quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

CRUZ E SOUSA - O POETA DO DESTERRO: Fortuna crítica

 



CRUZ E SOUSA - O POETA DO DESTERRO

Filme de Sylvio Back



Fortuna crítica

"Como um branco, o branco mais branco que conheço, conseguiu fazer esse filme que vai tão fundo na dissecação da alma negra?" – Ruth de Souza ("O Estado  de S.Paulo).

"É, realmente, seu melhor filme, um dos mais belos do cinema bra­sileiro recente." – Luiz Carlos Merten ("O Estado de S.Paulo").

"Talvez a principal virtude de Back seja não facilitar a vida do es­pectador..." – Inácio Araujo ("Folha de S.Paulo").

“Visualmente rebuscado, graças à fotografia de Antonio Luiz Mendes, este mergulho na vida do poeta João da Cruz e Sousa, oferece ao espectador uma delicada aula sobre o simbolismo. Um dos melhores trabalhos de Back, o longa foi editado por Francisco Sérgio Moreira, um dos mais criativos montadores do país.” – Rodrigo Fonseca (“O Globo”).

"É um filme de autoria, quase radical." – Paulo Camargo ("Gazeta do Povo", Curitiba, PR).

"O diretor Sylvio Back optou pela fusão de elementos biográficos com a contínua leitura dramática de textos, criando talvez um gênero novo de cinema entre nós, apto a satisfazer as ânsias moderadas de ficção e de documentário." – Ivan Teixeira ("Folha de S.Paulo").

"Seu filme é ótimo, inovador na linguagem e absolutamente arreba­tador. Eu adorei." – João Sampaio ("A Tarde", @, Salvador/Bahia)

"O filme me tocou muito; acho que essa vontade de ir fundo na obra de Cruz e Sousa não é só artística; é uma coisa política, também, e eu acho que essa paixão falta no Brasil." – Zezé Motta ("O Estado de S.Paulo").

"O filme de Sylvio Back atualiza a questão negra." – Anelito de Oli­veira ("Suplemento Literário de Minas Gerais"/MG)

Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro é Sylvio Back com as veias abertas e o coração entregue." – Chuchi Silva ( "Diário Catarinense", Florianópolis/SC).

"Suas falas, simultaneamente teatrais, poéticas e cinematográficas, arrebatam os espectadores. Back usa o cinema como pretexto para demonstrar a habilidade em metaformosear­se em vários suportes distintos. É um cinema que agride pelo lirismo, dá porrada pela poe­sia."  Alécio Cunha ("Hoje em Dia", Belo Horizonte/MG).

"Um exercício de sensibilidade poética." – Luiz Zanin Oricchio ("O Estado de S.Paulo").

"Acho um filme admirável." – Alexei Bueno ("Jornal do Brasil").

"Um dos grandes méritos do filme de Back é apontar de maneira comovente a luta de Cruz e Sousa contra a exclusão e o racismo e, ao mesmo tempo, reverenciar a cultura afro­brasileira através de rituais de candomblé, canto iorubá e o apoteótico final com uma escola de samba." – Carla Dórea Bartz ("Sinopse Revista de Cinema", São Paulo).

"... uma exigente e personalíssima visão do poeta simbolista João da Cruz e Sousa." – Orlando Margarido ("Gazeta Mercantil", São Paulo).

"... uma fita essencialmente poética ­ em sua recusa dos paradigmas narrativos clássicos (negando a coerência em prol da emoção), em seu roteiro fragmentado, em sua encenação que não evita alegorias e metáforas visuais." – Marco Antonio Barbosa ("Tribuna de Im­prensa", Rio de Janeiro).

"Cruz e Sousa ­ O Poeta do Desterro" é um filme que vai emocionar o público." – Sandra Almada ("Raça", São Paulo/SP)

"O filme de Sylvio Back mostra isso: apesar do horror, o coração do homem ainda teima em sonhar e ser feliz." – Zeca Corrêa Leite ("Fo­lha do Paraná", Londrina/PR).

