quinta-feira, 30 de dezembro de 2010












 
                                 SENHOR MEU NOIVO
                                                                  Rita Santana



É tarde! Amanheci sem teus préstimos de homem.
Desde ontem, busco teu nome entre meus alinhavos,
Mas nada encontro.
Eu te queria noivo, sem ter que confessá-lo.
Se tu, ido, olhas meus pés,
Hás de saboreá-los ainda nus,
Em fuga, tantos os desencantos foram.
A minha presença protegia tua solidão fingida, confessa.
Sou essa mulher de carnes que apodrecem em tentativas.
Sou essa mulher que te acolhe, antes que chegues.
Nada vistes senão outras de cobiçosos seios,
Mas era eu quem amamentava tua imagem de perfeição.
Era eu a eleita, não vistes!
Era eu a mãe! Não vistes!
Merda!
Era eu! Era eu a mulher amada, a eleita, a querida, a única.
É tarde! Ponho os caqueiros espalhados pela casa,
Assumo missas nas noites em que as dores vertem de mim,
Arrisco pistas que te percam definitivamente.
É tarde! O sono chega e eu te esqueço,
Eu te desconsolo em agonia,
E masturbo o meu sexo molhado, mole,
Clamando por machos de papel, machos de vidro,
De canavial, paisagem da estrada.
E aqui, encontras outra.
Farta da indiferença que me fez galopar tanto,
Trotando meu cavalo
Sobre espinhos rubros.
Lorca teria pena e raiva de ti!
Até hoje galopo, até hoje feneço.
Até hoje meu cavalo persegue a água, o capim.
Senhor meu noivo!










                                                                    CICLOS
                                                                             Rita Santana


Quero completar o tempo, o ciclo e o açúcar.
Chegar em casa mui tarde, feito criança perdida no carnaval.
Ouvir largos sermões, sem nada dizer,
Apenas que espio e calo.

E mais uma vez obrigar-me aos teus espólios,
Tua polidez de gado queimado, teu susto.
E mais uma vez ofertar-me
Aos teus gemidos de burro manso e cansado.

Antes, deixa eu completar a estação das cercas,
Deixa banhar-me no rio de mesmas águas,
E descobrir em cada elemento,
O teu mistério de ausência.
Arrebanha-me, velho bode Pã,
No teu pânico humano de existir.
E, se conseguires,
Alimenta-me esta fome em que feneço,
Desde os primeiros tempos.
Adianta o projeto de possuir meus vícios,
Acaricia, sem pena, a minha pele escura de negra dura e mole.
Consola o meu Karma de não ser reconhecida como sol,
E deixa minhas velhas queixas pra lá!
Vai levando meus lamentos como mimos de filha nova,
Vai ouvindo e esquecendo, beijando vez em quando.
Vamos esperar, juntos, a nova safra de cajus e siriguelas.
Esperemos, juntos, as flores da nossa rua cobrirem os muros.
Esperemos a hera espalmar-se
Sobre toda a parede que cerca a casa.
Esperemos o flamboyant crescer e ficar todo vermelho.
Vida toda é pouco pra quem ama.

 
Ilustração: Rita Santana

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

                                               


Foto: Rita Santana
                                                                                   
                                                          ABISMOS
                                                                              Rita Santana



Abismo o teu nome no meu corpo inteiro.
Traço toda a devassa futura e,
Num ritmo de outono e noite,
Decido dizer-te arrogâncias.
Mas o brejo sobe à alma e digo apenas: te amo, querido.

Como se pudesse dizê-lo, assim, à mesa,
Fritando ovos para deitar no pão.
Como se pudesse fazê-lo homem meu,
Diante de copos e xícaras.

Abismo tua casca de ovo partida sobre
As nossas sementes de maracujá,
Nossos talheres brilhantes.
Minha pele coberta com tuas digitais vagaluminosas,
Tua pele umedecida com meus licores lúbricos.

