terça-feira, 31 de maio de 2011















CHOCALHOS
 Lita Passos



Quem é essa mulher chão?
Quem é essa mulher fogo?
Essa mulher era uma ave
Que voou do ninho do Sol?

Alguém sonhou em seu peito
Alguém bebeu seu aroma
Mulher reza
Mulher oração
Mulher rosa
Mulher vulcão

Vem do fogo azul da noite
Vem dos sonhos e das eras
Mulher canção
Mulher alma
Mulher coração

Quem é essa mulher chocalhos?
Quem é essa rendeira da fé?











Foto da janela: Luciano Oliveira
Da esquerda para a direita: Lita Passos, Rita Santana, Dalila Machado e Alba Liberato
(foto divulgação do livro Mão Cheia) 

http://litapassaro.blogspot.com/

domingo, 29 de maio de 2011















AS JANELAS
 Rita Santana



O meu olhar é nítido como os girassóis de Van Gogh. Tenho o costume de olhar a vida, as fotos. Persigo a revelação da imagem impressa na cena. Dormir sempre significou estar atenta para aprisionar a visão do sonho. O instante.

No princípio, tudo era o tumulto das mulheres alojadas em cortiços, avenidas, favelas, vielas, becos, ruas, casas, barracos, viadutos e túmulos.

Ali. Perfiladas. Lá estavam elas. As janelas. O reboco despencando da parede como borras de vela. E amarelas eram elas, as janelas, de um amarelo ardente encardido pelo tempo que transforma a cor em ferrugem, um amarelo amanhecer tardio, como todos os amanheceres de esperanças apodrecidas no decorrer brusco das desilusões humanas.

 Lá dentro, a ladainha dos filhos gritando a fome, o choro de quem chora desde a hora em que nasceu, o enroscar dos corpos que buscam no sexo a agressão mais fácil. Num canto abandonado de um quarto, na cama, um corpo de mulher violentado mais uma vez pelo tempo do prazer do outro. Encolhido o corpo chora, todo ele. Num ponto daquele corpo o pensamento da mulher desvenda no telhado, no mofo das paredes, nos fundos imemoriais do sentimento, a sombra deformada de um homem, capaz de seduzir seu desejo, remexer seus caminhos grutânicos, até desatar os fios do labirinto, onde desvencilhar a trilha é mais se afundar no emaranhado da dança, do ritual do ir e vir, da  ida prolongada, da vinda advinda em curvas e sucessivas paradas. Debulhar do ventre. Ventania traçando atalhos.

  Aqui dentro, a miséria me consome os anos, os sonhos, os planos. A miséria corrói minha alegria, estou presa, fincada nesse espaço de detritos improvisados e destroços. O cupim corrói as estacas do telhado, e o meu pensamento, não fosse o peso dessa crueza, desse desnudo convívio com as famigeradas fomes, insaciáveis sedes, levitaria. O meu pensamento, não fossem as porradas salariais no final do mês, levitaria. Há embate entre o que me cerca e em que me constituo. Insana, espero apenas a hora de enlouquecer e enlouquecerei, decerto.

Lá dentro, os sonhos com casas grã-finas, os meninos na escola com fardinha certinha e tudo. O fuxico cochichado, o mundo virado, a filha de zumira transando direto com os home lá do batalhão, menina boa, nova, boa de se aproveitar, pra você vê, é fim de mundo, disconjuro, num tá vendo o irmão de pépe, aquele que morreu de tiro, filho de mira do finado raimundo aleijado, que morreu atropelado, menina, pois é, o irmão de pépe agora deu pra sair pra cima e pra baixo com os picudo da cidade, lava carro lá no centro só pra tapear os besta, diz que é com juiz, delegado, advogado, vereador, dono de loja, pensa que engana.

Mulher de seio pendido até o outro lado da calçada, amamentava um gato. Cinzas, remotas senzalas, filho no parto partido do tempo/ parição alheia de areia e pó/ arribação de findo no fundo do poço/ aborto/ filho partido/ era precisa/ inda é preciso/ parto no tempo parição alheia sustentada pelo leite branco do meu peito negro/ meu filho não foi parido/ foi parado/ empurrado para a morte na liberdade da não vida. Arribação do filho ventania. Venta o ventre no vento do pai pai vento. Meu filho não veio pra festa/ tarde se destina ao útero intruso da menina sem trilho/ sem filho, mãe dos gatos da calçada acorrentada na pré-história das misérias. Filicidas. Infelizes.

