 a 19 de Fevereiro de 2012
Visitas:  terça a sexta: 10h - 17h 
                   sábado e domingo: 14h - 17h
R. do Tesouro, s/n. Centro Histórico (3321-6722). 
Entrada gratuita.
Fotos: Rita Santana




quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Mestre Didi: O Escultor do Sagrado








 


















































 












 













Exposições no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira
Curadoria: Emanoel Araújo
Período: 16 de Novembro de 2011 a 19 de Fevereiro de 2012
Visitas:  terça a sexta: 10h - 17h 
                   sábado e domingo: 14h - 17h
R. do Tesouro, s/n. Centro Histórico (3321-6722). 
Entrada gratuita.
Fotos: Rita Santana 


sábado, 17 de dezembro de 2011

Poesia e pintura: Cruz e Sousa







Poesia e pintura: Cruz e Sousa
 Zahidé Lupinacci Muzart




Cruz e Sousa, escreveu poesias a vida toda. Só uma parte foi organizada por ele mesmo para publicação, tal como Missal, Broquéis, Últimos Sonetos, Evocações. Destas obras, só viu editadas as duas primeiras, tendo sido publicadas as demais pelo interesse e persistência do maior amigo, o escritor Nestor Vítor. Os dispersos, publicados por Andrade Muricy em O Livro derradeiro, somam o dobro dos poemas planejados para publicação o que pode ser considerado significativo da consciência do poeta, só escolhendo o que considerava mais expressivo de sua produção. 

Desde os primeiros artigos sobre Cruz e Sousa, sempre transpareceu o espanto diante do novo, espanto que demonstra como foi a recepção do poeta no meio literário brasileiro. E, até hoje, a leitura do poeta desperta uma estranheza, um perguntar-se “O quê, como, por que”. E, parece-me que é este o estofo da poesia de Cruz e Sousa e a sua importância: trazer o novo, sacudir a mesmice, instalar um questionamento diante do mundo. 

Cada época lê os poetas, os escritores, a sua maneira e de acordo com suas experiências, sua História, sua vida. Por isso, o sentido de um texto é variado, mutável, ambíguo; é um resultado e uma amálgama, a interação das diversas formas de leitura, seja de livros, seja do mundo, das experiências de vida, da cultura. Assim, apesar da enorme fortuna crítica de Cruz e Sousa, haverá sempre outra maneira de lê-lo, dependendo da época, das teorias de apoio, da metodologia e das próprias leituras e vivências do leitor/analista. Analisa-se bastante a musicalidade da poesia de Cruz e Sousa, o uso das aliterações e assonâncias, que criam verdadeira música orquestral, tal como o apontou seu primeiro crítico em 1893. No entanto, acho que não se tem bastante acentuado a ligação da poesia de Cruz e Sousa com a pintura. Não que ele tenha conhecido e interpretado, ou mencionado os pintores verdadeiramente modernos de sua época, nem poderia, dado o meio acanhado que frequentou e o próprio Brasil de então. Penso mais na ligação que o leitor pode estabelecer entre a poesia e a pintura. Em Santa Catarina, alguns artistas já expressaram tal ligação em quadros. Aldo Nunes, Eli Heil, Elke Hering, Hassis, Jandira Lorenz, Rodrigo de Haro, Pleticos, Jayro Schmidt, Janga, Hugo Mund Jr., Hamilton Machado encontraram motivos para suas obras na poesia de Cruz e Sousa. Também, no ano do centenário de morte do poeta, 1998, a Fundação Catarinense de Cultura, (leia-se Charles Narloch), organizou uma exposição baseada em quadros, ligando-os à poesia de Cruz e Sousa.

Tal tópico tem larga tradição. O primeiro a preocupar-se com a comparação entre pintura e poesia foi Horácio na Arte Poética: Ut pictura Poesis. Plutarco registrou a frase famosa de Simônides de Ceos: "A pintura é poesia muda e a poesia é uma pintura falante."