Eu, tomate sem casca sobre a pia,
Pensando em tua escova de dente vencida.
Abismo o teu nome na minha veia,
Singrando meu veneno-tejo,
Meu Cachoeira morto.
Eu, rio de vias tuas.
Tu, cio de minhas veias.
Abissais.



domingo, 26 de dezembro de 2010

        


                                EU NÃO ESTOU BLINDADA
                                                             Rita Santana

          Durante uma entrevista à TV Bahia, o secretário de Segurança Pública César Nunes, questionado sobre as ações a serem tomadas para evitar a violência no Estado - cuja população encontrava-se assustada com a morte das duas meninas decapitadas e a morte do menino Joel assassinado por policiais enquanto se preparava para dormir - respondeu que as ações deveriam ser de toda a sociedade. Escola, família, igreja, enfim, todos teriam responsabilidade com a redução da violência no nosso Estado. A impotência diante de um quadro cada vez mais amplo de violência parecia presente em sua fala.

          Penso nas imagens divulgadas sobre nós baianos e nordestinos o tempo inteiro na televisão. Imagens acintosas e caricaturais nos programas de humor, nos telejornais e nas telenovelas. Somos aviltados frequentemente na nossa identidade, nas nossas peculiaridades identitárias. Ainda insistem em ignorar os estudos sociolinguísticos e a diversidade cultural que há no país, para continuar inserindo estereótipos que contaminam e formam opiniões, conceitos e comportamentos adversos em relação a todos nós. Por que estranharmos a manifestação da estudante de advocacia Mayara Petruso e dos internautas que manifestaram xenofobia contra os nordestinos após o resultado das eleições? Não consigo apartar tais atitudes da cotidiana agressão que sofremos pelos meios de comunicação de massa.

          Quanto à eleição presidencial, alguém já parou pra pensar na repercussão dos debates na população? O candidato José Serra ignorava que estava diante de um público leitor e eleitor, diante de jovens cidadãos. Dilma, cujo tom do discurso inicialmente foi até mesmo tíbio devido à inexperiência de palanque, foi obrigada ao longo da campanha a tornar o seu discurso mais ofensivo e reativo. O candidato, no entanto, não tinha limites na sua estratégia de ataque.

          Estamos vivendo os nossos primeiros tempos democráticos, portanto, há que se cuidar da ética, dos princípios de civilidade e respeito ao outro para que tenhamos uma sociedade menos violenta, mais educada. Não parece haver nenhuma relação entre o caráter ofensivo da campanha e a violência urbana instalada, mas eu vejo claramente um elo. Quantos colegas de trabalho, amigos, opositores políticos não nos enviaram e-mails vergonhosos sobre a candidata? O estupro simbólico daquelas mensagens preconceituosas contra a esquerda, contra a mulher, contra a sua história de resistência política, contra a política de inserção social. Tudo aquilo era deprimente e ofensivo demais.

          A selvageria de jovens da classe média na Avenida Paulista revela a sanha dos homofóbicos. O mesmo pensamento está nos discursos de professores quando afirmam que homossexualismo é coisa do demônio porque Deus fez o homem para a mulher. Simplista e ingênuo demais para educadores. O respeito às diferenças deve ser estimulado naquele ambiente pedagógico. É preciso aceitar o Outro. Aceitar as religiões de matriz africana. Formar cidadãos de todas as etnias que respeitem o negro e suas tradições, seus rituais religiosos.

          Assim, não assistiremos novamente a episódios como o da senhora Bernadete Souza Ferreira - uma Ialorixá de Ilhéus - que foi jogada num formigueiro, aprisionada e torturada por policiais. Qual a etnia desses homens que zombaram do seu transe religioso, da sua religião, da sua origem? Qual a etnia dos policiais que mataram o menino Joel, morador do Nordeste de Amaralina? Qual a formação que tiveram sobre isso na escola e na família? É daí que parte a minha reflexão. Quais os programas e telenovelas que assistiram? O que dizem os seus pastores na igreja, na televisão? A responsabilidade é de todos!

          Não seria o tempo de vigiarmos os nossos discursos, as nossas piadas, as brincadeiras constantes contra homossexuais? Não estaria também nesse corriqueiro discurso do dia-a-dia a nossa parcela de responsabilidade com tantos atos violentos?

