domingo, 21 de novembro de 2010

Fotos: O Jardim das Folhas Sagradas

 Antônio Godi concentrado no Parque de São Bartolomeu.



Atrizes na coreografia do lenço: o sol regia a dança. Mariene de Casttro, Auristela Sá e Valdinéia Soriano. Adorei fotografar a cena.



Marise Berta (em visita à locação) e a minha personagem Eugênia. 


 Sérgio Guedes e eu. Locação da casa de nossos personagens.


 Sérgio Guedes e eu.


 Elenco no parque de São Bartolomeu.


 Auristela Sá, Valdinéia Soriano, Sérgio Guedes, eu, Mariene de Castro e Leno Sacramento.





Poema do Tratado das Veias




                                  Confissão
                                         "Eu não creio em sonhos"
                                                                     (José de Anchieta)


 Rita Santana




Eu creio em sonhos, Padre.
Rezo o Credo olhando pras telhas,
E lá mesmo fico.
Sou matéria barro de querer impossibilidades,
Trago um marido debaixo das saias,
Um marido alado, azul, lindo!
Quando quero, ele bate as asas
E apaga incêndio - é um anjo de luzes!
Meus ofertórios matinais são dele.
Amantes me cercam de ofícios:
Toadas à janela, flores a cada dia, alianças e promessas,
E um eu-te-amo em cada beijo, muitos os são.
Não digo mais porque não posso, é pecado!

Eu creio em sonhos, Padre!
Vede que sou feliz.
Meu noivo nem sabe da minha espera,
Habita águas claras, rios pequenos, conchas.
À noite eu voo,
Visito cidades, beijo velhos desconhecidos,
E amanheço nua de tantas vontades.
Eu creio em sonhos, sim!
Amém!





Poema do Tratado das Veias





DONA ESTER FERREIRA
(Rita Santana)


Havia fifós espalhados pelo corredor,
Caquinha doida com tarefas da lembrança,
Romana cega a fazer remendos em trastes de uso,
Janelas de quartos escuros,
Cheiro de cacau grudado nos tijolos,
E a minha bisavó indiferente aos meus olhos.
Sem saber que seria a personagem mais forte
Do meu imaginário.
Adultério no sangue das grandes mulheres da família,
Demência nas mulheres susceptíveis à dor,
Nos homens deformados, de galhos pobres.
Domina - senhora minha!
Dora Doralina, desde sempre em mim:
Compra fazendas estampadas para corpo alto,
Pega nas bingas dos netos abobalhados,
Sorri da desgraça dos que virão,
Adoece de imagens, adoece de muitas imagens,
Adoece da voz de Manuel Severino,
Amando, de machezas e ternuras,
Uma mulher sem domínios, sem selas,
De largura fidalga nas ancas.
Dada ao seu destino feito prenda de conquista de terras.
Ninguém viu Dona Ester
Tomando cachaça de rabo-de-galo
No bar de Júlio Caranha, marido de dona Jorgilina.
Este é o meu quintal,
Minha cancela aberta,
Árvore arraigada na minha história,
Com sementes que trago nas minhas mãos fechadas.




A Lagoa Encantada inspira o Poeta






                       mergulhei meus pés
                       na Lagoa Encantada -
                                     amassei a lua.
 

                       (Gustavo Felicíssimo)




Poema que brotou da Alpinia







                          a flor do jardim
                          instala inusitados
                          desejos em mim
 
                        (George Pellegrini)







Cochos, Sementes e Fruto











Fotos: Edgard Navarro

Barcaças, trilhos e bromélias

  Barcaça baixa com lastro e trilhos abandonados.




 Barcaça baixa desativada. No lugar das sementes, plantas.


Bromélias em close.


 Árvore com bromélias e céu.


 Barcaça aberta (o telhado recuado)


 Barcaça baixa e eu.

Barcaças com trilhos.


Fotos: Edgard Navarro

AS BARCAÇAS SE MOVEM!