"Libelo contra a discriminação racial, mas essencialmente uma me­táfora sobre a tragédia do poeta e da poesia, o filme está impregnado de erotismo latente, por vezes explícito, da obra de Cruz e Sousa, traduzido por uma fotografia que extrai o máximo da plasticidade de corpos se contorcendo em pulsação ora vital, ora agônica." – Régis Gonçalves ("O Tempo", Belo Horizonte/MG).

"Back continua ousado." – Eduardo Souza Lima ("O Globo").

"Cruz e Sousa é o visionário de uma realidade particularizada e Back, através do seu filme, torna essa particularidade do poeta ainda mais excêntrica e maravilhosa quando enfeixa no seu trabalho textos autobiográficos que remetem diretamente à experiência de vida de um dos mais extraordinários poetas da língua portuguesa de todos os tempos." – Uelinton Farias Alves (Suplemento Literário de Minas Gerais/MG). ­

"… you've made a film that levitates in the pure poetry of your director's eye! You, too, are going to deixar nome! – Steven White (@, poeta e tra­dutor norte­americano).

Cruz e Sousa, de Sylvio Back é um filme luminoso." – Sérgio da Costa Ramos ("Diário Catarinense", Florianópolis/SC).

"Quando Back apresentar seu filme e os atores descobrirem a névoa que oculta a poesia de Cruz, a platéia vai aplaudir de pé a obra dos dois poetas" – Zeca Pires ("Ô Catarina", Florianópolis, SC).

"Sylvio Back, ele mesmo um poeta militante, procura dar ao embate cromático entre o claro e o escuro uma dinâmica que não se limita à denúncia do racismo ou do preconceito intelectual da elite branco a um escritor negro." – Ricardo Cota ( "Jornal do Brasil").

"Um passo de Armstrong foi dado nesse sentido pelo cineasta Sylvio Back em sua "revisão" cinematográfica de Cruz e Sousa, cujo script se fundamenta em trechos da obra do poeta. À falta de TV, viva o ci­nema!" – Ivo Barroso ("Palavra", Belo Horizonte/MG).

"O seu filme é um poema de alta voltagem. Estou ainda emocionado e perturbado e apaixonado e embriagado e menos burro e menos monstruoso." – Douglas Diegues (@, poeta, Ponta Porã/MS).

"O filme é uma aula de beleza. Em geral os excluídos são incorpora­dos na nossa historiografia oficial também para serem atenuados. Nesse sentido, gostaria de reforçar que Cruz e Sousa é um filme ne­cessário. O filme inclui a voz do poeta na atualidade." – Ivone Daré Rabello ("Folha de S. Paulo").

“Inventor apasionado, el cineasta Sylvio Back apuesta a la sensuali­dad: la de las palabras y las imágenes, en primer lugar, pero también la de los cuerpos y los rostros, las miradas y los gestos, las posturas y los movimientos. El arte de Back – su mérito mayúsculo – está en su manera heterodoxa y resplandeciente de crear una erótica cinemato­gráfica a partir de una poética literária.” – XIX Festival Cinemato­gráfico del Uruguay.

"No filme há um discurso articulado em torno da impossibilidade de crescimento e de projeção do artista em uma sociedade intolerante e arcaica. O que interessa a Back é esta luta (interna e externa) travada pelo artista para impor­se. Neste sentido, Cruz e Sousa é quase um diálogo a portas fechadas entre o poeta e o cineasta." –
Luis Alberto Rocha Melo (P@anorâmica).

"Fiquei impressionadíssimo com o roteiro. Coisa de louco, siô! um filme que não tem "história" no sentido convencional do termo, mas que vai seguindo toda a lógica da construção dramatúrgica e tem clima e a gente chora no momento que precisa chorar e fica feliz (aquela felicidade possível) no final! Demais demais. – Carlos Ro­ berto de Souza (@, diretor da Cinemateca Brasileira, São Paulo.

“Cara, o filme é belíssimo! A trilha é demais! E esses energúmenos
falando de historietas americanóides... Você é extremamente cora­joso e, acima de tudo, leal com você mesmo.” – Tanussi Cardoso (@, poeta, Rio de Janeiro).

“Ao tratar de um excluído, o poeta João da Cruz e Sousa, maior po­eta negro da língua portuguesa, ele não apenas atualiza o discurso de Cruz, trazendo­o para o Brasil de hoje, Oferece, na prática um filme sobre o exílio, difícil, às vezes mal interpretado, mas cheio de lirismo – Back na vida real.” ­ Almir Feijó (em “Descríticas”, Edição do Au­tor, Curitiba/PR).