Esse estudo comparativo entre poetas simbolistas e pintores não tem sido tão acentuado talvez porque a poesia parnasiana sempre tenha sido ligada à pintura e à escultura. Daí o evitar-se associar a poesia de Cruz a essas artes. Na verdade, parnasianismo e simbolismo, no Brasil, andaram tão estreitamente ligados que por vezes é realmente difícil dizer-se onde um estilo termina, onde outro começa. Sendo a pintura  uma arte espacial e a poesia, temporal, talvez pareça complicada a relação entre elas. Entretanto, a associação, que tenciono estabelecer, não é a mesma dos parnasianos que falavam muito em mármores, em pincéis não em imagens etc. Não é bem nesse sentido. 

Parti de um texto de Jorge Luis Borges. Há textos pequenos, sintéticos e tão incrivelmente densos que não deixam de surpreender-nos a cada leitura nessa nossa época de tanto vazio intelectual e de tanta inútil tagarelice. Um desses é o de Borges, intitulado “Kafka y sus precursores” de apenas duas páginas e meia no qual, Borges criou uma tese muito original: a de que os escritores criam seus precursores e de que seu trabalho “modifica nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro”.[1]  Para Borges, essa mudança é mais propriamente uma criação, uma invenção de elementos novos que surpreendentemente passam a fazer parte do passado. Na visão de Borges, é a leitura, portanto, que coordena a tradição; e não o contrário.”[2] Usando esse texto apenas como um “gancho” para dar uma direção à comparação que espero estabelecer entre Cruz e Sousa e a pintura de Chagall, gostaria de ler um poema de Cruz e Sousa, à luz das originais idéias de Borges.

Cruz e Sousa foi um criador de atmosferas. Atmosferas, quadros, insinuação de temas, associações insólitas (ex: Múmia), fragmentos, ausência de assunto, chegando à abstração e a uma lírica realmente moderna. Essas atmosferas podem ser vistas como a criação de quadros em pintura e pinturas cubistas, expressionistas ou surrealistas.  Chagal, Klimt e outros poderiam assinar tais poemas. 

Onde entraria o texto de Borges? No fato de que o leitor de Cruz e Sousa pode apreciar-lhe melhor a poesia se for igualmente um “leitor” de Chagall, por exemplo. Ou descobrir a beleza da poesia de Cruz e Sousa pela associação com Chagall.

Gosto de comparar a poesia de Cruz e Sousa com Chagall. O que este fez em seus quadros? Em alguns, como Eu e a aldeia, o princípio fundamental consiste na estruturação do quadro a partir de um ponto central. Há uma simultaneidade de motivos ajuntando lembranças, visões e fragmentos. Todos os elementos aparentemente díspares do quadro estão integrados de uma maneira associativa apontando para uma realidade existente para além do mundo visível. Todos os pormenores deste quadro são tirados da memória. Para Chagall, a arte parecia-lhe ser sobretudo um estado anímico. Sua obra costuma ser classificada como "Poesia" e, em seus quadros, tem-se uma visão poética que joga com a ambigüidade, com a imprecisão, com a memória, com a fantasia e são também "fórmulas de invocação a um mundo intacto, meios de fuga da dura realidade dos anos de guerra. "Com Chagall é que a metáfora consegue a sua entrada triunfal na pintura" declara Breton. 

Segundo o editorial “O Simbolismo no Brasil”, no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo,(25 nov. 1961) “o Simbolismo não foi, entre nós, senão um Parnasianismo musical, tanto mais que a sua sintaxe, na maioria dos casos, conservou-se tradicional e que o hermetismo seria, na poesia brasileira, a contribuição das gerações modernistas.” Se tais palavras poderiam ser aplicadas, talvez, aos poemas de Broquéis,  é muito inverídico em relação aos poemas de Faróis, verdadeiros quadros de obsessões em que se vai constatar a ausência de uma lírica do sentimento e da inspiração. Em Faróis, predomina o trabalho da arte sendo que a busca do insólito é dominante nos processos composicionais. Em Faróis, teremos verdadeiros anúncios dos quadros de Chagall.(1887-1985). Foi a poesia parnasiana a que mais se ligou à pintura, uma poesia descritiva, uma poesia-pintura que se esforçava por atingir a objetividade. No entanto a comparação que agora faço com a pintura não é nesse sentido mas com todo o surrealismo de Chagall que vamos encontrar também na poesia misteriosa, lunar e de sonho de Cruz e Sousa. Tal como Cruz, também Chagall pertenceu aos “à margem”. Judeu e pobre. Poeta, sonhador, extravagante — durante toda a sua vida, foi o papel do individualista e do artista introvertido que melhor se ajustava à sua pessoa. A sua obra, profundamente religiosa e ligada à sua terra natal, é porventura o mais penetrante apelo à tolerância e ao respeito, perante tudo que é diferente, que a arte moderna jamais produziu.[3] Também Cruz e Sousa, ser à margem deixou uma obra profundamente humana e, tal como o pintor, foi um apelo à tolerância racial, ao respeito e à aceitação da diferença.