         Frequentei um curso onde tínhamos aula à distância e os nossos interlocutores eram de Portugal, do Rio de Janeiro e da Bahia. Era absurdo o que presenciávamos. Os professores de Portugal manifestavam o seu ceticismo em relação aos professores e historiadores brasileiros. Os professores do Rio ignoravam que houvesse vida inteligente na Bahia e menos ainda no interior da Bahia, que também participava do curso. E provavelmente muitos de nós que estávamos na capital também pensássemos o mesmo sobre os professores do interior. Um emaranhado de equívocos e descaso ao conferir ao Outro um julgamento prévio devido à sua origem, ao seu território.

          Mecanismos de solidificação de uma imagem negativa e desprezível são acionados o tempo inteiro contra negros e indígenas. Estou assistindo à personagem de Cleo Pires representando uma indígena na novela Araguaia. Não sei aonde a trama levará a personagem, mas fico ofendida e tentada a desistir da novela porque me recuso a ver a personagem sendo humilhada, desfalcada de origem familiar, como sempre aconteceu com os negros, e correndo atrás de Solano, enquanto ele dedica a Manuela, interpretada pela atriz Milena Toscano – ideal loiro de beleza – o seu amor sublime.

          Perderam uma oportunidade única de desconstruírem a imagem negativa atribuída ao indígena, através de uma representante belíssima, descendente de indígenas e que está no topo da mídia com o recente ensaio sensual para a revista Playboy, além das personagens que interpreta sempre com muita empatia com o público. Mais uma vez optam pelo óbvio: o triângulo amoroso maniqueísta onde a branca é a heroína que promove o bem e atrai para si todos os atos de nobreza. Enquanto a personagem indígena - historicamente desprezada - é a vilã dos feitiços, do mal, ligada à morte, à maldição, à paixão selvagem em oposição ao amor puro e trespassado por obstáculos, quase platônico, que o herói dedica à outra personagem. A teledramaturgia despreza a história de luta e resistência do povo indígena e os enfrentamentos políticos desses povos no mundo contemporâneo.

          No mesmo folhetim, ainda temos a personagem circense Pipinela, um negro fugitivo da polícia – marca quase indelével nas representações do negro - por um crime que não cometeu. Vi Pipinela interpretado por Nando Cunha salvando a mocinha por quem é apaixonado das mãos de Max, personagem de Lima Duarte, e sendo chicoteado no rosto por ele enquanto estava quase agachado, numa posição de inferioridade e submissão. Simbolicamente aquela chicotada impregna ainda mais o imaginário coletivo com esse lugar destinado ao negro ainda hoje na nossa dramaturgia. Além de ser completamente inverossímil aquele homem forte e jovem apanhar daquela forma de um homem mais velho sem esboçar nenhuma reação, ainda mais por estar em defesa e em presença da mulher amada. Foi o herói da trama interpretado por Murilo Rosa quem o salvou das mãos do seu algoz. Inacreditável e perverso para a imagem do negro num país onde o escravismo deixou tantas marcas.

          As três “jóias negras” da novela completam o restrito núcleo de atores negros. São filhas do casal interpretado por Tânia Alves e Gésio Amadeu. As três mocinhas surgem na novela sempre associadas à sensualidade exacerbada, usando sempre shortinhos – supostamente porque trabalham numa agência de turismo - insinuando e exibindo o corpo a todo o instante, inclusive com músicas que apelam para a sensualidade da mulata, recurso ultrapassado e que deveria ser evitado porque fortalece essa construção histórica sobre nós, mulheres negras. Mais cuidado com a exposição dessas três belas atrizes Cinara Leal, Nanda Lisboa e Raquel Vilar. A responsabilidade social com as personagens e as imagens que projetam é muito grande.

          Aqui na Bahia temos uns programas de televisão onde os criminosos são expostos aos jovens e às famílias de forma sensacionalista. Penso nos Direitos Humanos e no Ministério Público. Corpos e pessoas são exibidos aos olhos da população de todas as idades, acompanhados de gritos histéricos e violentos dos apresentadores que colaboram para a formação de machistas truculentos, mães raivosas que também influenciarão na personalidade punitiva e feroz dos filhos contra os bandidos. Algum cuidado com as crianças que assistem aos programas, com a formação dessas mães, dos pais? Alguém cuida desse conteúdo? Qual o discurso reproduzido cotidianamente para esses estudantes quando chegam em casa na hora do almoço? Isso pode exercer alguma influência no comportamento desses jovens ou eles estão imunes?