E lá estava ela: Elisa. Melancólica com suas cólicas matinais. Tênue. Inócua. Lânguida. Elisa. Lisa como o nome. Limo. Mona. Nada. Limonada de lima. Nada em Elisa era intenso. Nada denso. Os espirros sonolentos e porosos. Preguiçosos. Elisa escorregadia. Vadia de brisas. Nebulosa. Elisa. Menina leiga em quase tudo. Magra. Meiga. Maluca de vidro, vidrada em perucas loiras. Mas, em Elisa, nada fascinava mais que os lilases olhos de claridade branda. De Elisa os lilases olhos. Olheiras afundadas num lilás breve e leve como a brevidade grave do riso liso de Elisa. Olhos de Elisa pintados por Lésbia com lápis de cor. Ela saía todos os dias antes do sol raiar e vinha batendo canela do Canela até aqui, ela e suas finas canelas de sabiá e o seu estojinho de lápis coloridos, além da borracha de desenho verde, apropriada para apagar as magras mágoas de Elisa, a pintura mais suave do lugar. A musa dos cartões de Lésbia, vendidos, por bagatela, nos bares dos meninos revolucionários. Menina de olhos melancólicos e cólicas lilases. Elisa. Elipse.

A subversão do fuxico fluía. Nas janelas, as mulheres trocavam receitas, ervas pras feridas do corpo que as do peito, não, essas não têm cura, têm remédio pra acalmar, pra adormecer, mas cura, a dor do peito não tem. Simpatias pro marido deixar a bebida, posições, chás pro mal do útero, preces pro amigo que partiu pra guerra e ainda não voltou, pragas malsinadas pela sina da amiga leal que traiu, remédio pra menarca da filha mais velha que ainda não veio.

O boca a boca da vida de cada uma começava a cutucar, a futucar o outro sexo. Bate boca, bafafá, forrobodó, quizumba, levanta poeira, eram armados também por elas, que já não esperavam tanto nas madrugadas. Cada “loneta” era trocada por um corno bem dado, às vezes por abandono, ou porradas revidadas, poucas conseguiam dos parceiros ouvir palavras, saber os pensamentos que bóiam na superfície do cérebro, a conversa era a fúria crescente, o grito e a ameaça da força, a imposição do medo. Mas as mulheres das janelas amarelas persistiam. A rua já não continha a vertigem da embriaguez, saíam às ruas quase sempre lúcidas, quase sempre certas, quase sempre com suas trouxas enormes nas cabeças, a filharada ajudando, mas já não surgiam como sempre, quase sempre grávidas, mesmo as mais jovens surgiam com o domínio do corpo, não se deixavam castrar, não se deixavam violar, eram Senhoras. Armava-se a confraria das janelas, com a adesão de meninos que aprenderam a falar, a ouvir e sentir, desde o útero, as dores das mães, com a adesão de meninos crescidos que se fizeram homens com o barro soprado pelo macho, pelo senhor, mas que apesar do medo, apesar da perdição repentina, do trono dividido, quebrado, extinto, viam, ouviam e sabiam usar a linguagem, usar o verbo. O outro sexo apavorado.

Orelha de pau aqui, ali, acolá. (orelha de pau é ornato do imaginário de crianças que, como eu, viveram num tempo onde crianças brincavam de roda, falavam com mato, com grilos, árvores, borboletas amarelas, bicas, jacas, bananas, burros, jumentos, terra, avó, barro, cacau, pirão de água com tomatinhos do quintal, primo badico, tia caquinha louca no corredor nefasto do casarão, dona romana cega costurando no escuro, itapitanga - pedra vermelha.). Orelhas de pau, pirongas, urupês, uns e outros, fulanos, sicranos. Golpe. Descobriram a fruta vermelha, buscaram documentos, depoimentos forjados, fotos nos jornais, nas gavetas, testemunhas foram compradas, de tudo, em silêncio, fizeram para que, no lugar, o cenário e as mulheres retornassem ao que eram antes, antes de... antes de quê... antes de quem?