AS BARCAÇAS SE MOVEM!
Rita Santana

“Cada um é suas ações, e não é
Outra coisa. Oh! Que grande doutrina
Esta para o lugar em que estamos!
Quando vos perguntem quem sois,
Não vades revolver o nobiliário de
Vossos avós, ide ver a matrícula de
Vossas ações. O que fazeis, isso
Sois, e nada mais.” (Padre Antônio Vieira)



Iniciei a leitura do livro “Uma questão de Igualdade: Antônio Vieira e a Escravidão Negra na Bahia do Século XVII” de Magno Vilela. Levei o livro para a viagem que fizemos a Itajuípe - Sul da Bahia - e durante o descanso, li os três primeiros capítulos. No entanto, as leituras de uma viagem são múltiplas. E quando ela é tão cheia de encontros, os pensamentos se entrecruzam num bordado único. Enquanto lia o livro, lia também a própria visita à cidade. Olhava através da janela e via o Lago grande e eterno e acompanhava o voo das andorinhas.

No passeio com Itatelino, ele nos mostrou várias barcaças. Conversamos sobre o cacau, a lavoura, a vassoura de bruxa. Fiz uma entrevista improvisada com ele, mas não consegui salvar a gravação no celular. É preciso dominar as tecnologias, Rita! Ele nos deu o presente da paisagem. As fazendas, as bromélias sobre árvores gigantes, postes e pedras. As pedras pretas se derramam sobre aquela paisagem como se espátulas certeiras acertassem a tela e o pintor fosse, em verdade, um poeta.

Itatelino é um velho conhecido de todos por ali, portanto passávamos e pousávamos nos lugares. Entrar nas fazendas, poder visitá-las e fotografá-las foi maravilhoso. Naquele passeio cujo propósito era fotografar barcaças - grande paixão que me acompanha desde a infância - senti o que acontece quando estamos em belos lugares. Não moramos ali, mas desfrutamos do lugar. Logo, somos donos. Talvez aí resida o sentido da posse. Apossar-se deve ser assim parecido com o tomar conta do lugar, torná-lo seu. Senti-me dona daquelas terras por amá-las.

Amar as barcaças sem ser fazendeira ou filha de fazendeiros. Contemplar a beleza que nelas há, apesar das histórias de exploração. Amá-las porque são poéticas no seu discurso arquitetônico, na forma de telhado que assumiram, na disposição das cores que compõem o conjunto das construções. Confesso que sou devota de telhados e de telhas. Entender a harmonia do zinco com a necessidade de calor das sementes. Senti-lo com o respeito devido à sua adequação ao lugar. Entender a natureza das coisas. Aprender com o tempo. Aprender com os olhos que já chegaram aos quarenta e começam a perder a acuidade, por isso precisam desenvolver intuições ocultas, sentidos inauditos, percepções finas, e não podem prescindir das lentes.

Apreciei com agudez cada instante que passamos ali. Ouvi sobre a lavoura, o funcionamento das barcaças, senti a textura da madeira nos cochos onde ficam as sementes quando chegam da colheita e o perfume do lugar. Entendi um pouco sobre o tempo das sementes naquelas caixas de madeira. Encontramos as barcaças fechadas com cadeados, daí não podermos abri-las. As barcaças se abrem!  Movem-se sobre os trilhos. Assim as sementes secam ao sol e as barcaças fecham-se para protegê-las da umidade. A educação das barcaças.

Voltar a Itajuípe foi um reencontro comigo mesma e com tantas lembranças de acontecimentos remotos, dias longínquos, infância, adolescência e juventude. Era eu novamente a menina viajando com a família para Itapitanga. Íamos visitar os parentes maternos e principalmente a minha bisavó Ester Ferreira. Morávamos em Itabuna àquela época. Aquelas ruas nos eram familiares. As curvas na saída da cidade, o Rio Almada partindo o caminho, a ponte mágica - como todas as pontes o são - as escadarias da Igreja Coração de Maria. O meu pai continua vivo provocando as sensações que somente a filha primogênita sente. Uma necessidade de consentimento tardio ainda perdura. Como também a vontade de ser aprovada e perdoada por ele. Às vezes, cada vez mais raramente, chega o ímpeto de desafiá-lo.

