terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Espelho: Bertrand Duarte










ESPELHO
Bertrand Duarte

 

Espelho mostrou-me hoje o tempo
Linhas no rosto revelando
Meus dias de solidão
De partidas inesquecíveis
De tardes mortas sublinhadas
O reflexo revelou-me
Anos de sentidas ausências 


O que vi é nada
Quebro a rima e o desejo
Mas não tem lado B
Nem outro plano
Vejo no espelho
O tempo de sentido único
Esperei batidas na porta
Abri, nada vi


Hoje vi o tempo no espelho
Linhas descrevendo no rosto
As partidas para sempre
Os dias de solidão
As tardes mortas sublinhadas
As alegrias voláteis
O presente virando passado
Meu capítulo em epílogo




 Foto: Bertrand Duarte
 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sete: Diásporas Íntimas/ livro de contos de Lande Onawale















 






A BAILARINA
 Lande Onawale




Não via a hora da estreia do comercial. “Vai passar no horário nobre, e o bairro inteiro, aliás, a cidade inteira se tornará um buchicho só no dia seguinte!”. 

À tarde, fora buscar o cachê da sua participação e, junto com as outras dançarinas, assistiu ao filme já editado. Faltava apenas a inserção da logomarca do produto. A coreografia, por demais ensaiada no estúdio e na escola de balé que frequentavam, ficou perfeita. Os passos finais, em slow motion, culminavam com o salto de todas em direção à câmera. A colega de perfil mais nórdico e mais próprio, segundo o diretor, mostra, na palma da mão, o copinho do iogurte anunciado – o produto disputando a tela com os sorrisos sadios das moças por breves segundos de imagem congelada.

Às 19 horas, a sala estava apinhada de gente, assim como a janela do cômodo. Quem possuía TV em casa ouvia as reclamações de quem não possuía o aparelho. Todos consideraram mais emocionante assistir ao comercial na casa da artista.

Plim Plim... A emissora anunciou a pausa na programação. Os moleques largaram as bolas de gude na nesga de barro onde brincavam e se enfiaram por entre as pernas dos adultos. A irmã da bailarina, na varanda, interrompeu o beijo e adentrou a sala arrastando o namorado pela mão. Os comerciais que se sucediam, mesmo os mais tolos, nunca tiveram um público tão atento e silencioso.

Começou. As moças dançavam como as cabeças dos espectadores. “Cadê ela?! Cadê ela?!” “Ali, ó. Aquela de roupa azul.” “Mas são várias! Bem que a TV poderia ser maior, né?”, observou um vizinho. “No final fico mais visível”, disse a dançarina aflita. “Psssiu!”, repreendeu a mãe. Para aquela platéia, os 30 segundos foram eternos. Quando o balé iniciou os movimentos finais, a bailarina inclinou-se instintivamente para a TV. Na tela, no canto superior direito, uma tarja branca com o nome do produto apareceu e foi escorregando em diagonal. Foi entrando... entrando... e parou, escondendo ao fundo seu rosto negro tão bonito.




Foto: Edgard Navarro

sábado, 18 de fevereiro de 2012






  

 


PORCELANATO 
 Rita Santana





Vejo cobiça em teus olhos
Pra moça de outro império.
Minha empresa é apresentar-te
Meu arco mago.
Sei dos primórdios deste encanto. 
E, desde lá, observo as marcas,
As fendas deixadas nas esteiras,
Prosseguir de procelas em máscaras,
Aspereza brusca de tardia espera.
Enquanto o mármore do meu mistério
Oculta sapiências, suspeitas de seitas novas
Pro teu altar de Deus infecundo.

Acaso não sabes que tudo sei?
Saber sem provas, sem féculas,
Bulbo submerso em certezas vãs.

Acaso não sabes da minha demanda sacra
De ser tudo na tua omoplata,
De ser o teu maior milagre, tua rampa, tua escada,
Teu chão sempre firme?

Pois bem, alicerço forças, iras e contratos íntimos
Para delatar teus flancos aos abutres,
À covardia dos corvos azuis.
Ao exangue porcelanato das unhas que trago,
Ferindo muralhas.




 Foto: Rita Santana/Itaparica.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Daniela Galdino: Inúmera!

 








 


 





INÚMERA


Eu tenho a síndrome de Tim Maia.
Eu tenho as varizes de Clara Nunes.
Eu tenho os vícios de Piaf.
Eu tenho a orelha de Van Gogh.
Eu tenho a perna que falta ao Saci.

