quarta-feira, 25 de julho de 2012

Marize Castro: leitura de Alforrias










Crivada de falas
Marize Castro




Crivada de falas, a poeta fala. Uma poesia secreta, abismada. Uma poesia vital, antiga. Em Rita Santana tudo (ou quase tudo) é ancestral, remoto. Há dor em Rita? Sim, mas uma dor na qual o mistério da alegria também se revela. Nos versos de Rita “há um bater de portas na Escuridão”, mas também há uma forte claridade onde tudo há de entrar: macho, fêmea, sombra, sol, constelações, nostalgia. Sim, há um desejo de passado nesta poesia. Aqui tudo é vã e essencial – como é a própria vida que vivemos entre epifanias e alcovas comuns!

Eis uma mulher que ama e que se liberta para amar mais e mais. Mulher-deserto, mulher-multidão, Rita Santana tece versos na mais completa liberdade, pois (acredito!) poeta aprisionado não existe. Os poemas entrelaçam-se compondo esta obra em que gozos e adagas confrontam-se. O título – Alforrias – anuncia todos eles e os contempla. Observo Rita seduzindo as palavras, servindo e sendo servida, cantando seu pranto doce de escriba, cercada de mitos e de verdade. Encanto-me com a fortaleza e fragilidade desta mulher, desta “égua bravia” em que “o tempo descansa sua Lança/e o seu Cansaço”.

 A poesia de Rita Santana dança, grita, sussurra. Permito-me parodiar um dos seus versos: Cá estou na abismação de cada poema. Sim, acredito nesta poesia que sonha “com ânforas cheias de perfume do lótus”. Da vida e da morte esta escrita surge, da vida e da morte esta escrita alforria-se.
Aqui, o divino ergue-se.




Orelha: Fátima Ribeiro
Prefácio: Lígia Telles
Projeto Gráfico e Capa: George Pellegrini
Editora: Editus



sábado, 14 de julho de 2012

Diário da Separação















Diário da Separação
 Rita Santana



Ele vai e volta!
Cada vez mais perdulário dos meus perdões.
Cada vez mais disposto a cobrir de velários
Meus velórios matutinos.
Ele chega menino e se vai vilão,
Zorro assombrando minhas carnes.

Mostra-se quase factível de mudanças,
Mostra-se quase afeito aos meus caprichos de fêmea.

Inferniza minhas ínguas, lambe minha pelve:
 – Perverso!
Deposita escarros nos vasos da minha Casa.

E vai-se, Tarzan depois da gripe.
Enredado em seus cipós,
Distante do chão-pergaminho
Das minhas Vertentes.







Poema do livro Alfrorrias, ainda inédito. Pubicado em 2010 na coletânea Encontro com o Escritor.
 Foto: Rita Santana/Chapada Diamantina.


Pedras da Chapada Diamantina


 




















































Fotos: Rita Santana/Chapada Diamantina.

 
 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Andorinha

















Andorinha
 Rita Santana


As andorinhas existem!
Saíram das páginas do livro
E resolveram viver
Nas alvenarias
Do invisível.


Mas a tua ausência dentro de mim é puríssima dor.
Não há voo que dissipe minha esperança.
Nem vento, nem rosa, nem crença
Que suavize a melancolia parasita nos ossos.


Alheios desejos nos levaram
Para ilhas opostas:
Tu foste para Creta.
Eu, para o Crato.
E do anonimato dos dias
Tenho feito poesia secreta
E prosadura.




Poema do livro Alforrias (ainda inédito), publicado na Coletânea Encontro com o Escritor/2010.
Foto: Rita Santana


domingo, 8 de julho de 2012

Crepúsculo das Vertigens


 











Crepúsculo das Vertigens
Rita Santana


Ante o teu olhar de céu marítimo,
Cedo oferendas ao teu cinismo-seco.
Crepusculo raízes de verdades verdes,
E, ainda assim, quero-te meu!
Apaixonado e obscuro-louco,
Encantador das minhas servas serpentes.



Mente quem olha em silêncio
Tua brandura!
És ofertado a escândalos de botequins.
Tens no nome um Império de mangues,
E no meu lodo escavas pepitas,
Pratarias de negra apanhada
Em arrecifes de ciúmes.



Vingo-me perante o ópio epiderme de teus olhos
E morro a cada romper de casco sobre pedras.























Poema do livro  Alforrias (ainda inédito) /Publicado na antologia Encontro com o Escritor/2010/Fotos: Rita Santana