A trajetória da cultura do cacau na Região deixou marcas indeléveis, como aconteceu em toda parte onde o poder das oligarquias agrárias foi preponderante. Uma delas é a velha pergunta: você é de que família? Sou da família Santana de Ilhéus. Aqui, o encontro com o livro. O padre Antônio Vieira viveu uma verdadeira saga devido à sua ascendência. A sua avó teria sido índia ou negra e se envolvera afetivamente com Baltazar Vieira Ravasco, ambos serviçais de uma casa nobre. Desse envolvimento nasceu Cristóvão, pai de Antônio Vieira. A Inquisição, incomodada com as ideias políticas do padre, sempre questionou a sua origem. O Tribunal da Inquisição chegou mesmo a publicar sobre ele: “pessoa de cuja qualidade de sangue não conta ao certo”. Vivia-se num período de discriminações de toda ordem. Perseguiam-se os cristãos-novos, os judeus e os escravizados. O quadro social de Portugal, segundo o autor, era de perseguições étnicas, religiosas e sociais. A escravidão por lá, desde o século XVI, atingia negros, indígenas do Brasil e mouros aprisionados durante as batalhas. Pensar que aproximadamente um quinto da sua população era de escravos em 1532 é um assombro. Olhava as folhas do mamoeiro e pensava.

A leitura prossegue. Vilela nos leva para Portugal onde, diante da nobreza, o padre proferiu o discurso da 3ª Dominga do Advento. Naquele texto, ele questionava o significado da palavra nobreza na gramática da nossa língua. Apenas dois sentidos eram abarcados: sangue (procedência) e qualidade (função social). Vieira opôs-se a esse reducionismo semântico afirmando que somente suas ações poderiam qualificar um homem “porque as ações de cada um são a sua essência.” Atrelei o meu Santana - íntima e simbolicamente - aos insurrectos do Engenho de Santana. A cada dia sei que não posso parar de me construir. É incessante a busca para Ser.

Enquanto a chuva caía e o cenário chumbo arrebatava a minha alma, refletia sobre os cineclubistas de Itajuípe. Levar o cinema a um público diverso e provocar deslocamentos e reconstruções é uma ação nobre. Quantos nobres nós encontramos por lá! A formação de plateia oportuniza a descoberta dos desejos individuais e a construção coletiva. A câmera chega aos cineclubes para que a projeção vá além dos filmes exibidos. É necessário produzir discursos.

Eu testemunhei o cacau na pequena roça da minha bisavó. Vi o seu casarão abarrotado de sacas, por onde brincávamos. Na porta da minha casa em Ilhéus, defronte dos Armazéns Gerais, eu vi as trapicheiras nos trapiches manejarem agulhas imensas para o arremate dos sacos de aniagem. Testemunhei as sementes espalhadas pelas calçadas secando ao sol. O cheiro de tudo aquilo está em mim. Sei que as barcaças e a paisagem nunca foram minhas! Mas nelas finquei minha bandeira vermelha e estendi lonas pretas, montei barracas. A minha nobreza, Padre, vem de ter tomado posse desse tesouro de terras, de cheiros, imagens e construções. Tornei-me meeira, posseira e lavradora de toda a tradição improdutiva. Tomei posse, fiz assentamento. Até hoje labuto pra Ser. Atenção! As barcaças se movem!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Eu aprendi a te amar

                  Eu aprendi a te amar
Rita Santana


Era sábado! O Bahia disputava a primeira posição do campeonato. Aqui em casa tudo estava em paz. Eu teria que estudar o exame para a estúpida Certificação de professores que seria no dia seguinte. Olhava a janela, mas não contemplava a paisagem, porque o meu olhar atravessava a copa do cajueiro e se perdia no vazio das abstrações. A calma daquela tarde fora interrompida por um carro de som que estacionou a poucos metros da nossa casa. Ouvíamos. O apresentador muito entusiasmado anunciava aos sete ventos o aniversário de dona Rita. Por um átimo insignificante de tempo, pensei que fosse eu a Rita. Mas o meu aniversário fora em agosto e eu nem estava na cidade! O estardalhaço era enorme! Pessoas gritavam, cachorros latiam, o vento dentro de casa parecia compartilhar da novidade e sacudia os plásticos, derrubava tampas de caixas, papéis voavam. Enfim, uma zona! Dona Rita e Seu Jacinto meus vizinhos, até então desconhecidos, tornaram-se os protagonistas dos meus pensamentos.