Decidiram por Anita. A hóstia, a vítima oferecida em sacrifício à perpetuação da espécie. Anita. Negra. Seu ofício? Extrair cutículas, escolher os esmaltes mais vivos e escandalosos, enquanto cantava velhas cantigas, enquanto distribuía pitangas entre as freguesas que ofereciam as mãos em concha, só pra ouvirem as palavras da boca carnuda e louca de Anita:   “Guarde o meu anelzinho bem guardadinho”. Era a radiante Anita revelando com um sorrriso um pensamento solto que chegava. “Ser amada é possível, amar é possível” - e sorria da brincadeira da infância perdida. “A felicidade é possível, viu? A fidelidade - gargalhava- pelo puro prazer, pelo simples querer, é possível, o fim dessa miséria que nos consome os sonhos também é possível” - sorria. Mas havia aí uma tristeza surda, escondida até de Elisa.

No princípio do fim, havia um cheiro de risco, arrepio de pêlos pelo corpo, um grito vindo com os ventos, balançando as janelas, derrubando as panelas prateadas que brilhavam ao sol, as roupas alvas estendidas no matagal secavam na rapidez da ventania, as crianças já não brincavam de roda, já não choravam por nada, no lugar, a tristeza calada, o mau agouro, nos passeios das casas as comadres não mais contavam casos pros netos, as vizinhas já não sorriam, já não xingavam, tudo parecia prenúncio de um canto nefasto que viria inabalável com o vento. Janelas fechadas, mulheres pintaram todas as casas do amarelo mais áureo que encontraram. O canto que se ouvia era o lamento murmurado por dentro de todas elas.

Numa noite qualquer, num tempo guardado num canto esquecido da história, noite em que Anita colhia as melancolias que pingavam da boca de Elisa e não havia disparidade alguma nos olhos que se encontravam e se moviam, sem buscar entendimentos, sem bruscas buscas, olhos que se sabiam mútuos, que se perderiam no decorrer dos ponteiros. Presas as mãos, Elisa sentia o calor da mulher que amava. Anita se integrava às olheiras profundamente fundas de Elisa. Anita chorou e partiu arrancada das mãos de Elisa. Porta arrombada, os homens queimaram as cartas de amor de Elisa, os discos de Anita, os livros de Elisa, os risos de Anita, os homens queimaram os girassóis plantados na porta da casa, queimaram a casa e levaram Anita.

Nos dias que antecedem o meu aniversário, a solidão me pesa mais forte, já não pertenço às janelas amarelas, estou vaga e habito a vagueza mais vaga que há: a Rua. Evito os ventos, já não choro, tenho medo dos relógios, tenho medo de tentar voar e não mais saber bater as asas. Ainda me alimento de pitangas e falo coisas presas na memória, de livros lidos, de dores tidas, e uma voz me vem do fogo que move a minha escrita, a minha vida. As sementes do fruto vermelho entranharam-se nas rachaduras das calçadas silenciosas. O meu olhar é nítido como os girassóis de Van Gogh e os versos de Cora Coralina: de pedra. Persigo a revelação da imagem impressa na cena. E me integro a ela.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Foto: Patrícia Navarro/Igatú-Ba.

sábado, 28 de maio de 2011





Anotações de uma jovem
Rita Santana




Eu não diria a tristeza desse maio.
Haverá tempo para a amêndoa azedar o universo de carmim?
Os trabalhadores rurais, muito cedo, cheiram a sabonete Solis.
E a solidão não desce do muro: espia minhas espinhas
E tripudia com minhas esperas.
Vivaldi invade de alegria as tardes da memória:
        – Aos dezoito não se pode ser feliz!

Desmaio! A noite esmagou a dança dos olhos
E desfez o frio das canoas.
Preciso sair para outras ruas,
Poderei morrer amanhã,
Por isso, é preciso que saibam: amei.