“... no Filme, assim mesmo, com maiúscula, Cruz e Souza - O Poeta do Desterro, de Sylvio Back, que alia a imagem visual à poesia de uma maneira audaciosa e provocadora.” – Alda Maria Quadros do Couto (“Folha do Povo”, Campo Grande/MS).

“Pura poesia, o filme soube juntar dois poetas: as palavras do negro Cruz, a estética do branquíssimo Sylvio. (...) Para o amante da poesia de Cruz e Sousa, o filme é puro deleite. (...) O filme é expressionista tal como a poesia de Cruz e Sousa. A leitura de Sylvio Back coloca-­o como precursor.” – Zahidé Lupinacci Muzart (introdução ao livro “Broquéis”, de Cruz e Sousa (Editora L&PM, Porto Alegre/RS).

“Dono de extensa obra cinematográfica, o diretor Sylvio Back chega ao ponto mais alto de sua estética com Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro, película que revela o drama existencial do maior poeta negro da língua portuguesa.” – Carlos Adriano (Suplemento Literário de Minas Gerais/MG). ­­­



Foto: Lúcio Giovanella.


Fotos do filme Cruz e Sousa: O Poeta do Desterro de Sylvio Back








































1- Kadu Carneiro e Maria Ceiça
2- Jaqueline Valdívia e Kadu Carneiro
3-  Léa Garcia e Kadu Carneiro
4- Danielle Ornelas

Fotos: Lúcio Giovanella
 
  
CRUZ E SOUSA
- O POETA DO DESTERRO (1999)



Sinopse


Biografia do poeta brasileiro, filho de escravos, João da Cruz e  Sousa (1861-1898), fundador do Simbolismo no Brasil e considerado o maior poeta negro da língua portuguesa. Através de 34 "estrofes visuais", o filme rastreia desde as arrebatadoras paixões do poeta em Florianópolis (SC) ao seu emparedamento social, racial e intelectual e trágico fim no Rio de Janeiro.


Elenco


Kadu Carneiro, Maria Ceiça, Léa Garcia, Danielle Ornelas, Jaqueline Valdívia, Guilherme Weber, Luigi Cutolo, Carol Xavier, Marcelo Perna, Ricardo Bussy, Jacques Bassetti, Marco Aurélio Borges, Cora Araújo Oestroem, Julie Philippe dos Santos, João Pinheiro.

Ficha Técnica


(35mm., 86 min. cor, Dolby SR)

Roteiro e direção: Sylvio Back
Diretor de fotografia: Antonio Luiz Mendes.
Direção de arte: Rodrigo de Haro
Cenografia: Idésio Leal
Figurinos: Lou Hamad
Som direto: Silvio Da-Rin
Direção musical: Silvia Beraldo
Montagem e edição: Francisco Sérgio Moreira
Direção de produção: César Cavalcanti
Produtores executivos:
Sylvio Back/Margit Richter
Produção: Usina de Kyno
Direção: Sylvio Back
Premiação


Prêmio "Glauber Rocha"
(“Melhor filme dos três continentes – Ásia, África e América
Latina)" e "Menção honrosa" pela "pesquisa de linguagem"
da crítica internacional – 29º Festival Internacional de
Cinema de Figueira da Foz (Portugal, 2000);
Nominação para a categoria de “Melhor Fotografia”
(Antonio Luiz Mendes)
Grande Prêmio do Cinema Brasileiro – 2000.


Crítica


É, realmente, seu melhor filme, um dos mais belos do cinema brasileiro recente.
Luiz Carlos Merten ("O Estado de S.Paulo").

Suas falas, simultaneamente teatrais, poéticas e cinematográficas, arrebatam os espectadores. Back usa o cinema como pretexto para demonstrar a habilidade em metaformosear-se em vários suportes distintos. É um cinema que agride pelo lirismo, dá porrada pela poesia. 
Alécio Cunha ("Hoje em Dia", Belo Horizonte/MG).

Acho um filme admirável.
Alexei Bueno ("Jornal do Brasil").