 O carro de som tocava pagode e música romântica. Tudo provocava um verdadeiro frisson entre os presentes. Foram poucas músicas, afinal tudo era muito preciso e cronometrado, bastante profissional. O apresentador leu para todos os ouvintes a mensagem escrita por Seu Jacinto. No texto, o meu vizinho – agora quase íntimo – confessava o seu amor por aquela Rita, que não era eu. As palavras lidas diziam do amor que sentia, da companheira que era e dos anos que estavam juntos. Coisa simples!

E eu aqui congelada assistindo a tudo, como se tivesse com um radinho de pilha encostado ao ouvido. Pregada em todos os detalhes sonoros, ouvia tudo aquilo com a mesma atenção dedicada a um folhetim, a uma rádio-novela. O meu tempo parou para acompanhar a cena - à distância - sem sair do lugar, sem sequer pensar em sair na porta para ver onde era. Congelei para ouvir e acompanhar tudo. Não movia um músculo. Mas não foram as palavras de Seu Jacinto que suspenderam a minha respiração. O apresentador continuou o seu show com elogios à aniversariante. O coro dos familiares e amigos subia efusivamente. Era uma festa! Por fim, ele ofereceu o microfone a Dona Rita. A minha alma ficou suspensa. E ela disse:

            - Eu te amo. Eu aprendi a te amar.

Não sei se disse mais alguma coisa. Houve um silêncio. Eu era uma rocha. Paralisei primeiro porque ela falaria, depois pelo conteúdo da sua fala. Era na verdade uma situação dramática muito tensa. Imagine quanta exposição para pessoas que nunca pisaram num palco, nunca se transformaram em sementes e jamais souberam da Couraça Muscular do Caráter. Pessoas de corpos duros e personalidades rígidas. Pessoas comuns que não freqüentavam teatro, que desconheciam a quarta parede.

Todo o público naquela hora entrecruzou olhares. Certamente houve um coçar a cabeça pra lá, um virar as costas pra cá, risos furtivos por toda parte. E Seu Jacinto, coitado? Cabisbaixo, soturno, riso forçado, olhar de peixe morto. E se tem algum tique nervoso, pronto! O canto da boca pôs-se a tremer! A ficha caiu, Jacinto! O apresentador, certamente, teve que se recompor. Silêncio! Eu aprendi a te amar era uma retificação pública do seu amor. A ocasião não pedia confissões mais íntimas ou sinceras, Dona Rita! Entretanto ela o fizera! Era só seguir o protocolo implícito do ritual: eu te amo, eu também! Pronto! Eu me sentia um pouco constrangida por ela e por mim, mas também por Seu Jacinto.

O pior é que o eu te amo fora pronunciado com formalidade, num tom oficioso e entrou em nossos ouvidos ainda com a carga do susto, da surpresa e da comoção daquela Rita no meio do picadeiro armado na porta da sua casa.  E imediatamente depois de pronunciar a primeira frase, ela parece ter recobrado a consciência da sua declaração e disse com determinação e força: eu aprendi a te amar! Fica difícil precisar sem ter visto a sua fisionomia, mas a carga dramática da fala não deixava dúvidas. Após o eu te amo trôpego, a voz retomou o discurso com um tom forte e implacável: eu aprendi a te amar. Ênfase no verbo! Força que somente as mulheres que recobram mágoas poderiam fazê-lo. Eu estava estupefata.

Aquilo bateu em mim como se o seu amor fosse menor. Como se fosse possível medir sentimentos! Mas bateu em mim como um amor que veio com o tempo, com a convivência, os anos. Talvez com o criar dos filhos, o chegar das rugas, o tinir dos ponteiros ou o voar desatinado das folhas do calendário. Aprender a amar pareceu-me, então, a aprendizagem cotidiana que capacita os amantes a superarem as diferenças, as dificuldades. Parece grandioso. Mas por que soara como uma revelação brusca de amor menor, de amor forçado, de amor pequeno, de amor reduzido, de amor sofrido?

Dona Rita mostrara-se naquele rápido momento uma mulher dura, contida, sem excessos. Quantas hipóteses vieram para a fala daquela personagem! A sede de ficção me assaltou. Daí, delírios! No princípio, ela não o amava. Gostava de outro e o romance não deu certo. Frustrou-se. Apareceu Jacinto apaixonado. Caiu no agrado dos pais. Ela sempre dissera que não daria certo. Casaram-se! Ou então: Ela sofrera muito com o casamento, pois ele, aquela flor de criatura, aprontava todas. Chegava em casa quase todos os dias de manhã, bêbado, procurava confusão e, além da amante confessa, quantas vezes a agrediu? Depois de anos de exaustão e muito desgosto, Dona Rita deixou de sentir aquele entusiasmo da mocidade e somente o recuperou quando o já velho Jacinto entrou para uma igreja evangélica, tomou os rumos de Deus e se endireitou. Aprendera a amá-lo a partir daí? Nunca saberemos!