Poema dedicado ao aniversário de 18 anos da jovem Raíssa Medeiros, amiga de Tuca. Aliás, o louco reuniu 18 poetas para a homenagem, e saiu uma postagem com 18 poemas e, provavelmente, 18 fotos de Raíssa e dos 18 poetas blogueiros convidados. Uma loucura! (muito criativa e linda). Confiram no blog desinformação seletiva:

http://tucazamagna.blogspot.com/


sexta-feira, 27 de maio de 2011







TRISTEZA DO INFINITO
Cruz e Souza



Anda em mim, soturnamente,
Uma tristeza ociosa
Sem objetivo, latente,
Vaga, indecisa, medrosa.

Como ave torva e sem rumo,
Ondula, vagueia, oscila
E sobe em nuvens de fumo
E na minh'alma se asila.

Uma tristeza que eu, mudo,
Fico nela meditando
E meditando, por tudo
E em toda a parte sonhando.

Tristeza de não sei donde,
De não sei quando nem como...
Flor mortal, que dentro esconde
Sementes de um mago pomo.

Dessas tristezas incertas,
Esparsas, indefinidas...
Como almas vagas, desertas
No rumo eterno das vidas.

Tristeza sem causa forte,
Diversa de outras tristezas,
Nem da vida nem da morte
Gerada nas correntezas...

Tristeza de outros espaços,
De outros céus, de outras esferas,
De outros límpidos abraços,
De outras castas primaveras.

Dessas tristezas que vagam
Com volúpias tão sombrias
Que as nossas almas alagam
De estranhas melancolias.

Dessas tristezas sem fundo,
Sem origens prolongadas,
Sem saudades deste mundo,
Sem noites, sem alvoradas.

Que principiam no sonho
E acabam na Realidade,
Através do mar tristonho
Desta absurda Imensidade.

Certa tristeza indizível,
Abstrata, como se fosse
A grande alma do Sensível
Magoada, mística, doce.

Ah! tristeza imponderável,
Abismo, mistério aflito,
Torturante, formidável...
Ah! tristeza do Infinito!





(http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00079a.pdf)

terça-feira, 24 de maio de 2011

NOTA DE FALECIMENTO DE ABDIAS NASCIMENTO
 
Rio de Janeiro, 24/05/2011
 
A União de Negros Pela Igualdade - UNEGRO manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento do incansável militante do movimento negro ABDIAS NASCIMENTO. Dedicou sua vida no combate ao racismo, com seriedade, coragem e retidão.
Abdias do Nascimento dá início à nova abordagem na trajetória de luta da população negra brasileira, incorporando a denúncia do mito da democracia racial, dando importância à solidariedade internacional entre os negros da diáspora e do continente mãe, resgatando e valorizando a contribuição civilizatória de matriz africana na construção da nação brasileira, até então sufocada pelos resquícios do racismo científico.
Consideramos que o mestre Abdias do Nascimento está entre os maiores brasileiros de nossa história. Incansável e abnegado lutador, merecedor da reverência de todo povo brasileiro. Hoje está junto aos nossos ancestrais nos orientando na luta e na vitória.


 
União de Negros Pela Igualdade - UNEGRO

sexta-feira, 20 de maio de 2011










 Poesia, Aroeira e Abricós!
 Rita Santana 









 





            Naquela sexta-feira de maio, assisti a dois espetáculos maravilhosos. O primeiro deles foi a película Poesia (Shi, 2010), uma produção sul-coreana de Chang-dong Lee, ganhadora do prêmio de melhor roteiro no festival de Cannes.  Escrito especialmente para a veterana atriz da Coreia-do-Sul, Yoon Jeong-hee - que estava sem filmar há quinze anos. O resultado foi uma grande atuação que a fez concorrer como uma das favoritas ao prêmio de melhor atriz do festival. Infelizmente, Julliette Binoche levou a estatueta com a personagem Elle, no filme Cópia Fiel de Abbas Kiarostame. O segundo foi o espetáculo de teatro Pólvora e Poesia de Fernando Guerreiro, sobre o qual também pretendo escrever mais tarde. Em ambos a Poesia é a protagonista.