Foto: Lúcio Giovanella
Atriz: Maria Ceiça

Cruz e Sousa: Selo Preto por Sylvio Back

 




 
Selo Preto
Sylvio Back




O poeta João da Cruz e Sousa é um estigma literalmente escuso da literatura brasileira. Por ser uma exceção na então sociedade escravocrata do século XIX, sua soberba negritude acabou por matá-lo aos 36 anos. Uma "igualdade" demais.

O preto no branco, preto-e-branco. Desde o início ele soube, como se uma película de nitrato fora, que seria "incendiado". E não incensado – simbólico expediente comum na alvorada do cinema (que lhe foi vizinha), quando as salas eram perfumadas durante a exibição de filmes místicos e religiosos. Como o personagem de “Tempo de Guerra” (Les Carabiniers, 1963), de Jean-Luc Godard, Cruz e Sousa tentava abarcar a tela, entrar na cena, assumir a luz bruxuleante da ilusão.

Inutilmente. Sua ambição e obra ficaram na penumbra do mainstream da poesia do seu tempo. Como o então "bizarro" cinematógrafo, o "Assinalado" ("... A Terra é sempre a tua negra algema...") sobreviveu à madrastice dos contemporâneos. Antes de vitimá-lo, a posteridade reservou-lhe o portal da glória.

Ora fragmentariamente biografado, ora alvo de pura hagiografia, sua trajetória em Nossa Senhora do Desterro (nome original de Florianópolis (SC) – do nascimento em 1861 à sua vivência e morte no Rio de Janeiro entre 1890 e 1898), assemelha-se a um filme velado. Sobram vácuos estéticos e morais, além de contornos anímicos e existenciais que mais confundem do que decifram. Mesmo que se queira desideologizar o poeta, desenraizá-lo d'África ou despaisá-lo do Sul do Brasil, aproximar-se dele através de sua órfica e lunar poesia será sempre uma metáfora sobre a tragédia que é ser preto no Brasil – em todos os tempos.

Um negro de "alma branca" – segundo o torpe perfil que a lenda chancelou? Um preto apaixonado por loiras germânicas, flertando com um vocabulário, digamos, valquiriano, e cuja poesia tem induzido críticos a disfarçadamente até "nazificá-lo" avant la lettre (ao ponto de, como Roger Bastide, contar os fonemas que "trairiam" sua etnia)? ou "o negro que não conhecia seu lugar", um "preto estrangeiro" (na expressão do amigo e testamenteiro Nestor Vítor)?

Quem sabe, o fascínio do personagem resida justamente nessas brutais contradições que lhe assolavam o íntimo cosmopolita de preto circulante naquela quadra onde um ódio latente e explícito aos seus continuava incólume. Quem sabe, repito, Roger Bastide, tachou-o de racista com o ciclópico poema, “Marche aux flambeaux” sob os olhos. Ali, Cruz Sousa faz inacreditável e raivosa fé antissemita em versos de arrepiar (“... Ó ventrudos judeus, opíparos obesos,/De consciência obtusa, ignóbi e caolha/Que no mundo passais grotescamente tesos...”).

Da mesma forma que, em carta enaltecedora ao escritor catarinense Virgílio Várzea, o poeta comunga do Weltanschauung recorrente da época, de suposta comprovação científica da superioridade racial dos brancos, negando a própria natureza e atávico vínculo com suas raízes africanas: “... para mim, pobre artista ariano, sim, porque adquiri, por adoção sistemática, as qualidades altas dessa grande raça...”

Então um negro culto e abusado, sempre elegante e galante, na busca por um auto-embranquecimento como atalho para ascender, fugir da casta (talvez espelhando no seu igual-desigual Machado de Assis – um "mulato à inglesa", como se dizia num tempo em que ninguém queria ser preto ou cafuso)? Ou o horror letal do crioulo gênio crente que basta o talento para ser reconhecido – sem desconfiar que para além do racismo mais vil germina o cancro da inveja.