Ao ler os versos : “Por que é que ficas à lua/ contemplativo, a vagar?/ Onde a tua noiva nua/ foi tão depressa a enterrar?” vários quadros de Chagall vêm-nos ao espírito. Este poema, “A Canção do bêbado”[4] ilustra bem essa analogia. Qual a relação entre o bêbado e a tua alma? Se lemos somente as imagens, teremos versos absolutamente antológicos: “Por onde andam teus gemidos,/ os teus noctâmbulos ais?” Assim como o verso “bendita a cova estreita/ mais larga que o mundo vão,/ que possa conter direita/ a noite do teu caixão!” Tais versos antecipam, prenunciam João Cabral de Melo Neto com Morte e vida severina. Toda a Canção do bêbado é uma seqüência de quadros como quase todos os poemas de Faróis. A partir do motivo de que “na noite triste” aquele bêbado ri”, o poeta vai tecendo analogias com a tristeza de um “Tu”. O leitor? o próprio poeta? O seu duplo? O tom dominante é o da dúvida traduzida pela interrogação “Quem se recorda de ti?”/ “Por onde andam teus gemidos, os teus noctâmbulos ais?” e ainda “por que é que ficas à lua/ contemplativo a vagar? Onde a tua noiva nua/ foi tão depressa a enterrar?” Das dez estrofes, quartetos, de redondilha maior, sete se terminam pelas interrogações: quem, por onde, por que, que, de onde... são as questões que o poema, logicamente não se propõe a responder. O eu poético, o eu lírico está imerso em dúvidas, que são quadros de sonho, mas todos trazendo uma funda infelicidade, uma dor latente, o “negro, soturno fel”... Existem momentos diferentes nesse poema que saem do tom soturno, como, por exemplo, “Que vês tu nessas jornadas? / Onde está o teu jardim/ e o teu palácio de fadas,/ meu sonâmbulo arlequim?” Existe um espírito de fantasia, um espírito de carnaval, de final de carnaval quando o vinho é um vinho triste prenunciando a morte. Todas as questões deste admirável poema levam-nos à temática da morte, do desaparecimento e consequente esquecimento. O inferno pode ser, para Cruz e Sousa, o esquecimento, um constante leit-motiv de sua poesia. Esse é um dos poemas noturnos de Cruz e Sousa em que temos a criação de um ambiente estranho, de mistério e quase alucinação. O tema da noite misteriosa e alucinante assim como o dos olhos representa um papel importante da poesia de Cruz. São esses poemas como “Os olhos”, “Litania dos pobres”, “Pressago”, todos de Faróis que trazem uma atmosfera onírica e surreal.

Por essas inovações, pelo que trouxe de mágico, de fantasia, Cruz e Sousa abriria novos caminhos para a poesia brasileira, muito embora tais caminhos não tenham sido bastante reconhecidos por seus contemporâneos ou pelos modernistas de 22. É verdade que Mário de Andrade, grande devedor do poeta simbolista, em notas marginais reconheceu esse impacto da poesia de Cruz e Sousa e foi o primeiro a associá-la às vanguardas européias, aos vários “ismos” tal como o dadaísmo, vendo nele um precursor desta corrente.[5] Mas isso ficou muito escondido e foi mais ou menos ignorado pela crítica.