No princípio é a água. Um vasto rio abre o filme e invade a tela. O barulho da água mistura-se às vozes de crianças que brincam logo ali, à margem daquela vastidão acinzentada. Os nossos sentidos são tomados pela liquidez perene da matéria em movimento, a produzir uma melodia que talvez nos remeta para tempos imemoriais, intra-uterinos, tempos da nossa memória afetiva primordial. Talvez seja essa energia a nos envolver nos primeiros momentos da película.

Ao fundo surge a ponte, o rio e uma montanha cujo magnetismo assemelha-se àquele do qual Cézanne tornara-se súdito ao pintar, inúmeras vezes, a Montagne Sainte-Victoire, personagem central de tantas das suas paisagens.  E é uma pintura o que contemplamos nesse diálogo entre o cinema e outras linguagens. É para ver e ouvir poesia que estamos aqui, diante da tela. Estamos aqui para assistirmos à Poesia.

 A Coreia-do-Sul é um lugar cercado por montanhas, e elas quase sempre carregam significados simbólicos de transcendência, espiritualidade e ligação direta com o sagrado, principalmente nas sociedades orientais. Assim como a água também é cercada de simbolismos em muitas mitologias em torno da origem da vida, purificação do corpo e a elevação da alma. Quem sabe aí resida a escolha desses signos para abrirem a narrativa. A montanha e o rio como elementos identitários daquela comunidade, associados à vida e à morte.

O nosso olhar desloca-se da montanha e vai até as crianças que brincam por ali, porém nossa visão é invadida novamente pelas águas e divisamos, ao longe, um corpo que boia. A acuidade visual é solicitada, tentamos adivinhar de quem é aquele corpo, e percebemos que se trata de uma criança, uma menina morta. Ainda estamos atordoados e acontece uma atmosfera de cumplicidade entre nós, leitores, e tudo o que virá. Já estamos inundados pelo filme e o carpete da sala de projeção encontra-se encharcado, pois a água despeja-se sobre o nosso mundo e molha  nossos pés, tamanha a precisão daquela câmera, tamanha a tristeza provocada pelo encenador, pelos deuses.

Surge, num corte, a mulher que será a nossa personagem central. Mija, uma senhora de 66 anos, chapéu, echarpe de crochê, bolsa de palha, vestido ou saia, sempre. Assiste à TV na recepção de um hospital e está concentrada na notícia sobre o corpo de uma estudante encontrado boiando no rio.  A menina cometera o suicídio atirando-se da ponte. Mija é chamada pela recepcionista.

 Diante do médico, revela que sente dores e esquece muito as palavras. Esquecer as palavras. Após ser encaminhada para uma especialista no mal de Alzheimer, ela sai do hospital e encontra uma mãe ensandecida diante de uma maca vazia dentro da ambulância. No meio da rua, aquela mulher chora a perda da filha que é a menina do noticiário. Mais que chorar, essa mãe morre diante de nós numa convulsão de dor, tibieza, desatino. Uma morte que se revela na alma; morte de mãe que perde filho. Aquela mulher é puríssima dor.

Os planos abrem-se, a rua cresce e vemos a nossa Mija solidária, também ela atordoada, perdida e impotente diante daquele drama. A interpretação da mãe é fantástica, intensa, memorável e tão real que tememos por ela e também por nós, por nossas desgraças vindouras, passadas, por nossas perdas. Sentimos a mesma impotência de Mija. Essa terrível impotência cotidiana diante das cenas do mundo. Ela que desde o princípio sentiu a dor do acontecimento, e isso será determinante para o desfecho da trama. Acontece uma espécie de simbiose entre ambas, sem que se olhem, sem que se falem. Uma comunicação íntima e invisível acontece. Sabemos!

O figurino ocupa sempre um papel fundamental na composição das personagens. Aqui, o figurino e a personagem são indissociáveis. É da natureza poética que falamos. Ela orna-se! Há nas suas escolhas sinais de quem aprecia o belo. As pessoas notam o seu requinte - às vezes duvidoso - mas inequivocamente cercado de cuidados, de zelos. É certo que muitas vezes anacrônico para uma sociedade ocidentalizada.