Nem a desgraça cotidiana notória e a morte de Cruz e Sousa redimiram os seus algozes das redações, dos suplementos literários, das editoras, da repartição pública, das rodinhas e tertúlias literárias. Nem o negro bem-sucedido, o jornalista e escritor, José do Patrocínio, de olho na história ao pagar seu enterro, inconscientemente sobre o caixão deitou em forma de coroa o alívio e o escárnio de toda uma geração. A pessoalmente ciclópica obra de Cruz e Sousa, única em toda a língua portuguesa, é a maior vingança.

Cruz e Sousa é o vagão de gado, o cadáver tísico, batom de sangue fresco nos lábios – ao colo grávido da amada Gavita, a "preta doida" do Encantado. 

Cruz e Sousa é o andor que alegre carrega as paixões pela atrizinha branca Julieta dos Santos e pela adolescente Pedra Antióquia, negra "... deidade linda..." – sua noiva-donzela por oito anos.

Cruz e Sousa é o tantã da musa atávica "... Vozes veladas, veludosas vozes/Volúpias dos violões.../... Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas".

Cruz e Sousa é a sombra chinesa que passa incógnita pela sofisticada rua do Ouvidor, empobrecido, adoecido e tão "enegrecido" quanto todos os exilados pela cor.

Cruz e Sousa é o seu próprio rio "... amargamente sepulcral, lutuoso, amargamente rio" – nele suicidando-se em sonhos de grandeza literária e nobreza social.

Cruz e Sousa é a fome de Gavita e dos filhos, "... indigência terrível, sem vintém para remédios, para leite, para nada...", que ele inerme assiste de umpalco mambembe.

Cruz e Sousa é a solitária vela acesa no altar – encimado com sua última foto – onde os parcos e fiéis simbolistas lhe "rezam" os poemas em uníssono.

Cruz e Sousa é a pomba-gira que baixou à revelia no terreiro da poesia brasileira, desossando-a de toda e qualquer possibilidade de um duplo.

Cruz e Sousa é o excitado Eros ("... Carnais, sejam carnais tantos desejos...") a banhar-se nas areias desérticas da lagoa da Conceição, em Nossa Senhora do Desterro.

Cruz e Sousa é o voyeur impertinente da vaziez provinciana que o expele como depois a ex-corte o Cruz e Sousa é a abolição das senzalas, das tribunas e guerrilhas literárias, "... escravocratas eu quero castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!"

Cruz e Sousa é o "emparedado", – a atroz rejeição e desqualificação, inclusive, entre os seus, para quem sempre foi "branco demais".

Cruz e Sousa é a efígie fantasma do olhar ebúrneo que durante décadas congelou no cemitério São Francisco Xavier do Rio de Janeiro.

Cruz e Sousa é hoje poeira que levita pelas esquinas da Ilha de Santa Catarina, o dedo em riste, exigindo reconhecimento e visibilidade antes de ser, mais uma vez, desterrado.

Sylvio Back, cineasta, poeta, roteirista e escritor. Diretor do docudrama, “Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro” (1999). É autor de 37 filmes de curta, média e longa-metragem (11), publicou 21 livros (poesia, roteiros, contos e ensaios). Prepara o lançamento nacional de “O Contestado – Restos Mortais”.



 Foto: Lúcio Giovanella
Ator: Kadu Carneiro

domingo, 4 de dezembro de 2011










 

Ácaros e Culpas
 Rita Santana



Eu descobri entre ácaros e culpas
Que não sorrio há muitos rios e embarcações.
O meu nome ficou entre o limo das pedras
E você seguiu sem mim em diáspora sem par.
Cavando velhos fósseis entre as lembranças
Dos remorsos que carcomem a seiva dos sobreviventes.
Deixando a herança inflada dos cansanções
E a ira das ressacas deixadas pelos olhos de Capitu.

Você seguiu mascando urtigas no meu velório.

E eu, como esta máquina de datilografia,
Estou entregue, há anos, ao desamor
Das coisas apropriadas ao Abandono.

O meu sol consolo não tem!
Nem manchas vermelhas sobre a pele,
Nem resfriamentos no inverno da carne,
Nem meras subjetividades de palavras vazias.




