sexta-feira, 28 de janeiro de 2011







                                    






                                       Receptáculo da Bondade
                                                         Rita Santana




A minha infelicidade vem da tua casa à beira-mar
Vendo-me correr o meu vagar pela praia.
Sei da tua ausência pelo cheiro,
Pela falta de vida nas ondas.
Eu, cega em antigas saídas da alma, 
Não quero meus textos frouxos na tua película
De vinhática virilidade servil.
Tampouco quero o teu francês na minha língua,
Tramando aturdimentos.

Não quero a tua delicadeza fingida
Dedilhando minha vagina expressionista.
Bem certa estou de que tu és
O delator dos meus delitos.

Não quero o teu anel roçando
O meu desejo lírico com promessas,
Nem profecias proféticas
De outra vez amar,
Amar o mar da nossa terra.

Não quero meu livro de versos íntimos
Entre teus dedos,
Imunes à eternidade das ostras negras,
E aos lírios lilases do meu quintal.
Nem quero saber dos teus dias de suntuosidade,
Durante a minha ausência paladina.

Sou a mulher por quem a tua esfinge procura
Nos pesadelos cheios de gozo e fortuna de afeto.
Sou toda brusquidão e rudezas de amor,
E rezo por nós dois à toa, sem estações,
Sem toadas nem eras, nem bolos de carimã.

Quero pousar no teu dia vez ou outra
Para assoprar tua gravata,
E desatar os nós do teu sapato lustroso.

És bárbaro,
Na arrogância dos diamantes
Que escapam do teu palato duro.
Deixa-me dormir em paz!
Sem que interrompas o meu sono
De exaustão operária.
Dez horas depois,
Está a acariciar meu sono de menina eterna,
Ao som da tua desgraça de poeta sem portas,
Sem machados nem cancelas.

Quero ofertar minhas soluções e meus soluços
À face do que em ti é Absoluto e é Eterno.
À face do que em ti é Amatividade e Amavios.
Apesar das derrocadas, das implosões,
E dos mistérios escolásticos da penitência.
Quero, hoje, ter saudade de qualquer vertigem
Que tenha sido nossa,
Qualquer ilusão
Que tenha saído da tua honradez absoluta
De macho curioso por meu mutismo.

O meu pai morreu sem te ter à mesa
Ofertando ao velho a minha condição de ser tua,
E de querer de mim o meu grande ventre
De mulher bem parideira e fazedora de sonhos.

Deixa-me dormir nas calçadas,
Sem teu ódio vencido
De macho traído
Mil vezes por esta fêmea que te adora.
E que por isso busca em teus pares
Relíquias do teu cheiro.
Busca em teus pares a tua pele nobre de rei etíope.
Busca, na verve dos teus discípulos,
Vestígios de tua fome sobre o meu corpo exausto.
Por isso, busco nos teus consanguíneos
Alguma razão para o caos da tua inapetência
Diante dos meus propósitos de mulher.

Eu, este receptáculo da Bondade.



Foto: Rita Santana

                                                  



                                              CORUJA
                  Rita Santana



Frágil coração
A conter penas.
Visão de fêmea,
Não de macho.



Ave de Atena!
Apenas ouço
Teu chamado,
Ponho-me a observar
A arquitetura
Natural da cena,
Do espaço.



Retina de oráculos.
Especulas espelhos
Com teus olhos
Camuflados.















































































































































 





Fotos: Rita Santana
























































































 









Fotos: Rita Santana

domingo, 16 de janeiro de 2011

















 















































Fotos: Rita Santana

























Fotos: Rita Santana


                                




                           









                                                Ilhéus
                                                       Rita Santana


Retorno.
Ponho os pés na fineza de sua areia
E me lambuzo de saudades.
Volto a cavar buracos
E encontrar tesouros.
Ainda vejo vida nos meus, sorrio aliviada.

Bens não me vestem!
Talvez feneça diante dos olhos
De quem prometi grandezas.
Eu era uma menina de dezenove
E cresci com seus sonhos de dezenove.

Meus 34 avançam no mar da minha terra
E nadam sem fôlego, sem sossego, sem velas.
O fígado de meu Pai.
Os rins de meu Pai.
A vida de meu Pai.
O coração de meu Pai.
E Nós.
As Meninas.





 Foto: Rita Santana





                                                                               









                                                        Cantiga de Amigo
                                                                                 Rita Santana


Tento anagramas para esconder seu nome da minha boca,
Deito no capim para escapar de rimas óbvias,
Penso em exércitos para esquecer seu retrato aceso
Nos calabouços do desejo.
De resto, aceito a sina e rio.
Rio sério e forte porque sou mulher de ranços.

Amaldiçôo sementes de amor de mofo,
Sigo séquitos dos casórios que não tive,
Finjo-me de noiva alegre, quase grávida,
Prima de donzelas doidas, castas.

Onde amigo anda, pássaro do meu telhado?
Novas nunca sei, além da morte escapa, do filho vindo,
Da Mulher bolinando cartas, peneirando vindas.

Onde anda, amigo, linha da minha mão?
Nasce grama demais no caminho.
Onde?
Chuva cobriu horizonte.
Onde?
Amigo de moça terna sempre volta.
Onde?

Adiante o fio crescido no ido.





Foto: Rita Santana/Ilhéus

sábado, 15 de janeiro de 2011

                                               




 

                                                            



                                                    URDIDURA
                                                                 Rita Santana



Urdidura de teus dedos,
Venho-me construindo corpo de mulher ciosa,
Ciente, orgulhosa de gulas esporádicas sobre o teu teso tecido.
Varridão embrutecida de bicho,
Mansidão de pergaminhos molhados,
Malha amanhecida quente, arrebatada.
Manias de deslindar melindres de menarcas eternas.


Assim, varão dos meus firmamentos, venho tentando
Existir, apesar dos teus sinais de macho.
Conservo ervas entre os dentes, para escapar dos venenos
Da tua língua, quando molhas minha boca de beijos.






Ilustração: Rita Santana




 



                                            
                                     

                                           





                                              SALVAÇÃO
                                                         Rita Santana



             Dia dado ao silêncio.
             Quero o conforto das horas com as palavras eleitas.
             Deslizar o meu dedo por elas,
             Até encontrá-las maduras
             Para o ofertório.
             O horizonte ainda me espera, graças a deus.
             Assinalo olhares, vejo muitas coisas vindouras,
             Tenho parte com intuição,
             Com caprichos da pele, das concavidades violadas.
             Amarro no calcanhar homens de gesso,
             E saio a voar na minha vassoura
             Pelas nuvens de um desejo risonho.
             As separações despontam no tumulto frio do ir,
             Do livre arbítrio,
             Das sensações planícies, dos arrotos públicos.
             Sou uma mulher que sonha,
             Logo definho, engordo, viro boi de abate.
             Meu resgate é ser feliz um dia.
             Corto as unhas para o meu homem ter paz,
             Perco o juízo com o ciúme dessas tantas mulheres,
             E depois faço a reconciliação com os versos.
             Salvo-me.







 Foto: Rita Santana