Ela parece preservar a tradição nos elementos que compõem  o seu guarda-roupa e dentro da sua alma. Como se resguardasse, no modo de se arrumar, sombras, marcas de uma cultura, de um passado não muito distante. Uma tradição demonstrada nos pequenos gestos, nos pequenos pés e passos ao andar em casa. Não a tradição do conservadorismo, não! Ela é antenada com o seu tempo, é ágil. Leva um celular inseparável que é o principal signo do estar aqui e agora comunicando-se, diariamente, com a sua filha que mora em outro lugar. Há muita naturalidade na interpretação e na direção dessas cenas externas sempre ambientadas com primor, com uma movimentação dinâmica e uma marcação de cena que beira o improviso. Mas a mão do diretor está lá, segurando a mão da atriz experiente e sendo levado por ela. Nós também estamos atados às suas mãos.

 Talvez a palavra tradição esteja subjacente e permeie o universo mais íntimo daquela mulher nos seus valores, suas crenças diante do mundo, da vida e no seu prazer pela estética, no deleite pela harmonia do belo coexistindo com as mudanças. Nada na narrativa é panfletário ou óbvio, ao contrário, tudo é silencioso e recôndito, como os pensamentos das personagens – e os nossos – os segredos, as revelações e o próprio desenvolvimento da trama.

 Ela trabalha como ajudante de um velho  adoentado, sendo responsável pela sua higiene pessoal e a limpeza da casa. Parece ter uma relação profissional e de confiança com o seu patrão, um tipo que gosta de gritar com as pessoas, mas que a olha com certo interesse. Ele está diante de um quadro de imobilidade parcial. A nossa protagonista possui uma aposentadoria insuficiente para manter o neto e a si mesma, por isso trabalha. Vai sempre impecável. Cumpre todo o ritual do banho com muito profissionalismo, e é nesse cenário que teremos instantes de erotismo, humor e mal-estar.

O caleidoscópio poético do filme arma-se aos poucos, sem pressa diante dos nossos sentidos. Já nos primeiros vinte minutos, estamos fisgados pela personagem feminina cheia de vigor. Há cenas em que o erotismo e a sedução tomam delicadamente conta da personagem. Flagramos o corpo daquela mulher – sexagenária - encher-se de jovialidade e sedução.

A linguagem do filme é precisa nos cortes, na edição e na montagem. Sinto que transitamos por mundos distintos algumas vezes, como se a montagem exercesse um jogo de contraposições. O choque de opostos encontra-se também no argumento, afinal, convivemos com uma mulher que tenta resolver o que será o grande conflito do filme. Ou seja, o envolvimento do neto com o estupro e o posterior suicídio da menina. Ao mesmo tempo, o dilema dessa mulher diante da busca pela poesia, que demora a chegar. Onde andará a poesia? Ela sai em busca do poema, como a pescar borboletas. Respiramos cada quadro da película sem rupturas abruptas, sem brusquidão, mas com alguns choques semânticos, abalos sísmicos por dentro.

E assim vemos Mija falando novamente com a filha ao celular, andando pela rua, e escondendo dela a suspeita do médico quanto ao mal de Alzheimer. Antes de entrar no edifício onde mora, depara-se com o anúncio: Aulas de Literatura: Você também pode ser Poeta.  O jogo de montagem manifesta-se novamente nesse diálogo que nos atira do real ao surpreendente, ao riso, ao inusitado. Ela olha - nós também olhamos - e cortam o nosso olhar para dentro de seu apartamento, onde há um neto adolescente mal humorado, bruto, preguiçoso, enfim: um adolescente difícil, típico, mas sem cair em estereótipos. Apesar de nunca se comunicar realmente com a avó, ele demonstra saber o que ela pensa e, apesar de ser desatento, vemos uns olhares de sentimento, de alguma consciência da situação e de entendimento sem palavras. Como se ambos soubessem exatamente o pensamento do outro durante todo o filme.

 Continuamos com aquela sensação do curso de poesia na alma. Você também pode ser poeta é uma provocação, um desafio, uma situação incômoda. Causa certo desconforto talvez pela construção social em torno do título de poeta, como se fosse uma tarefa legada a semideuses, apenas.
 