Do livro Alforrias 
Foto: Rita Santana

sábado, 26 de novembro de 2011





O EMPAREDADO
 Cruz e Souza




"( .... ) Eu não pertenço à velha árvore genealógica das intelectualidades medidas, dos produtos anêmicos dos meios lutulentos, espécies exóticas de altas e curiosas girafas verdes e spleenéticas de algum maravilhoso e babilônico jardim de lendas... Num impulso sonâmbulo para fora do círculo sistemático das Fórmulas preestabelecidas, deixei-me pairar, em espiritual essência, em brilhos intangíveis, através dos nevados, gelados e peregrinos caminhos da Via Láctea...

E é por isso que eu ouço, no adormecimento de certas horas, nas moles quebreiras de vagos torpores enervantes, na bruma
crepuscular de certas melancolias, na contemplatividade mental de certos poentes agonizantes, uma voz ignota, que parece vir do fundo da Imaginação ou do fundo mucilaginoso do Mar ou dos mistérios da Noite - talvez acordes da grande Lira noturna do Inferno e das harpas remotas de velhos céus esquecidos, murmurar-me:

"Tu és dos de Cam, maldito, réprobo, anatematizado! Falas em Abstrações, em Formas, em Espiritualidade, em Requintes, em Sonhos! Como se tu fosses das raças de ouro e da aurora, se viesses dos arianos, depurado por todas as civilizações, célula por célula, tecido por tecido, cristalizado o teu ser num verdadeiro cadinho de idéias, de sentimentos - direito, perfeito, das perfeições oficiais dos meios convencionalmente ilustres! Como se viesses do Oriente, rei! Em galeras, dentre opulências, ou tivesses a aventura magna de ficar perdido em Tebas, desoladamente cismando através de ruínas; ou a iriada, peregrina e fidalga fantasia dos Medievos, ou a lenda colorida e bizarra por haveres adormecido e sonhado, sob o ritmo claro dos Astros, junto às priscas margens venerandas do Mar Vermelho!

Artista! Pode lá isso ser se tu és d'África, tórrida e bárbara, devorada insaciavelmente pelo deserto, tumultuada de matas
bravias, arrastada sangrando no lodo das Civilizações despóticas, torvamente amamentada com o leite amargo e venenoso da Angústia! A África arrebatada nos ciclones torvelinhantes das Impiedades supremas, das Blasfêmias absolutas, gemendo, rugindo, bramando no caos feroz, hórrido, das profundas selvas brutas, a sua formidável dilaceração humana! A África laocoôntica, alma de trevas e de chamas, fecundada no Sol e na Noite, errantemente tempestuosa como a alma espiritualizada e tantálica da Rússia, gerada no Degredo e na Neve - pólo branco e pólo negro de Deus!

- Artista?! Loucura! Loucura! Pode lá isso ser se tu vens dessa longínqua região desolada, lá do fundo exótico dessa África sugestiva, gemente, Criação dolorosa e sanguinolenta de Satãs rebelados, dessa flagelada África grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa de gemidos, tetricamente fulminada pelo banzo mortal; dessa África dos Suplícios, sobre cuja cabeça nirvanizada pelo desprezo do mundo Deus arrojou toda a peste letal e tenebrosa das maldições eternas!

A Africa virgem, inviolada no Sentimento, avalanche humana amassada com argilas funestas e secretas para fundir a Epopéia suprema da Dor do Futuro, para fecundar talvez os grandes tercetos tremendos de algum e novo majestoso Dante
negro! Dessa África que parece gerada para os divinos cinzéis das colossais e prodigiosas esculturas, para as largas e fantásticas Inspirações convulsas de Doré - inspirações inflamadas, soberbas, choradas, soluçadas,bebidas nos Infernos e nos Céus profundos do Sentimento humano. Dessa África cheia de solidões maravilhosas, de virgindades animais
instintivas, de curiosos fenômenos de esquisita Originalidade, de espasmos de Desespero, gigantescamente medonha, absurdamente ululante - pesadelo de sombras macabras - visão valpurgiana de terríveis e convulsos soluços noturnos circulando na Terra e formando, com as seculares, despedaçadas agonias da sua alma renegada, uma auréola sinistra, de lágrimas e sangue, toda em torno da Terra...