No momento atual, faz-se uma revisão da posição de Cruz e Sousa que assume o seu verdadeiro lugar: o de um desbravador, o do iniciador de uma nova maneira de olhar a arte e, conseqüentemente, de escrever.

A coletânea Faróis sempre me pareceu superior a Broquéis pelos temas variados, pela quase ausência do soneto, o tom verdadeiramente simbolista e baudelairiano, lúgubre, a musicalidade wagneriana, orquestral. Nessa série, a atmosfera é noturna tal como em Evocações, dominando a “Noite criadora mãe dos gnomos e dos vampiros.” Em Faróis encontraremos temas marcantes da poesia de Cruz e Sousa como os ligados ao “rio” como “rio morto”, “rio do esquecimento” (Esquecimento; Pandemonium); “rios amarelos”; ao mar: “mar antigo”, “mar cego”, “mar amargo”; a símbolos da alquimia como “sol negro” à Nerval ( Pressago, Luar de lágrimas, Ébrios e cegos), além de versos até modernistas como no poema “Esquecimento”: “Esquecimento! eclipse de horas mortas, relógio mudo, incerto, casa vazia... de cerradas portas,/ grande vácuo, deserto.” Haverá maior acerto e beleza na imagem de uma “casa vazia de cerradas portas” para dizer da dor e do vazio do esquecimento? O inferno é o esquecimento e o medo não é o de esquecer mas de ser esquecido. 

É somente com os poemas de Faróis que o poeta se desvencilha totalmente das amarras parnasianas e escreve os mais belos poemas simbolistas de nossa língua. Em Faróis, assistimos uma verdadeira inflação de poemas longos, o quase desaparecimento do soneto com suas chaves de ouro e uma maior liberdade de associação imagética e capacidade de síntese. Faróis apresenta os poemas não só os mais expressivos, mas os mais expressionistas de Cruz e Sousa. É uma série tão importante que, ao ler os críticos, sempre nos surpreendeu o seu relativo esquecimento. Louvados são Broquéis e Últimos Sonetos, embora se fale sempre do parnasianismo latente nas duas coletâneas! Faróis  ficou um tanto olvidado.

 Já bem antes da publicação de Broquéis, em artigo crítico, em 1885, publicado no jornal Regeneração sobre o livro Musa Moderna[6] do escritor gaúcho Damasceno  Vieira, crítica não incluída na Obra Completa, organizada por Andrade Muricy, Cruz e Sousa, ainda na cidade de Desterro, assim falava do que seria um poeta em sua opinião: 

 "O poeta de hoje é o reformador, o inspirado, o revolucionário. Dizendo-se revolucionário, compreende-se que o poeta seja um artista inteiro, completo. Se a arte caminha ao lado das revoluções do espírito, não se admitirá por certo revolução sem arte."
A partir dessas idéias, pode-se ver quais as razões de querer imputar a Cruz e Sousa a iniciativa de nossa entrada na modernidade e na arte. A poesia de Cruz e Sousa aproxima-se do que Hugo Friedrich analisou na lírica do século XX quando afirmou que “a lírica européia do século XX não é de fácil acesso. Fala de maneira enigmática e obscura.” Ao leitor, tal obscuridade fascina, juntamente com a magia da palavra, o sentido de mistério, embora a compreensão permaneça desorientada. Tal como os quadros de Chagall, Cruz e Sousa criou atmosferas, sonho e fantasia. Produtor de signos literários foi um autor não enquadrável numa só corrente ou movimento literário, não podendo, pois, ser catalogado por um só nível de resposta de sua escritura.

Cruz e Sousa foi, avant la lettre, o verdadeiro poeta canibal, antecipando e muito Oswald de Andrade, os manifestos modernistas e as inquietações e estranhamentos da poesia do século XX. Leu, converteu, transformou diferenças e variedades, abrasileirou franceses, influenciou latino-americanos e continua até hoje a nos surpreender. Assimilou o que quis dos poetas que leu, deglutiu-os e vomitou-os em poemas fantásticos revirginados de seus precursores, reencontrando toda uma família de espíritos, uma verdadeira confraria, a dos criadores de fantasia! Foi um verdadeiro poeta moderno com todas as conotações da palavra em cada época. Como Baudelaire, na França, Cruz e Sousa, no Brasil, foi o introdutor da modernidade. 