          A guerra do Rio de Janeiro veio e completou o estado de horror e impotência. O bombardeio de imagens e notícias atravessa a nossa vidraça! Estamos em pleno tiroteio e balas perdidas cruzam nossas consciências. Senti a alegria do povo que mora nas comunidades pobres do Rio e compartilhei o alívio com tantas pessoas desconhecidas. Sentimos, todos nós juntos, uma espécie de vitória contra o crime. Sentimos uma espécie de orgulho nacional pelo heroísmo dos nossos policiais; vibramos pela coragem do nosso exército. Fomos tomados por um suspiro geral seguido do sentimento de que finalmente a polícia do Rio deu um basta na desordem urbana causada pelo tráfico. Uma ação conjunta entre as forças nacionais liberta a população das ameaças do tráfico, com direito a bandeiras do Brasil e do Rio tremulando no alto do morro do Alemão e tudo. Vitória! Mas vitória contra quem? Vitória contra uma gente pobre e negra que aparece na TV e nos jornais exibindo toda a historicidade de abandono secular, toda a fragilidade política da nossa condição nesse País.

          A imagem divulgada não é do Outro, não há alteridade naquelas pessoas. Somos nós que estamos ali retratados e representados. O povo negro! São nossos alunos, nossos parentes, nossos filhos, nossos vizinhos, irmãos. Somos nós! Não são simplesmente bandidos. Os presídios hoje estão mais negros! E isso não é exercício de retórica! Vi mães e pais negros entregando seus filhos à polícia. Há mais envolvidos com o tráfico e eles não moram nas favelas e não são negros. Onde eles estão?

          Eu não estou blindada! Segundo Sartre, somos responsáveis por toda a humanidade quando fazemos as nossas escolhas. Na África tradicional a criança é educada por toda a comunidade, todos têm responsabilidade sobre ela e sobre a sua formação, não apenas os pais. E para completar, o padre Antônio Vieira nos aponta para um segundo nascimento, necessário a cada dia para que sejamos inteiros: “Ser o maior dos nascidos, enquanto nascido, é pequeno louvor e de pouca dura; ser o maior dos nascidos, enquanto ressuscitado, isso é verdadeiramente o ser maior. Na nossa mão está, se o quisermos ser.” Ressuscitemos!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010







EIVA
                                                                                           Rita Santana




Entre nós, fez-se fundura de poço seco,
Resguardo e sortilégio de solidão escapa.
Coisa finda veio vindo entre nós,
Amanheceu romaria de mágoas guardadas;
Anos e anos, sem remendos, sequer palavras,
Foi-se afundando, sem disputas, o abandono,
Corte de seiva, surras, bravuras lavradas nas farpas do medo,
Eco de consolo extinto, vinho tinto à mesa.
Era Eiva, manchando de preto o mundo até ali,
Era Eiva, sangrando o meu corpo dele,
Tingindo a casca do amor maduro,
Arruinando de aromas o Fim.


 








 
Foto: Henrique Andrade
Modelo: Rita Santana 
Poema do livro Tratado das Veias








 



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010














                                                     PANCETTI

                                                               Rita Santana




Marinheiro, quem é a mulher que corre na praia?
- É Stella que veio de longe,
Vento foi quem trouxe,
E deixou-a aqui.
É ela distante,
Trazida das pedras,
Que veio visitar meu horizonte azul.

Marinheiro, quem é a mulher que corre na tela?
- É Stella caída do céu,
Surgida na areia,
Filha das ondas.
Lua foi quem trouxe,
E deixou-a aqui.
É ela errante,
Figura sem rosto,
Que veio visitar meu horizonte azul.

Pancetti, quem é?
- É Musa cansada de não existir.
É vento,
É estrela,
É Stella.
É ela.
É saia vermelha no meu horizonte azul.