Não! Não! Não! Não transporás os pórticos milenários da vasta edificação do mundo, porque atrás de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram acumulando, pedra sobre pedra, pedra sobre pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça. Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás, ansioso, aflito, numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos e Preconceitos! Se caminhares para a esquerda, outra parede, de Ciências e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará profundamente no espanto! Se caminhares para a frente, ainda nova parede, feita de Despeitos e Impotências, tremenda, de granito, broncamente se elevará ao alto! Se caminhares, enfim, para trás, ah! ainda, uma derradeira parede, fechando tudo, fechando tudo ~ horrível - parede de Imbecilidade e Ignorância, te deixará num frio espasmo de terror absoluto...

E, mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras... Pedras destas odiosas, caricatas e fatigantes Civilizações e Sociedades... Mais pedras, mais pedras! E as estranhas paredes hão de subir longas, negras, terríficas! Hão de subir, subir, subir, mudas, silenciosas, até as Estrelas, deixando-te para sempre perdidamente alucinado e emparedado dentro do teu Sonho..."

ln: Obras. São Paulo, Edições Cultura, 1943. 
http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/o%20emparedado%20-%20Cruz%20e%20Souza.pdf



sexta-feira, 25 de novembro de 2011

  







VIOLÕES QUE CHORAM...
Cruz e Souza
(jan. I897)
 


24
Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.


Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações a luz da lua,
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos Nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas magoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho
Almas que se abismaram no mistério.

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,
Finas, diluídas, vaporosas brumas,
Longo desolamento dos inquietos
Navios a vagar a flor de espumas.

25
Oh! languidez, languidez infinita,
Nebulosas de sons e de queixumes,
Vibrado coração de ânsia esquisita
E de gritos felinos de ciúmes!

Que encantos acres nos vadios rotos
Quando em toscos violões, por lentas horas,
Vibram, com a graça virgem dos garotos,
Um concerto de lágrimas sonoras!

Quando uma voz, em trêmulos, incerta,
Palpitando no espaço, ondula, ondeia,
E o canto sobe para a flor deserta
Soturna e singular da lua cheia.

Quando as estrelas mágicas florescem,
E no silêncio astral da Imensidade
Por lagos encantados adormecem
As pálidas ninféias da Saudade!

Como me embala toda essa pungência,
Essas lacerações como me embalam,
Como abrem asas brancas de clemência
As harmonias dos Violões que falam!

Que graça ideal, amargamente triste,
Nos lânguidos bordões plangendo passa...
Quanta melancolia de anjo existe
Nas visões melodiosas dessa graça.

Que céu, que inferno, que profundo inferno,
Que ouros, que azuis, que lágrimas, que risos,
Quanto magoado sentimento eterno
Nesses ritmos trêmulos e indecisos...

Que anelos sexuais de monjas belas
Nas ciliciadas carnes tentadoras,
Vagando no recôndito das celas,
Por entre as ânsias dilaceradoras...

Quanta plebéia castidade obscura
Vegetando e morrendo sobre a lama,
Proliferando sobre a lama impura,
Como em perpétuos turbilhões de chama.

Que procissão sinistra de caveiras,
De espectros, pelas sombras mortas, mudas.
Que montanhas de dor, que cordilheiras
De agonias aspérrimas e agudas.

26
Véus neblinosos, longos véus de viúvas
Enclausuradas nos ferais desterros
Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,
Sob abóbadas lúgubres de enterros;

Velhinhas quedas e velhinhos quedos
Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos
Sepulcros vivos de senis segredos,
Eternamente a caminhar sozinhos;

E na expressão de quem se vai sorrindo,
Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos
E um lenço preto o queixo comprimindo,
Passam todos os lívidos defuntos...

E como que há histéricos espasmos
na mão que esses violões agita, largos...
E o som sombrio é feito de sarcasmos
E de Sonambulismos e letargos.

Fantasmas de galés de anos profundos
Na prisão celular atormentados,
Sentindo nos violões os velhos mundos
Da lembrança fiel de áureos passados;

Meigos perfis de tísicos dolentes
Que eu vi dentre os vilões errar gemendo,
Prostituídos de outrora, nas serpentes
Dos vícios infernais desfalecendo;

Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,
Das luas tardas sob o beijo níveo,
Para os enterros dos seus sonhos mortos
Nas queixas dos violões buscando alivio;

Corpos frágeis, quebrados, doloridos,
Frouxos, dormentes, adormidos, langues
Na degenerescência dos vencidos
De toda a geração, todos os sangues;

Marinheiros que o mar tornou mais fortes,
Como que feitos de um poder extremo
Para vencer a convulsão das mortes,
Dos temporais o temporal supremo;

Veteranos de todas as campanhas,
Enrugados por fundas cicatrizes,
Procuram nos violões horas estranhas,
Vagos aromas, cândidos, felizes.

