sábado, 26 de fevereiro de 2011












Psiquê e Eros
Rita Santana

            Psiquê é de família real e tem duas irmãs. Cheia de atributos da leveza, a moça devia ser muito estranha aos homens. Muitos a cortejavam. Oriundos de regiões longínquas, eles eram atraídos pela fama da sua beleza, mas voltavam sem desposá-la. A delicadeza da moça devia assustá-los, pois a filha mais linda daquele casal não conseguia atrair nenhum pretendente para o matrimônio.

Penso nesses pavores que alguns homens revelam por moças de natureza mais delicada, natureza incorpórea. Talvez cause medo aos homens a disposição da mulher para assuntos que exijam a imersão e a profundidade. É provável que cause medo o silêncio que penetra a alma e descobre segredos sem que eles nunca tenham sido revelados. Cause medo os jogos de adivinhação intuitiva que desvendam intenções. Da mesma forma, há homens de matéria intangível de quem, por vezes, também nos afastamos.

 O Dicionário dos Símbolos de Chevalier, a esse respeito, revela: sua excessiva perfeição amedronta. Não sei se é a perfeição dessa moça que a afasta dos homens. Seria, antes, a sua abstração, o seu estado de ausência.  No conto de Maria de Santa Cruz Alma, a Noiva, há a seguinte reflexão: Porém nenhum deles regressava, sequer a pretendera junto ao rei seu pai. Temiam a leveza de Alma.  E é certamente a sua leveza que os assustava.

 Concebo-a como uma mulher de divagações e escritas interiores. Sim, Psiquê devia ser uma escritora de pergaminhos internos, invisíveis, como tantas mulheres o são até que descubram a pena. Provavelmente não andava com preocupações humanas de vaidade, visto que sua natureza era feita dos mistérios inconscientes, ocultos. Seus ornatos são de natureza etérea, decerto. Além do mais, nascera bela e não precisava preocupar-se com as tiranias da vaidade. Movida por pensamentos e divagações, assim devia ser Psiquê.

Geralmente suas representações são de uma moça alada, inspirada na borboleta, símbolo da alma que escapa do corpo após a morte – como a nossa Inocência. Nossa personagem, portanto, mesmo sendo até ali uma mortal, era muito mais próxima da natureza dos deuses. Sua vida luxuosa remetia ao sonho, ao mundo material que dispensa preocupações com as necessidades básicas da existência. E se não há preocupação com o preço do feijão, o que fazer senão escapar a todo o instante da realidade, e viver em terras de divagações e delírios? Assim, a nossa mocinha devia andar em terras oníricas.

Eram súditos da sua beleza todos os homens que a viam. – Afrodite! Diziam ao vê-la.  – Afrodite! Repetiam pelos palácios, campos e plagas. Afrodite, a deusa da beleza, ouvia essas comparações e indignava-se, sentindo-se aviltada em todo o seu esplendor de divindade. Não sabiam essas línguas que comparar uma mortal a uma deusa, em épocas de deuses tão humanos, seria condená-la à morte ou ao sofrimento? Pois assim o fizeram, talvez inocentes em seus elogios. Afrodite pra lá, Afrodite pra cá e a moça caiu na maldição da Deusa.

Mulher de beleza misteriosa, enigmática. Beleza que vem de dentro e expande-se pelo corpo sem que a pessoa o deseje, o queira ou tenha sobre esse fenômeno qualquer consciência e controle. Era preciso matá-la! Sabemos disso, Afrodite! Sabemos também nós – mortais – desejar a morte das nossas rivais. O aniquilamento de quem nos ameaça. Sabemos perfeitamente dessa ira que nos acomete diante daquelas que enfeitiçam apenas por existirem.

Temos que sublimar! Temos que trabalhar nossas emoções humanas, nossos desejos vis. Afinal, não nos foi dado o fantástico como poder. Não podemos transformar sapos em príncipes, nem nossas inimizades em rãs de pântano. E para tanto, Afrodite, foi-nos legado o sonho, a fantasia, a escrita, a ficção, a arte, o trabalho, o inconsciente, o esquecer, o perdoar. Eis nossa magia, nosso sortilégio cotidiano.

Mas tratava-se de uma deusa, portanto a ira potencial transformava-se em ato. O enviado para o assassínio fora Eros, seu próprio filho. Que razão haverá para uma mãe ocupar o seu filho com tais desígnios? Logo aquele moleque travesso que vivia a lançar flechas do seu carcás aos homens e aos deuses com o objetivo de feri-los de amor. E não é de feridas e chagas que é feito o sentimento amoroso? Não é dessa dor tirânica que nos atinge sem que saibamos origem, causa ou razão de que é feita a matéria amatória?

Eros era um imberbe de beleza inimaginável, um adolescente filho do Caos original. Nada mais apropriado do que o turbilhão anônimo do Caos para o seu nascimento, a sua origem, afinal, que imagem melhor representaria esse furacão desordenado em que nos metemos quando vivemos a experiência do amor? Engendrado no Ovo primordial, não haveria um pai para Eros e se houvesse uma mãe, seria Afrodite. Eros e Cupido sofreram o sincretismo greco-latino.