A avó é procurada pelos pais dos outros adolescentes envolvidos no crime. É comunicada que a menina fora vítima de estupro inúmeras vezes. Ao saber, a avó sai do restaurante atordoada, trôpega, quase atropela os automóveis. A cena parece repetir o atordoamento da própria mãe testemunhado pela avó do garoto, no dia em que o corpo fora encontrado. Como se mimetizadas na dor, cúmplices sem que o soubessem. Enquanto isso, os pais negociam animadamente o pagamento que será oferecido à família da menina para que permaneça em silêncio, como a escola também já o fizera. Decidem que Mija fará a negociação com a mãe, por ser mulher.

É muito rica a cena em que o neto brinca de bambolê com crianças na frente do prédio, enquanto a avó o observa do alto da sua varanda. Os movimentos pélvicos do adolescente parecem dizer da sua sexualidade, do seu corpo aceso ao desejo, da sua animalidade juvenil, incauta. É uma cena silenciosa, mas rica em significados como todo o filme.  E lá vai ela ao Centro Cultural divulgado no cartaz, aprender poesia. Ela insiste em ser matriculada, apesar de encerradas as inscrições.  Enquanto o professor diz na primeira aula:

- Ver bem, ver é a coisa mais importante.
- Ter um bloco de papel e lápis bem apontado. Quando tenho lápis e papel me sinto repleto.

Mais uma vez a personagem nos surpreende, passa a  frequentar um sarau poético. Amantes da poesia: Sarau Poético das sextas-feiras. Sempre elegante, ouve a leitura de poemas, conversa abertamente com poetas, e a sua simplicidade desconcertante nos emociona. Preocupa-se com a possibilidade de um dia poder escrever um poema. É o que ela deseja ardentemente e por isso busca pistas, caminhos, encontros, por isso faz anotações. Ela pergunta sobre a inspiração, sobre quando conseguirá escrever um poema. Temos diálogos simples sobre o exercício do fazer poético, como por exemplo: Cada um de vocês carrega a poesia no coração. A inspiração não vem. É preciso buscá-la, implorar a ela para que venha; eu já disse que a poesia precisa estar numa bacia de água.

Além do sarau literário, o filme nos brinda com cenas dos depoimentos dos colegas de Mija nas aulas de poesia. São momentos quase documentais, carregados de beleza. Pessoas comuns aparecem para contar suas lembranças, como uma mulher de 40 anos que pariu o seu primeiro filho. Conta que a criança escorregou pelas pernas com a água e era uma bola de fogo escorregando pelas suas pernas. Um homem revela que sempre morou num porão, mas resolvera mudar de cidade. Os aluguéis ali eram mais baratos e havia empregos, havia trabalho.

- E quando aluguei um pequeno apartamento, me esparramei no chão, como se fosse o dono do mundo.

O filme nos surpreende e encanta. Aprendi com ele o nome de uma planta da minha infância: abricó. Assistam! Para completar aquela sexta-feira, ainda mergulhei nas águas turbulentas do espetáculo Pólvora e Poesia, uma febre! Salvei a minha a existência que estava num desconcerto só. A poesia me salvara novamente! Dias depois, mergulhei em águas douradas de Oxum, lá em Imbassaí. Fotografei e colhi sementes de aroeira, mergulhei-as em azeite de oliva para temperar o frango de domingo. Eros estava ao meu lado. Uma delícia!





Foto: Edgard Navarro/Rio Imbassaí-Ba.

quinta-feira, 19 de maio de 2011













ALEGRIA
Rita Santana



A minha alegria saiu da casca,
Rompeu aquela dor que me atravessa.
Saí à janela e vi-me tão devassa
Quanto uma ninfa de amor sem pressa.

Puro cristal no som que me arrebata,
Faço folias da vida que me resta.
Eu sou poeta, almejo uma fragata
Eu sou do mar, do triste faço festa.

Sou bacante de coração selvagem,
Uma mulher fadada a amar demais,
Meu pobre bumbo bate em vassalagem,

Se o amor que tenho em limo se desfaz.
Mas esqueçamos o amor, lume infernal:
Eu quero riso, dança, carnaval.




 Foto: Edgard Navarro/Carnaval de Olinda/2008.