Eu tenho o olfato de Freud.
Eu tenho o cansaço de Amélia.
Eu tenho o peso de Maria.
Eu tenho as dermatoses de Macabéa.
Eu tenho a cusparada de Sofará.

Eu sou a linha tênue que une os xipófagos.
Eu sou uma interrogação vagando com pressa.
Eu sou um insulto atirado à queima roupa.

Eu tenho atalhos ainda não percorridos.
Eu tenho palavras desgastadas e nulas.
Eu tenho uma voz penífera e cortante.

Eu confesso: sou intrusa, sou inúbil, sou inúmera.


(Daniela Galdino)






MULHER ABJETA


Não sei desenhar
não sei fazer conta
só entendo de assustar palavras.

Puxo o verbo pelo rabo
finco dente no dorso.

Quero des-edificar lares
provocar divórcio 
entre significante e significado.

Aí será o oco da linguagem varrido pelo avesso...

Encosto a boca na orelha dos vocábulos
e sussurro:
“Deus é a nossa criação necessária”.
Eles habitam pântanos de pânicos.
Estão prontos para representar meus terrores.

Eu não espero pelo dia
em que o meu nome flutuará
nas páginas de uma hagiografia.

Não sei qual evangelho rege
as impurezas da minha arte.

Eu transbordo excrescências,
dúvidas,
 luminosidades.
E... só entendo de assustar palavras.

(Daniela Galdino)




SAUDADE AMANHECIDA

meus pés contêm mapas
distorcidos por cartógrafos loucos.

e esses pés tocam sem cuidado
a profusão de fios... rastros... fluxos...

eu esqueço os ares de moça
ignoro compêndios
transito por rotas imprecisas:

língua percorre lágrimas
boca engole axilas
dedos iluminam côncavos
buceta grita espumas

corpo bambeia na cadência
da memória indistinta:
seus jorros trêmulos
em meus pontos cardeais.

(Daniela Galdino)





ALVORECIDA


Acordei com um sol enorme
dentro de mim

abrasaram-se os órgãos vitais
raios trafegaram minhas veias

borbulharam pensamentos de lama
nos lençóis freáticos da memória

o sol tomou conta de tudo
expandiu felonias esquecidas

ergueu-se um centenário baobá
no terreiro inabitado de mim

o frêmito deste nascimento
alimentou espetáculo frondoso:

sombra nas costas do dia
vertigem na borboleta.


(Daniela Galdino)





CONSELHO INFANTIL

Dandara


Medi o rio que divide a cidade do Mim
Mirei o espectro de peixes isolados
Aspirei o miasma de sonhos esquecidos
Segui o transitar das baronesas inférteis
Multipliquei-me em silêncio.
Ensaiei a elegância das garças.
As tuas palavras despertaram-me:
“eu sou maior por dentro”.

(Daniela Galdino)


Daniela Galdino (itabunense, poeta, professora da UNEB e Doutoranda pelo CEAO/UFBA) re-começa a vida em 2012 trazendo ao público o meu segundo livro de poemas: Inúmera. Trata-se de uma obra em movimento, feita em transe e no trânsito dos dias, nos deslocamentos do corpo que percorre paisagens alheias e familiares... O seu desafio da/na escrita é provocar a linguagem e construir imagens de maneira a gerar uma obra que não seja um testemunho pessoal... o  seu desejo, com Inúmera, é construir uma ciranda com as/os leitoras/es (que podem ou não se reconhecer no escrito, mas que serão provocadas/os de alguma forma).
Com ilustrações de Daniel Prudente (baiano de Itabuna, artista visual formado pela UFMG), Inúmera é uma obra que nasce junto com a editora que a publica: a Mondrongo (editora do Teatro Popular de Ilhéus). Essa é uma opção consciente: movimentar a cena artística sulbaiana e, ao mesmo tempo, projetar as nossas produções em outros espaços. Daí o propósito de construir uma ampla agenda de lançamento de Inúmera, começando pelo sul da Bahia (Ilhéus e Itabuna)  e depois percorrendo outras cidades e capitais.
Inúmera, para captar as nuances femininas, está organizado em cinco partes: “Eu sou uma interrogação vagando com pressa”, “É passeio abissal”, “Nos absurdos de uma colheita infeliz”, “Toma o fôlego aos ventos esparsos”, “Eu sou maior por dentro”. A palavra-chave do livro é provocação e, para tanto, a autora passeia por abismos, desejos, envereda pela auto-representação, pelos atalhos corporais. Da insurgência ao erótico, das singelezas ados desencantos e reencantos, "Inúmera" se move a partir das matérias lancinantes... No livro está o poema “Conselho Infantil”, que foi musicalizado recentemente pela banda Manzuá, integrando o acervo (trilha sonora) do Projeto Memórias do Rio Cachoeira.
Depois de Ilhéus e Itabuna, Inúmera será lançado em Salvador, no dia 3 de fevereiro de 2012. O evento acontecerá no Centro de Estudos dos Povos Afro-Índio-Americanos (CEPAIA)/UNEB. Durante o lançamento haverá um sarau com a participação de: Sapiranga, Vércia Gonçalvez, Gabriel Barros, Daniel Fernandes, Carlos Barros, Zé Liveira (música), Rita Santana, Lorenza Mucida, Daniela Galdino (poesia).
 