27

Ébrios antigos, vagabundos velhos,
Torvos despojos da miséria humana,
Têm nos violões secretos Evangelhos,
Toda a Bíblia fatal da dor insana.

Enxovalhados, tábidos palhaços
De carapuças, máscaras e gestos
Lentos e lassos, lúbricos, devassos,
Lembrando a florescência dos incestos;
 
Todas as ironias suspirantes
Que ondulam no ridículo das vidas,
Caricaturas tétricas e errantes
Dos malditos, dos réus, dos suicidas;

Toda essa labiríntica nevrose
Das virgens nos românticos enleios;
Os ocasos do Amor, toda a clorose
Que ocultamente lhes lacera os seios;

Toda a mórbida música plebéia
De requebros de faunos e ondas lascivas;
A langue, mole e morna melopéia
Das valsas alanceadas, convulsivas;

Tudo isso, num grotesco desconforme,
Em ais de dor, em contorsões de açoites,
Revive nos violões, acorda e dorme
Através do luar das meias noites!




http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00079a.pdf



Cruz e Souza - O Poeta do Desterro, de Sylvio Back | SESCTV

João da Cruz e Sousa - De Lá Pra Cá - 16/10/2011

Cruz e Sousa nasce em 24 de novembro de 1861: 150 anos do Poeta










SATANISMO
 Cruz e Sousa


Não me olhes assim, branca Arethusa,
Peregrina inspiração dos meus cantares;
Não me deixes a razão vagar confusa
Ao relâmpago ideal de teus olhares.

Não me olhes, oh! não, porquanto eu penso
Envolvido no luar das minhas cismas,
Que o olhar que me dardejas — doido, imenso
Tem a rápida explosão dos aneurismas.

Não me olhes. Oh! não, que o próprio inferno
Problemático, fatal, cálido, eterno,
Nos teus olhos, mulher, se foi cravar!...

Não me olhes, oh! não, que m'entolece
Tanta luz, tanto sol — e até parece
Que tens músicas cruéis dentro do olhar!...




Foto: Rita Santana



terça-feira, 22 de novembro de 2011

LANÇAMENTO DO LIVRO O PÉRIPLO DE JUDITH GROSSMANN

Poetas construindo pontes: África - Bahia







 Poema de Lívia Natália



                                   Para minhas irmãs negras
 
                        
Este cabelo que lhe vai liso sobre a carapinha,
é o simulacro infeliz do que não és.

(Ao vestir-se com a pele do inimigo
o que de ti silencia e se perde?
Quantos animais conheces
que assim o fazem senão para reagir?)

Este cabelo pesa desfeito sobre sua carapinha.
Veste-a como um manto impuro
abafando o preto caracolado
sobresi dobrado:
filosófico.

Os fios se endurecem como cavalos açoitados,
e bradam da morbidez desta couraça
que te mascara branca.

Este cabelo requeimado e grotesco
sepulta o que em ti há de mais belo.
A dobra também é uma forma
de Ser.
 




 
Oração
Se um dia deste meu ventre

brotarem árvores-filhos
que sejam fortes como os livros
a que tanto amo.

Que eu possa morar
nas dobras de suas páginas
e me escrever nas suas margens,
(como num rio)
que eu mergulhe em suas sendas minúsculas,
como nas entranhas das palavras.

Que meus filhos me amem,
como meus livros
e que não fiquem apriosionados
nas minhas estantes!

Que mais que páginas
tenham pés e asas,
que voem brutos
desenhando sombras nos céus.

Que meus filhos possam olhar meus retratos
e que possam ver,
para além da beleza possível,
os olhos da mãe improvável.

Que deste ventre nasçam
mais que filhos-palavras,
corpos carne e sangue
donos de minha mais profunda
e ineludível substância.