Eros ao ter contato com a bela jovem enamorou-se. Fora flechado pela própria lança, fora ferido pelo próprio arco. Impossível tarefa! Voltou à sua mãe para pedir-lhe que o deixasse desposar Psiquê. A condição fora crudelíssima! Aceitaria o consórcio, se o jovem filho jamais se revelasse na presença da sua esposa; jamais Alma veria a face do Amor.

Teriam as sogras esse inconsciente desejo de que seus filhos não se revelassem inteiros a outra mulher? Não mostrassem sua face senão a elas mesmas, mães? Não estaria em tal desejo esse inferno dramático de tantos casais que sucumbem ou vencem a perversidade persecutória das sogras?

Enquanto isso, outros desígnios realizavam-se no plano humano. Os pais de Alma, preocupados com o destino solitário da filha, consultaram o Oráculo. A ordem era que Psiquê deveria ser vestida com trajes de núpcias, e guiada por um séquito até o alto da montanha. Lá, ela seria desposada por um monstro.

Obedeceram às ordens mágicas e sobre um rochedo, Psiquê aguardou o seu destino. O Vento a conduziu levemente até um palácio suntuoso. Lá, vozes a serviram com todos os requintes ambicionados por uma noiva. Pronta, a moça fora levada até o seu leito nupcial onde aguardaria a chegada do Desconhecido.

E o Noivo esperado aconteceu. Nada dissera sobre a sua identidade. Não apresentara a sua face, seu corpo. Apenas a advertira de que se ela o visse, estariam separados para sempre. O amor entre o casal fizera-se.

A jovem esposa sentia-se feliz. O tempo passava e trazia consigo a saudade da família. A vontade de dialogar com pessoas do seu mundo visível. O silêncio, as vozes sem rosto que a acompanhavam, que a serviam, o marido amoroso e anônimo, tudo isso a fazia muito feliz, mas também a pressionava para rever os seus. Eros invocou novamente Zéfiro, seu mensageiro, vento perfumoso e brando para transportar Psiquê até a casa dos seus pais. O amante sabia do risco de perdê-la.

 As irmãs invejaram a sua felicidade e fortuna. Quiseram saber sobre o nome e a fisionomia do Marido. Psiquê tergiversava, mas acabara confessando o mistério. Incendiaram sua  alma para que ela descobrisse a face do seu esposo. Acenderam na moça necessidades humanas de explicações, revelações. O amor precisava ter um nome e uma face. A moça voltara para casa disposta a seguir os conselhos das irmãs. Como condenar a mulher pelo desejo de elucidação dos mistérios?

Eros percebeu que havia algo estranho na esposa. Mas entregou-se ao amor e depois ao sono com a mesma intensidade. Nesse momento, a jovem tomou de uma lâmpada, acendeu-a e levou-a até o rosto do oculto homem. Seus olhos tornaram-se duas tochas irradiando encantamento e assombro. O monstro anunciado pelo oráculo, o monstro que a desposaria no alto da montanha era um imberbe jovem, quase menino, quase adolescente, um homem absolutamente belo, inumanamente lindo. Tal revelação a fizera tremer – também nós tremeríamos – e uma gota do azeite da lâmpada caíra sobre a face do mancebo. Desperto pela dor e pelo horror da revelação, o jovem pôde apenas responder a pergunta da mulher sobre o seu nome e partiu.

A história de amor, como tantas outras, cai na busca desesperada de Psiquê por Eros. Torna-se serva da deusa Afrodite, prisioneira e encarregada de impossíveis tarefas para recuperar o amor de Eros. Ela vai aos Infernos! E quem nunca esteve por lá? Quem sobrevive ao amor sem que viagens ao Inferno sejam feitas ciclicamente? Quanto às tarefas, quão dolorosas e impossíveis elas sempre se manifestam aos que amam? De lá, do Inferno, Psiquê deveria trazer para Afrodite o elixir da Juventude.

Vários deuses encontraram formas de socorrer a moça em suas tarefas inexequíveis, entretanto, mais uma vez, a curiosidade apossou-se da bela jovem e ela abriu o frasco proibido caindo em sono profundo.  Quem sabe quisesse permanecer, também ela, jovem e bela para concorrer ao afeto de Eros pela eternidade? Diante das rugas que começam a cortar o meu rosto, delinear horizontalmente o meu nariz, também eu quereria, também tiraria a rolha da garrafa.

Talvez esse dormir fosse ainda morrer um pouco de cansaço, de solidão. Aquele momento em que desistimos da busca, da reparação das nossas culpas e damos ao outro a oportunidade de entrar em cena e resolver o impasse. Afinal não fosse Psiquê, até hoje, Eros viveria na Obscuridade atendendo aos caprichos da mãe.