Foto: Henrique Andrade
Modelo: Rita Santana 
Poema do livro Tratado das Veias


















                                                    ORFANDADE
                                                                  Rita Santana



A condição humana é de uma orfandade sem limites!
Eu sou filha de Lilith,
Tenho acordos sentimentais com os demônios,
Estou sempre a cair do inferno dantesco,
Estou sempre a beijar, sou a mulher do Beijo.
Sou ridícula, sou de Calais!
Quero do poeta o mundo, musa torpe, eu sou.
Doa-me instantezinhos de merda.
Sou Camille.
Socorra-me!
Meu Rodin roda, roda,
Modelando corpos, culpas, covardia.
Tenho açoites na língua, salivas no sexo,
Meus protestos são insanos.
Sou confusa musa de ônix,
E vivo de guardar na memória formas,
Veias.
Impressiono o mundo com o pé que minha mão constrói
Mas dói demais ser intensa,
Ser chama,
Viro fumaça.
Ando virando fumaça qualquer.
Contorcida massa, desvirtuo destinos e sucumbo ao céu.
Toda torta.
Faça-me!







Foto: Henrique Andrade
Modelo: Rita Santana 
Poema do livro Tratado das Veias




 















                                             COITA INSANA
                                                               Rita Santana



A tua ausência ia muito além dos rituais da servidão.
Adolescia todas as horas do dia,
À espera do teu nome.
Eras, em vastidão, afinidade
E cata selvagem de ordens.
Dei-me às ofensas, aos rumores,
Aos distúrbios definitivos da memória.
Tudo perdi de reminiscências e aventuras.
Dei-me aos dardos, em busca da tua lâmina.
Fiz-me senhora das horas, dos lustres.
Do farejar da tua língua, fiz santuário de premonições,
De ritos e cânticos fiz minha espera.
Tua permanência era o meu desvelo de cega afoita,
Minha rede de heras no cio, meu dedilhar de cordas.
Eu era sede, ser e pão.
Esqueci-me de ser mulher, de ter carne, ossos e ânsias.
Tua permanência tardava e tua ausência era.
Dei de calar por horas, jejuando teu nome, tua alcunha.
Dei de manipular minhas partes, em querência do teu toque,
Grávida da tua ausência.
Dei de dar alegria pros homens da minha aldeia,
Pensando na arte de possuir teus vícios,
Tua poeira fincada em peles,
Tua avidez de macho banido, teu recolhimento em hóstias.
Ceia dos meus tormentos,
Dei de querer-te! Dei de querer-te!
Abutre, fiz meu desejo.
Dei de ser saliva e vulto,
De dar aos bardos maestria de fêmea,
De inventar punições aos restos, ciscos do ido.
Dei de maldizer a avidez dos insones,
Maldizer a lentidão das donzelas,
Maldizer a insensatez dos vencidos.
Dei de acender velas ao sol,
Querendo-as ainda mais quentes.
Dei de querer ser santa e fazer milagres da minha espera:
Quando chega a primavera, eu viro chuva
E saio a te buscar por toda a terra.





Foto: Henrique Andrade
Modelo: Rita Santana 
Poema do livro Tratado das Veias



                                    

                                    CIÚME

                                                             Rita Santana



As imagens frequentam o meu palácio,
Ganham janelas e cômodas, visitam gavetas.
Masco o meu ciúme sem defesas, sem gravetos secos,
Sem dedos em riste.
Só, eu e o meu palpite de fada negra.
Nas charnecas, deito o meu idílio de dama cansada.

Arreio a ira, a febre de crime passional,
Arreio minhas ancas duras de mulher que tem querer,
Arreio meus seios moles de vaca parida,
Penso protestos feministas com camas nas calçadas.
Que nada!
Tudo são dunas de mulher perecedora,
Vento carrega e a alvenaria se faz noutro lugar.
Cozo abóboras amarelas inteiras,
Preparo recheio de confissões de dengo,
E arrumo o quintal pra festa.

O que me resta é entrar na roda e tergiversar
Ou só versar, tocar minha lira,
E virar Safo de mármore na praça de Ilhéus,
Minha Lesbos abandonada.
Gritos, gemidos de gozo mudo, orgasmos de madalenas,
Poemas inteiros dedicados ao Farol, ao Raio.
Deixo meu afeto ao Sol e viro grama.










Foto: Henrique Andrade
Modelo: Rita Santana 
Poema do livro Tratado das Veias