Ainda ouvimos os gritos dos presentes. O alto-falante despediu-se, o carro foi embora. Parece que com ele aquela alegria inesperada e alheia da festa do outro que se faz nossa também, mas acaba. Fica uma inveja, uma pena. A música continuaria na casa dos vizinhos. Em nós, ficariam outros ecos.

 Jacinto e Margarida são meus vizinhos! Ambos os nomes são de flores. Rita é uma forma carinhosa de Margarida. Jacinto é uma personagem da mitologia grega, cuja beleza encantara Apolo. Tornaram-se amantes. Um dia, após banharem mutuamente seus corpos com azeite de oliva, quiseram o jogo de disco. Apolo fizera um lançamento muito intenso e o disco batera tragicamente no rosto do belo jovem. Jacinto morrera, apesar das vãs tentativas de Apolo, o deus da Medicina, de salvá-lo. Há quem diga que Zéfiro, ligado aos ventos, desviara o destino do disco por puro ciúme. O fato é que do sangue derramado de Jacinto nascera uma flor.

Não sei quem ganhara o jogo naquela tarde e ainda não sei a razão de uma Certificação para professores efetivos. Mas sei que o evento perturbara a minha concentração abstrata. Pensei que talvez Seu Jacinto tivesse recebido a frase assim como um disco mortal lançado por Rita, publicamente, em seu rosto. Quem sabe tenha sangrado um pouco internamente e sentido, também ele, o gosto frio da morte? Fechei a janela. O vento estava muito forte!

domingo, 7 de novembro de 2010

TRATADO DAS VEIAS


A CIDADE 

Rita Santana


Preciso que a cidade esteja viva!
Com toda a engrenagem homicida
Dos balcões de moças agradáveis,
Em vitrines intangíveis, de tortura.

Preciso da sua brutalidade,
Do vigor exausto dos seus servos,
Do seu poder de aniquilamento,
Porque pereço de solidão humana.

É feriado pátrio! Gritam os sindicalistas,
Surdos aos mudos gritos do meu desespero,
Da minha insanidade de abandono.
Aos diabos os feriados, os sindicatos!
Aos diabos os balconistas da consciência!

Quero a cidade cidade!
Porque morro em pânico pessoal,
De orfandade, esgotamento moral,
Infância revisitada em medos.

A cidade viva salvará o meu amor desgrenhado,
O meu ofício ocioso,
A minha menstruação que se anuncia,
Meus ovários revoltos,
Minha inanição para a existência,
Minha incoerência de mulher,
De fêmea efêmera.
A cidade grande é minha casca de ovo,
Meu porto, meu alazão!

Quero a normalidade da cidade!
Nada de desfiles cívicos!
Preciso pensar que tudo está igual.


 (A cidade está no  vídeo de Cacau Novaes)

Cacau Novaes no Teatro Castro Alves - Salvador

sábado, 6 de novembro de 2010

ALFORRIAS

      


        Ácaros e Culpas
        Rita Santana

        Eu descobri entre ácaros e culpas
        Que não sorrio há muitos rios e embarcações.
        O meu nome ficou entre o limo das pedras
        E você seguiu sem mim em diáspora sem par.
        Cavando velhos fósseis entre as lembranças
        Dos remorsos que carcomem a seiva dos sobreviventes.
        Deixando a herança inflada dos cansanções
        E a ira das ressacas deixadas pelos olhos de Capitu.

        Você seguiu mascando urtigas no meu velório.

        E eu, como esta máquina de datilografia,
        Estou entregue, há anos, ao desamor
        Das coisas apropriadas ao Abandono.

        O meu sol, consolo não tem!
        Nem manchas vermelhas sobre a pele,
        Nem resfriamentos no inverno da carne,
        Nem meras subjetividades de palavras vazias.

 (Do livro Alforrias, ainda inédito)