 Enfim! Psiquê caíra num sono profundo. Perdida no tempo e no espaço entre inferno e céu. Eros ressurge cansado da busca. Ao reencontrar sua amada, acordou-a com o adejar das asas ou com uma flechada ou um beijo. Levou-a até Zeus e somente assim, com o seu consentimento, pode viver para sempre com Psiquê, a quem Zeus concedeu a imortalidade. 






 Foto: Edgard Navarro/Escultura de Antonio Canova

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011







ENTREGA
Rita Santana

Meu corpo,
Em conserva,
Observa
A sequência
Das eras
Sem te ver.

Conservo-te
Servo e Senhor
Dos afazeres carnais,
Dos azares verbais

E do meu beijo de areia doce.






São Luís do Maranhão: 2008


















Fotos: Edgard Navarro

 

 

AMÁSIA

Rita Santana



Vem homem, ofereço-te fibras duras
Da doida serpente que me guarda.
De paz sei pouco, dinamito em gritos.
Trago silêncios vazios que adornam as mulheres.
Se quiseres, beijo teu falo e me ponho a falar
Das coisas que aprendi entre as pedras do rio.
Aproveita o calendário, a oferta das horas,
Diz-me adorar meus seios flácidos, minha embriaguez de puta.
Lambe com disputa asceta os meus meios, meus fundos.

Deixa banhar de olhos os pelos, a jactância têxtil,
Os arroubos de gado livre.
Faço-me de mulher boa, apascentada e morna.
Banho-te, filho advindo das trevas, na cisterna,
No poço fundo e frio dos meus mistérios.
Aqueço teus ossos com minhas carnes cativas
Ao que em ti é arrefecido.

Prometo, eu Amásia, amaciar o teu sono,
Enganar tua vaidade viril,
Avaliar sem critérios teu caráter de macho.
Depois, deixa a luz acesa e corre.
Ergo-me, esquecida de tantos deuses vingativos,
E abro a caixa de Pandora.






domingo, 20 de fevereiro de 2011

São Luís do Maranhão: 2008






























































Fotos: Edgard Navarro

BAGAGEM DE ADÉLIA
Rita Santana

Diante de mim, a Bagagem de Adélia.
E, ao modo da pimenta batida em pilão,
Ardia a minha saudade dela.
Dos brados de suas janelas,
A madeira do tempo, rachada,
Abria fendas em oferendas de amor pisado.



O amor de Adélia é primo carnal
Do meu amor de sabatinas antigas
E preces precisas de loucura.



A Bagagem de Adélia
Leva o Antônio que é meu,
E que também não permanece.



Adélia carrega nas mãos a menina,
A cruz e a espinha dorsal curvada,
Querendo lamber a terra,
Arrastar-se na insistência
Do amor de pedra, lama,
E violinos.









ORIDES FONTELA
 Rita Santana



Tenho um seu retrato
Impessoal da revista.
Em mira, inspeciona
A vastidão lógica dos humanos.

É uma mulher distante
Pelo que há de tirano
Em seus gestos.

Nos atos desarticulados
De suas palavras nuas,
De sua língua amadurecida
Na solidão de suas paredes.

Não devassem, pobres humanos!
As paredes desta mulher,
Por onde a poesia não passa.
Nela, em suas veias,
A poesia pisa e dança tango.
Nela, a poesia sapateia
E se embriaga.
Nela, a poesia trepa e atua.

Deixem em paz a casa, a fúria.
E, na loucura, publiquem seus livros.
Preciso sabê-la.










São Luís do Maranhão: 2008

 






































































































































Fotos: Edgard Navarro

São Luís do Maranhão: 2008






















































Fotos: Edgard Navarro

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

 

 

                          CERCA DE GIRASSÓIS

                                                                                                                     Rita Santana





Que meu túmulo
Seja cercado de crisântemos amarelos,
Malmequeres,
Ou girassóis sorrindo.

Nada de branquezas!
Não fui pura, fui amarela.

Aticem fogo
No meu túmulo
Para incinerar
Toda a paixão que,
Em brasa,
Perfure em fogo
O suspiro da terra.

Quero meu corpo
Banhado só com perfumes.
Exagerados pingos,
Cobrindo os poros
Que beberão a última cachaça de poesia.

Quando eu morrer,
Não me matem!
Pelo amor de deus,
Não me matem!






                           



         

                                         PERDAS
                                                      Rita Santana 



Saber da ida certa das gentes, nossas.
Rezar credos em busca de adiamentos.
Diante da impotência pagã das mãos,
Esperar milagres, quando a Hora oferece-se em graça.

É o pai, a mãe, o irmão, a irmã.
Em cada substantivo o grau instalado de dor absoluta.
E a orfandade humana grita sem remédio,
Cai no chão de lembranças vermelhas,
Arrasta-se em colos negados,
E busca, nas alturas, o Pai ingrato.

O Éden, o limbo, as prestações da cova,
O itinerário dos vivos,
Os perdões necessários para o prosseguir, apesar de.
É a cota de cada um, até sempre.
Eu morro.