Por isso, não é surpreendente a leitura que Sylvio Bach fez da poesia de Cruz e Sousa em seu último filme Cruz e Sousa o poeta do desterro. Pura poesia, o filme soube juntar dois poetas: as palavras do negro Cruz , a estética do branquíssimo Sylvio. O filme foi construído em cima da vida de Cruz e Sousa mas essa vida é somente um leit-motiv para  o verdadeiro tema do filme que é a obra. Para o amante da poesia de Cruz e Sousa, o filme é puro deleite. Lá estão cartas de Cruz e Sousa a Gavita, de amigos do poeta, textos de prosa poética e os maravilhosos poemas de Faróis, os belíssimos: Inexorável, Ressurreição, Violões que choram, Pressago, A flor do diabo, Litania dos pobres. O filme é expressionista tal como a poesia de Cruz e Sousa. Por tudo isso, julgo que é válido explorar a sua poesia comparando-a com Chagall a quem nunca conheceu mas de quem, na poesia, foi, pode-se imaginar, um precursor.



[1] BORGES, J. L. Otras inquisiciones. Obras Completas. Buenos Aires: Emecé Editores, 1980, p. 710-2.
[2] “NESTROVSKI, Arthur. Influência. In JOBIM, José Luís. Palavras da crítica.  Rio de Janeiro: Imago, 1992, p.213-230.
[3] WALTHER, Ingo F. / METZGER, Rainer. Marc Chagall 1887-1985 - Poesia em quadros. Alemanha: Taschen, 1994, p. 7.
[4] Faróis.
[5] MUZART, Zahidé L. Um poeta do século XX. Ô Catarina! .Florianópolis, FCC, n.25, set/out 1997.
[6] A musa moderna. In: Travessia, n. 26, Florianópolis, 1993, p.225-229.





Zahidé Lupinacci Muzart - Doutora em Letras pela Universidade de Letras e Ciências Humanas de Toulouse, França, em 1970. Professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina, continua trabalhando no curso de Mestrado e Doutorado em Literatura da mesma universidade. Editora da revista de literatura, Travessia, da UFSC, de 1980. a 1993. Dentre os números organizados sobre estudos sobre mulher e literatura, destacam-se os números 14, Clarice Lispector, 21, Mulher e Literatura e 23, Escritoras do século XIX. Organizou inúmeras exposições literárias em Florianópolis na UFSC, no Museu Cruz e Sousa e na Biblioteca Pública tais como A mulher na literatura catarinense, Dez anos sem Lausimar Laus, Machado de Assis, Cruz e Sousa, Periódicos antigos, entre outras. Foi coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Literatura Brasileira, por duas vezes. Pesquisadora do CNPq, coordena projeto integrado sobre as escritoras brasileiras do século XIX. Coordenou o primeiro evento intitulado Fazendo gênero, na UFSC, em 1994 que se vem realizando desde então. Publicou os livros Cartas de Cruz e Sousa e Cruz e Sousa, Poesia Completa (Pesquisa de inéditos e organização), Tempo e andanças de Harry Laus (org.); Escritoras brasileiras do século XIX. 
 
 
Zahidé é uma das criadoras  da Editora Mulheres: 
 
"O objetivo principal da Editora Mulheres, em seu projeto inicial, é o resgate de obras de escritoras do passado, do século XVII às décadas iniciais do século XX. Esta recuperação da literatura feita por mulheres, trabalho já há muito iniciado em países como França e Estados Unidos, busca fazer circular uma importante parte da produção da mulher brasileira do século XIX e assim contribuir para (re)escrever a história da literatura no Brasil."
 
http://www.editoramulheres.com.br/


Tela: Marc Chagall (1887 – 1985): Eu e a Aldeia/Óleo sobre tela: 191 x 150,5 cm/Nova Iorque, Metropolitan Museum of Modern Art