 
Data: 03 de fevereiro de 2012
Hora: 17:30
Local: CEPAIA, Rua do Paço, n°4 - Pelourinho Salvador – Bahia.
Contato: (71) 3241-0811 / 0840 / 0787
Valor do livro: R$ 20,00



Sobre Daniela Galdino: natural de Itabuna (BA), Doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA), Mestre em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS), Graduada em Letras (UESC). Professora de Literatura na UNEB. Organizou os livros “Tessitura Azeviche: diálogo entre as literaturas africanas e a literatura afrobrasileira” (Editus/MEC, Uniafro), “Levando a Raça a Sério” (DP&A, Laboratório de Políticas Públicas da UERJ). Mantém o blog: www.operariadasruinas.blogspot.com




SOBRE “INÚMERA”:

“[...] A poesia dessa autora é uma carta sem selo endereçada à diversidade de leitores. É certo que ser leitor é ser só em companhia de uma multidão de vozes. No compasso das páginas lidas, a releitura é um momento dialógico com a literatura, exige o diálogo com nossa outra idade, aquela de um tempo extemporâneo. Duas solidões exige a leitura do livro Inúmera: a de quem lê, a de quem escreve. Toda obra nasce de um parto solitário, de um pacto solidário, em sintonia com o que nos diz o signo dos inúmeros poemas: “Quero des-edificar lares/provocar divórcio/ entre significante e significado”. De baixo para cima, o livro Inúmera é um pertencimento de mundo, um recado que aposta todas as cartas em uma saga: provocação. Uma experiência una e múltipla, ao mesmo tempo em que o gesto solidário traz as margens para dentro das imagens [...]”.


Tânia Lima
(Poeta Maranhense-Recifense,
Profa. de Literatura da UFRN. Natal – RN, primavera/2011)





“[...] Daniela Galdino chega como um raio que de água gerada na eletricidade dos ares. Sua presença aporta como autora em primeira pessoa. Seus poemas são, antes de qualquer coisa, assunções de sua  persona mais que imponente e ao mesmo tempo flutuante. O verbo flutuar, que em francês – fluctuer – tem uma sonoridade musicalmente agradável, ora aponta, ora desmonta o que a arte de Daniela Galdino traz enquanto essência. Sua personalidade forte faz com que seus vôos sejam como os do avião: obra gigante de aço que paira no ar sob a força propulsora que levanta e equilibra-se por entre os ventos. Desta forma é aérea e forte [...]”.

Carlos Barros
(Cantor, Compositor e Sociólogo.
Salvador – BA, primavera/2011)






“[...] Estas linhas aqui tecidas bem sabem que a poesia de Daniela Galdino não carece de alguém que a defina. Escrita com sangue e no sangue, percorre vários caminhos de veias indagando, vasculhando, encontrando o ser bem maior na carne de cada palavra reinventada. Daí o olhar para o além e o umbigo fincando na terra, brotando sonhos e lirismos enraizados em guerrilhas cotidianas. À  frente da batalha, a mulher, inteira. Menina, amor, mãe, acolhimento com cheiro de agressivo de fêmea plena de sensualidade subversiva. Erotismo vingando séculos de passiva subserviência [...]”.


Daniel Fernandes
(Músico – Rio de Janeiro, primavera /2011)







POEMAS DO LIVRO “INÚMERA”, DE DANIELA GALDINO

GALDINO, Daniela. Inúmera. Ilhéus – BA: Mondrongo, 2011.